“Tentei apartar a confusão e nisso levei um soco”, relata Sâmia Bonfim, estudante de Letras e diretora do DCE

Realizada em 11/4 no prédio de História e Geografia da FFLCH, a última assembleia geral dos estudantes não chegou ao seu fim. Uma briga entre militantes do Partido da Causa Operária (PCO), diretores do DCE-Livre Alexandre Vannucchi Leme e uma parte do plenário culminou na agressão, supostamente por um membro do PCO, à estudante Sâmia Bonfim (Letras), diretora do DCE e militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL); na derrubada e quebra de uma caixa de som da entidade; e, por fim, na suspensão da assembleia.

A hostilidade começou durante os informes, mais precisamente no momento em que Sâmia lia uma carta elaborada pela Frente Feminista da USP para denunciar situações de machismo sofridas e relatadas por ela própria. “Alguns dias depois da última Assembleia Geral dos estudantes da USP, ocorrida no dia 14 março e que foi conduzida por duas mulheres e um homem, diretores do DCE, uma das componentes da mesa relatou um caso de machismo vindo de um estudante bastante ativo no Movimento Estudantil. O militante do PCO André Sarmento encontrou-a nos corredores da FFLCH e disse coisas como ‘da próxima vez, coloca um homem na mesa que garante melhor’ e ‘não é porque você é mulher que eu não posso partir pra cima’”, dizia trecho da carta.

Antes que conseguisse chegar ao fim da leitura, Sâmia foi interrompida por membros do PCO, que exigiam direito de resposta. Segundo uma aluna de Letras presente à assembleia e que não quis se identificar, nesse momento os militantes do PCO foram em direção à mesa e fizeram menção de tomar o microfone. “A mesa não deu direito de resposta, porque não se pode pedir isso antes de a fala ser finalizada”, comenta essa estudante.

A movimentação deflagrou uma discussão entre diretores do DCE e os militantes do PCO. “Tentei apartar a confusão e nisso levei um soco”, conta Sâmia ao Informativo Adusp. Ela não viu quem lhe deu o golpe. “Mas as pessoas que viram dizem que não foi o André, mas algum [outro] membro do PCO”, completa. Pedro Serrano, diretor do DCE e estudante de Ciências Sociais, acredita que a agressão não foi casual. “Foi uma militante que já vinha sendo perseguida quem levou o soco no olho”.

Machismo

“Quem impediu a continuidade da assembleia geral dos estudantes foi o PCO, seus métodos e, sobretudo, o machismo”, afirma o DCE em nota de repúdio ao ocorrido. “Para o DCE-Livre da USP, os estudantes que reproduzem tais práticas, marcadamente os ativistas do PCO citados nessa nota, não devem mais encontrar espaço no movimento estudantil da USP”.

Questionados sobre o tom segregacionista do trecho, membros do DCE esclarecem que a entidade tentou tratar das perseguições machistas de forma política e ampla, levando o debate para a assembleia por meio da leitura da carta do grupo feminista. “É claro que o DCE não tem poder para decidir que partido participa ou não do espaço político na USP, isso não está no nosso alcance. Mas não podemos admitir que estudantes sejam coagidos no movimento estudantil simplesmente por serem mulheres”, diz Serrano.

Artigo publicado no site do PCO, dias antes da assembleia frustrada, afirma que a acusação de Sâmia é caluniosa: “Trata-se de uma ameaça para tentar intimidar os militantes do PCO e usar o suposto caso de machismo para, sobre essa base, impedir que se dê uma disputa na assembleia geral, que é o que de fato está em jogo no caso”.

Procurado pelo Informativo Adusp, o estudante André Sarmen­to não respondeu às solicitações. A direção da FFLCH não comentou o episódio.

Nota da Adusp

A Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo repudia a prática, por militantes do movimento estudantil, de agressões verbais e físicas que tiveram e têm como alvo diretoras do DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”.

A Adusp considera inaceitável a violência no meio universitário, em especial entre estudantes, e particularmente entre militantes políticos. O machismo presente nas agressões cometidas é um agravante que merece ser denunciado e repelido pela comunidade universitária.

A Adusp entende que divergências políticas devem ser mediadas pelo diálogo e pelo funcionamento democrático das instâncias e fóruns dos movimentos sociais. Violência e machismo só interessam ao conservadorismo, ainda hege­mô­nico na sociedade brasileira.

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