Faleceu no dia 4/7, aos 85 anos, o professor Ernst Wolfgang Hamburger, vítima de um linfoma. "Ernesto", como era carinhosamente chamado por seus alunos e colegas, exerceu destacado papel não apenas no Instituto de Física (IF) da USP, mas na ciência brasileira, como professor, como pesquisador e como divulgador do conhecimento científico. Presidiu a Associação dos Docentes da USP (Adusp) e tomou parte em embates importantes contra a Ditadura Militar.
 
De família judia, Ernst Hamburger nasceu em Berlim, na Alemanha, em julho de 1933, mesmo ano em que Adolf Hitler chegou ao poder. Em 1936, a família decidiu emigrar para fugir da perseguição nazista e chegou ao Brasil em outubro do mesmo ano, instalando-se na cidade de São Paulo.
 
Ingressou no curso de Física da então Faculdade de Filosofia da USP e, ainda na graduação, foi estagiário na montagem do acelerador eletrostático Van der Graaff, aproximando-se da física nuclear, sua área de pesquisa. Formou-se em 1954. Em 1956 foi para os Estados Unidos, onde realizou seu doutorado na Universidade de Pittsburgh, juntamente com a esposa, a também física Amélia Império, que fora sua colega na graduação. Após fazer a livre-docência na USP, em 1962, prestou concurso para professor titular em 1967, tornando-se docente da universidade aos 34 anos.
 
Dedicou-se a combater a evasão dos graduandos em Física por meio do engajamento em experiências práticas, criou o Simpósio Nacional de Ensino de Física, colaborou na criação da Pós-Graduação no ensino de Física e publicou importantes trabalhos sobre a estrutura dos núcleos atômicos e sobre as reações nucleares.
No final da década de 1970 criou o Laboratório de Demonstrações do IF, voltado para divulgação de experimentos e fenômenos da física, dando assistência didático-pedagógica aos docentes do instituto e da Escola Politécnica (EP). O laboratório, inicialmente denominado "Prateleira de Demonstrações", foi mais tarde, em sua homenagem, batizado com seu nome.
 
Entre 1994 e 2003, Hamburger dirigiu a Estação Ciência, museu da USP com exposições interativas sobre diversas áreas científicas, hoje inativo. Suas iniciativas no setor de divulgação foram distinguidas com duas importantes honrarias: o Prêmio José Reis de Divulgação Científica, do CNPq (1994) e o Prêmio Kalinga para a Popularização da Ciência, da Unesco (2000). Ele também foi diretor do IF.
 

Carta ao ditador Médici em protesto contra perseguição a cientistas

Hamburger não se omitiu na luta contra a Ditadura Militar. Participou da fundação da Adusp e foi, posteriormente, presidente do sindicato. Antes disso, porém, na condição de secretário-geral da Sociedade Brasileira de Física, foi signatário de uma corajosa carta ao ditador Garrastazu Médici, protestando contra o Ato Complementar nº 75, que afastava das universidades públicas os professores e cientistas tidos como contestadores.
 
A carta encaminhada a Médici, após registrar que "vários membros da Sociedade Brasileira de Física, entre eles alguns de seus diretores, mundialmente conhecidos e respeitados pelo alto valor de suas atividades profissionais, estão sendo impedidos de trabalhar em entidades públicas ou subvencionadas, por força do referido Ato Complementar nº 75", e que "estão sendo absolutamente impedidos de trabalhar, a menos que abram mão de sua dignidade profissional, que contrariem suas aptidões já identificadas e plenamente desenvolvidas, que considerem nulos os longos anos de estudo e de trabalho, dentro e fora do Brasil, que renunciem a colaborar para o progresso da Humanidade no setor a que dedicaram toda a sua existência", fazia duras críticas à legislação ditatorial.
 
"Ainda que se aceitassem como justas as punições sofridas por aqueles físicos", continuava ele, "e não se pode aquilatar da justiça, uma vez que, como é do conhecimento de Vossa Excelência, nem os punidos nem o signatário sabem os motivos das punições, o Ato Complementar nº 75, além de configurar um atentado frontal à liberdade de trabalho, representa a negação de outros princípios fundamentais inerentes à preservação da dignidade humana e consagrados pelas tradições jurídicas dos povos civilizados".
 
E arrematava: "Por todos esses fundamentos, na expectativa de que os atos de Vossa Excelência confirmem as intenções proclamadas, o peticionário solicita a Vossa Excelência que, no uso da faculdade assegurada pelo artigo 182, parágrafo único, da Constituição vigente, decrete, após ouvido o Conselho de Segurança Nacional, a revogação do Ato Complementar nº 75".
 
Em 1977, depois que o regime militar proibiu a realização da 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Reitoria da USP recusou-se a sediá-la, Hamburger e outros membros da entidade, como a professora Carolina Bori, enfrentaram o veto e conseguiram realizar o encontro na Pontifícia Universidade Católica (PUC): "Ele organizou uma Comissão de Associados da SBPC num grande movimento nacional e, com a colaboração do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, essa importante reunião aconteceu na PUC São Paulo", relata o professor sênior João Zanetic, que foi seu colega no IF.
 
Ernst e Amélia, que também se tornou docente da USP, lecionaram por décadas no IF, legando uma memorável lição de amor à ciência desinteressada e ao ensino público. Amélia faleceu em 2011. O casal deixou cinco filhos: Sônia, Vera, Fernando, o cineasta Cao e a antropóloga Maria Esther, professora do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA).
 
Em 2013, o Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Cepid Neuromat) produziu um vídeo em homenagem ao professor, disponível aqui.