30anos

A Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) acaba de completar 30 anos de existência. Sua primeira assembléia, ainda com diretoria provisória, ocorreu em outubro de 1976. Convém relembrar brevemente o cenário de sua fundação, tomando como referência matérias da Revista Adusp nº 8, edição especial de dezembro de 1996, dedicada aos 20 anos da Adusp.

Vivíamos os “anos de chumbo” da ditadura militar no país. O ano de 1976 se iniciou com a cassação dos deputados oposicionistas Marcelo Gatto, Nelson Fabiano e Lysâneas Maciel, e terminou com o assassinato de três dirigentes do PCdoB, Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond, episódio este que passou a ser conhecido como a “chacina da Lapa”. Por outro lado, 1976 marcou o reinício do movimento estudantil, registrando também grande atividade da intelectualidade e da Igreja, de combate à ditadura militar.

As mortes do jornalista e professor da USP Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em janeiro de 1976, representaram a “gota d’água” para muitos setores populares, dando origem a um novo e decisivo ciclo de protestos contra a ditadura, mudando o panorama político. Em junho de 1976, fruto do esforço de organização dos estudantes, foi criado o DCE-Livre da USP. Em outubro, fruto da iniciativa de docentes da USP, indignados com o assassinato de Herzog, nasce a Adusp.

Auxiliares de Ensino

A criação da Adusp está relacionada com a Associação de Auxiliares de Ensino, que havia se constituído na USP em 1956, englobando todos os professores não catedráticos. A Associação teve um papel importante na luta pela incorporação do contrato de tempo integral e participou intensamente em favor da fundação da Fapesp. Em 1964, além de continuar empenhada em reivindicação salarial, a Associação tornou-se alerta com relação à perseguição política que docentes passaram a sofrer, dada a situação ditatorial instaurada. Foram árduos os anos de 1964 a 1967. Sem renovação, a Associação acabou “morrendo”, deixando os docentes da USP órfãos de uma entidade representativa.

Em 1968 foi fundada a Associação Paulista de Professores do Ensino Superior (Apes). A vigência do AI-5, porém, levou à Apes ao colapso já em 1969. Em 1975, no entanto, a morte brutal de Herzog despertou, além de protestos contra sua morte e contra a inaceitável opressão política, um movimento de solidariedade entre os docentes da USP.

Recuperado o antigo estatuto, e diante da nova estrutura da USP, a Associação de Auxiliares (res)surgiu como uma associação de todos os docentes da USP, inclusive os titulares: tornou-se a Adusp. A enorme deterioração salarial, o clima de repressão e timidez intelectual em função do AI-5, prejudicava muito o ambiente de pesquisa, inibindo as relações entre as pessoas na universidade. O aspecto mais grave da repressão interna era a triagem ideológica na contratação dos professores.

A Adusp conseguiu inibir a influência na contratação de pessoal pelo órgão de segurança da USP. Os critérios de contratação, defendia a Adusp, deveriam (e devem) ser científicos e culturais e não de ordem política ou repressiva. A liberdade acadêmica, fundamental, foi claramente defendida desde a primeira diretoria da Adusp.

Papel importante

A primeira diretoria eleita da Adusp desempenhou um importante papel na criação de associações de docentes em inúmeras universidades no país, que culminou com a fundação da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes). Na Constituição de 1988 o funcionalismo público conquistou o direito à sindicalização. Daí surgiu o Andes– Sindicato Nacional e a Adusp se transformou em uma de suas seções sindicais.

Nos anos mais recentes, do ponto de vista interno, a Adusp tem atuado contra uma tendência nefasta, que tem acometido sucessivas administrações, de garantir o funcionamento da universidade às custas do arrocho de salários e da perda de quadros docentes e funcionários técnico-administrativos. Tem lutado ainda contra os contratos precários, as fundações privadas ditas “de apoio”, a estrutura e o funcionamento autocráticos da Cert, o Estatuto, que impede a democratização da USP e da destinação de sua produção.

Desde a conquista da autonomia financeira, em 1988, a Adusp tem integrado o Fórum das Seis, articulação que une as entidades de docentes, funcionários técnico-administrativos e estudantes da USP, Unesp e Unicamp, bem como do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, e que define pautas conjuntas para negociar com o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), o que contribuiu para barrar, ao longo da última década, uma perda salarial estimada em quase 90%.

A Adusp tem atuado na defesa constante da democracia e do ensino superior público de qualidade para toda a sociedade, e continuará a fazê-lo com todas as forças que estiverem ao seu alcance.

Comemoração

Para comemorar os 30 anos da Adusp foram programadas duas atividades, que estão nominadas no quadro com o cartaz comemorativo. Na atividade de 23/11 pretende-se relembrar um pouco mais da história da Adusp, com depoimentos de ex-diretores, particularmente do início ousado da entidade nos “anos de chumbo”; da primeira greve do funcionalismo estadual; da luta junto com a comunidade do Butantã pela instalação do HU; da primeira consulta direta para a eleição de reitor; da queima dos arquivos da USP no período ditatorial; da longa greve vitoriosa de 1988, que culminou com o salário referência de janeiro de 1989 e da autonomia. Ao final dessa atividade acontecerá um coquetel, animado com música e com um Auto de Natal.

Na atividade de 29/11 discutiremos a crise do trabalho no capitalismo contemporâneo e seus reflexos no funcionalismo público e nos seus sindicatos.

 

Matéria publicada no Informativo nº 226