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Os 30 anos da Adusp foram comemorados na quinta-feira, 23/11, com um ato no anfiteatro Luiz Trabulsi (ICB-3) que contou com a presença de ex-presidentes da entidade — os professores Crodowaldo Pavan, Modesto Carvalhosa, José Jeremias, Judith Klotzel e Francisco Miraglia — e de seu ex-vice-presidente, professor Antonio Cândido. No ato, coordenado pelo atual presidente da entidade, professor César Minto, todos os ex-dirigentes fizeram uso da palavra.

Primeiro a falar, o professor Jeremias, que presidiu a Adusp no período 1981-83, historiou alguns dos fatos marcantes da vida da entidade, como a luta contra a triagem ideológica durante a Ditadura, a primeira consulta à comunidade para indicação de reitor, a atuação no movimento sindical renascente e no movimento pela Anistia, a participação na criação da Fapesp.

O professor comparou a luta travada nos primeiros tempos da Adusp, “em defesa de direitos mínimos”, contra um regime ditatorial, com a luta atual em defesa da universidade pública, “mais difícil, mais sutil, mais complexa”. Destacou a resistência da entidade contra a privatização, lembrando que a Adusp denunciou as fundações privadas já nos anos 1980.

“Hoje nossos adversários estão dentro da universidade. O mecanismo de deformação nasceu na USP, na Unicamp, e nós exportamos”, afirmou, dizendo tratar-se de um mecanismo de ação profunda, muito difícil de ser combatido.

De acordo com o professor Jeremias, o primeiro ato público realizado na universidade brasileira após a edição do Ato Institucional nº 5 foi a assembléia de criação da Adusp, em outubro de 1976. Ele citou vários militantes da Adusp, dando ênfase à intensa participação do professor Alberto Rocha Barros como articulador e organizador, e da professora Judith Klotzel no movimento pela Anistia.

História oral

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Apresentação musical durante a festa de 30 anos da Adusp

“Momentos de ruptura são fundados no sentimento coletivo”, afirmou o professor Carvalhosa, que presidiu a Adusp no biênio 1977-79: “a leitura daquele período”, assinalou, “só pode ser feita por meio da história oral, ou seja, de uma percepção testemunhal das emoções que então predominavam e não fundada apenas nos fatos documentados”.

Ele relatou episódios de enfrentamento da liderança docente com a “ditadura interna”, isto é, diretores de unidade que só faltavam “vestir farda” e que exerciam “patrulhamento ideológico e logístico, impedindo mesmo o uso das instalações do campus para as reuniões e assembléias da Adusp, além de fornecer todo o tipo de informação à Reitoria e aos órgãos de repressão”.

A invasão do Salão Nobre da Faculdade de Direito, em 11 de agosto de 1978, por docentes e estudantes, por ocasião da leitura da “Carta aos Brasileiros”, do professor Gofredo Telles Jr., e a “histórica greve do primeiro semestre de 1979 contra o governador Maluf, enfrentando o regime militar”, foram dois momentos comentados pelo professor Carvalhosa.

Ele também falou da repercussão do Livro Negro editado pela Adusp em 1978: “Fizemos milhares de cópias e as distribuímos para professores e alunos, e para livrarias, que, por sinal, venderam todos os exemplares”. A publicação, acrescentou, “constituiu a ação culminante e duradoura da Adusp naquele período”.

Carestia

No seu depoimento, a professora Judith, que presidiu a Adusp no período 1985-87, também relatou as dificuldades enfrentadas com a repressão e com o então reitor Hélio Guerra, bem como a atuação intensa da entidade em iniciativas políticas mais amplas, como a Campanha pela Anistia e o Movimento contra a Carestia.

“Escondi várias pessoas, líderes estudantis, que ficaram na minha casa”, contou a professora, rememorando a organização dos docentes na Faculdade de Medicina e no Hospital das Clínicas, em atuação conjunta com a Associação de Funcionários. Ela também destacou a participação da Adusp no movimento sindical, inclusive em todos os Conads.

Visões distintas

O professor Francisco Miraglia, que esteve à frente da entidade no período 1987-89, na primeira gestão comandada pelo grupo “Participação”, chamou atenção para a necessidade do debate político de qualidade e do trabalho coletivo, como pressupostos para a afirmação da Adusp. Para ele, as divergências políticas entre seu grupo e o anterior — representado pelos professores Jeremias, Judith, Rocha Barros e outros — não impediam o diálogo em torno da defesa dos interesses da categoria: “Tínhamos visões distintas sobre como conduzir a entidade, mas o debate era enriquecedor e feito dentro de um determinado campo”, observou, citando o apoio de Judith à greve dos metalúrgicos realizada em 1978.

Ao abordar as questões enfrentadas hoje pela Adusp, o professor citou a luta contra a Cert, criticando a “produtivite que atacou a universidade”. “O trabalho intelectual é artesanal e não pode ser submetido aos critérios da produção industrial”, acrescentou. Referiu-se à falta de democracia na USP e à necessidade de a universidade transformar-se em instrumento de emancipação da sociedade brasileira, destacando, nisso, o papel das entidades de representação.

O professor Miraglia afirmou que o trigésimo aniversário da Adusp é motivo de orgulho, mas advertiu que a situação atual “não recomenda ufanismo, mas sobriedade”, diante das ameaças ao ensino público, gratuito e de qualidade.

Fundamental

Para o professor Antonio Cândido, “a existência das associações de docentes, funcionários e alunos é fundamental para a universidade”. Ele destacou as conquistas e a experiência das associações que precederam a Adusp: a Associação dos Auxiliares de Ensino e a Associação dos Professores do Ensino Superior (Apes). “A Apes, de certa maneira, foi a semente da Adusp”, esclareceu. Essas entidades, disse, têm a grande função de “criar um ambiente de fraternidade, de solidariedade”.

O professor, que exerceu a vice-presidência na primeira diretoria eleita da Adusp (1977-79), considera que a greve de 1979, “talvez a primeira do ensino superior no Brasil”, representou “uma virada completa na mentalidade” dos docentes. “Foi quando se percebeu que o professor não era mais um príncipe, era um trabalhador”.

Foi além disso, na opinião do professor Cândido, de 87 anos, uma contribuição “muito poderosa para a criação de um espírito democrático na USP”, na medida em que “numa assembléia da Adusp, o MS1 era igualzinho ao MS5”.

O professor Pavan, de 86 anos, retornou na véspera de uma viagem ao Vaticano, de modo que não teve tempo de preparar uma intervenção apropriada, explicou. Mas declarou-se contemplado pela explanação do professor Jeremias, fazendo questão, ainda, de manifestar seu apoio à Adusp. O professor presidiu a diretoria provisória da Adusp (1976-77).

Após o ato, os presentes participaram de um coquetel, em outro salão do ICB, com apresentação de um Auto de Natal e, depois, do músico Tato.

 

Matéria publicada no Informativo nº 227