Nesta segunda-feira (16/12), a diretoria nacional do Andes-Sindicato Nacional dos Docentes no Ensino Superior emitiu nota de repúdio às ameaças de ruralistas aos professores Gilberto Marques e Anderson Serra, da Universidade Federal do Pará (UFPA), recentemente noticiadas. A nota solidariza-se com os docentes e registra que ambos atuam como pesquisadores acadêmicos no município de Anapu (PA), no qual, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), 16 trabalhadores rurais foram assassinados desde 2015, por pistoleiros a serviço de fazendeiros ou grileiros.

Professores Marques e Serra

Em 12/2/2005, Anapu chegou ao noticiário internacional em razão do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Mae Stang, a irmã Dorothy, que apoiava a luta dos trabalhadores rurais sem terra. Alvo de seis tiros, aos 73 anos de idade, Dorothy foi abatida a mando do fazendeiro Regivaldo Galvão, condenado pelo crime em 2010, a trinta anos de prisão, mas somente preso no dia 16/4/2019.

“Na quadra histórica nacional, o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro tem impulsionado os ataques à liberdade de cátedra e à educação pública, gratuita e laica, aumentando significativamente o ambiente de hostilidade, insegurança e precarização. Nesse ambiente, intensifica-se assim a criminalização dos movimentos sociais, militantes e dirigentes sociais que lutam por direitos, dignidade e igualdade”, diz a nota do Andes-SN.

“No dia 10 de dezembro de 2019, por meio de mensagens de áudios vazadas por aplicativos de celular, ameaças contra os docentes Gilberto Marques, diretor da Adufpa-Seção Sindical do Andes-SN, e Anderson Serra, da UFPA, tornaram-se públicas”, prossegue o documento. “É importante registrar que os dois docentes atuam como pesquisadores na região de Anapu (PA) e após produzirem um vídeo em apoio às trabalhadoras e aos trabalhadores da comunidade Flamingo, que está sendo intimada por fazendeiros da região que tentam tomar a área, começaram a sofrer as ameaças aqui já mencionadas”.

16 trabalhadores rurais foram assassinados no município desde 2015

“Cabe mencionar que desde 2015, de acordo com a CPT, 16 trabalhadore(a)s rurais foram morto(a)s no município. O Sindicato Nacional considera que essas ameaças são inaceitáveis, ainda mais em um estado com elevados índices de conflitos agrários e ambientais e assassinatos de lideranças sem terra, ribeirinhas, indígenas, quilombolas e ambientais”, continua.

“No 37o Congresso do Andes-SN, realizado em Salvador (BA), aprovamos a criação de uma Comissão de Enfrentamento à Criminalização e à Perseguição Política de Docentes, com a presença de sua Assessoria Jurídica Nacional, visando acompanhar os casos de assassinatos, perseguições, investigações, judicializações e criminalizações de caráter político promovidos pelos aparatos estatais ou por grupos e movimentos reacionários. Essa comissão se situa no âmbito de uma conjuntura de ascensão de pensamentos autoritários e reacionários, que tem criminalizado a atividade docente”.

Por fim, o Andes-SN “manifesta sua solidariedade aos docentes perseguidos, se coloca à disposição para adotar medidas judiciais e reafirmamos o nosso papel de defesa intransigente ao direito de livre manifestação e à liberdade de cátedra”.

Outro que se solidarizou com os professores da UFPA foi o deputado federal Edmilson Rodrigues (PSOL-PA): “Espero que as autoridades apurem essa denúncia com absoluto rigor e tomem as imediatas providências para impedir que o ciclo da violência siga impune na região”, afirmou. “Anapu tem tido um histórico de violência e impunidade, com o registro de diversos assassinatos nos últimos anos, entre eles, o assassinato de Irmã Dorothy”, lembra o blogue de Rodrigues, que menciona ainda o recente assassinato de Marcio Rodrigues dos Reis, testemunha do padre José Amaro, outro religioso que vem sofrendo pressões e ameaças dos ruralistas.