Em debate realizado na manhã de 28/8 na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP), organizado pela Regional Ribeirão Preto da Adusp e mediado pelas professoras Annie Hsiou e Patricia Monticelli, o professor José Sebastião Neto (FMRP), membro do Grupo de Trabalho Atividade Docente (GT-AD), afirmou que se trata de grupo “muito heterogêneo” que não conseguiu consensuar propostas. “Não falo pelo grupo”, destacou Sebastião no início, acrescentando que “nem [mesmo] os documentos” apresentados falam em nome do GT-AD. “Não é assunto pacificado”, enfatizou.

“Foi muito difícil discutir a missão da USP” no GT-AD, disse o professor da FMRP para exemplificar o grau de desentendimento existente no grupo mesmo nas questões preliminares. “Um ex-presidente da CERT [Comissão Especial de Regimes de Trabalho] defendeu que é universidade de pesquisa”, citou, para concluir que essa visão é incompatível com os papéis desempenhados hoje pela USP: ensino, pesquisa e prestação de serviços.

Sebastião alegou que a valorização da graduação é uma das finalidades do GT-AD e que o reitor M.A. Zago “saiu desanimado” de uma reunião com o grupo, porque desejava “algo mais objetivo” do que a formulação genérica apresentada a respeito. Disse acreditar que o reitor “está sendo genuíno quando falou que não há uma adesão [dos docentes] em relação à questão do ensino”. O professor da FMRP admitiu que a discussão do tema foi insuficiente: “Realmente faltou mais debate, mas fazemos isso no tempo que nos sobra”.

fotos: Miro Batista
Debate em Ribeirão Preto Debate em Ribeirão Preto
Debate em Ribeirão Preto Debate em Ribeirão Preto

Jogo de interesses

No debate da FDRP, a Adusp foi representada pelo professor Ciro Correia (IGc), que criticou a inconsis­tência do processo protagonizado pelo GT-AD. “Fala-se da carreira, mas a essência dos pronunciamentos e dos documentos é avaliação”, denunciou. “E aparece repetidamente a questão da avaliação — sem que se tenha em nenhum momento feito uma discussão institucional [sobre] se precisamos fazer, se é necessário e se é prioritário fazer [avaliação]. E com isso coloca-se a USP inteira envolvida num processo que não foi discutido e estabelecido como prioritário em nenhuma instância acadêmica”.

Ainda segundo Ciro, a discussão vem sendo feita institucionalmente “sem nenhuma premissa, sem nenhum método, sem nenhuma fundamentação”. O professor do IGc recordou que o contexto de surgimento do GT-AD está relacionado aos ataques desfechados pelo reitor ao corpo docente (“acomodado”) e ao Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP). O que se quer efetivamente com o GT, advertiu, é algo que não foi explicitado. “É bom explicitar o que se quer”, insistiu.

“Quer-se discutir carreira sem tratar do problema central”, assinalou Ciro, explicando que “a progressão na carreira, nesta univer­sidade, está associada à estrutura de poder”. Associação que, frequentemente, leva a decisão sobre a progressão para o âmbito da política. “Porque na hora em que, em especial, o concurso para o topo da carreira — que é o concurso para Professor Titular — significa que esta pessoa vai estar autorizada a ocupar direção de unidade, Pró-Reitoria, Reitoria, muitas vezes o que está em jogo não tem nada a ver com o que está no memorial da pessoa e [com] aquilo que ela construiu ao longo de uma vida acadêmica, mas é se ela convém ou não à estrutura local de poder e ao jogo de interesses, muitas vezes de natureza estritamente financeira e comercial, que determina hoje quem deve ou não deve ascender aos órgãos de direção”.

E a docência?

Após as exposições iniciais, a palavra foi aberta ao plenário. Vice-diretor da FMRP, o professor Hélio Salgado defendeu o RDIDP: “Eu fui criado, vivo e morrerei na dedicação exclusiva, e a minha instituição chegou onde chegou porque viveu da dedicação exclusiva”, destacou, ressaltando que falava em seu próprio nome, e não pela unidade. Ele acredita que é preciso reabrir o debate dos regimes de trabalho, mas rejeita a proposta de 40 horas sem dedicação exclusiva. Lamentou que a FMRP não tenha meios de avaliar o ensino e valorizar a docência: “Só se chega a [Professor] Titular com 30, 40, 50 trabalhos publicados — pesquisa, fator de impacto. A docência não vale nada nesta instituição! Assim como não vale nada a extensão. Nós distribuímos sete vagas de titular e fomos ver como distribuiríamos essas sete vagas valorizando a docência. A Comissão de Graduação disse: não temos como avaliar docentes”. 

A professora Valquiria Padilha (FEARP) criticou a cientometria em vigor: “Como é que a gente consegue superar a quantofrenia, expressão de um sociólogo francês, na avaliação dos docentes, em detrimento da avaliação da qualidade? A métrica quantitativista está favorecendo e estimulando a enorme fraude acadêmica, com a qual eu convivo na FEARP e em outras unidades da USP. É uma fraude o que se faz em nome dessa avaliação quantitativa”.

A professora Elisabeth Spinelli (FFCLRP) questionou as finalidades da proposta do GT-AD: “Na verdade, o que se quer? O que está por trás?” Para ela, existe consenso de que a USP “vai muito bem”, em razão da existência do RDIDP. A docente lamentou que nenhum documento do grupo faça menção aos pressupostos da reforma educativa proposta no século 19 por Wilhelm von Humboldt, fundador da Universidade Humboldt de Berlim: “A Convenção de Bolonha instituiu a reforma neoliberal e está destruindo a Reforma Humboldt”, disse.

Na opinião da professora Cynthia Carneiro (FDRP), a discussão da carreira inclui avaliar a questão da remuneração, também citada pelo representante da Adusp. Ela condenou a oferta de cursos pagos por docentes, destinada à complementação de renda, que vem ocorrendo na sua unidade. “São cursos de especialização que não especializam ninguém”, observou. “Posso dobrar meu salário se me sujeitar a dar, ou coordenar, este curso de final de semana. É isto que a gente quer?”, questionou.

“Quando se fala em avaliação a gente logo pensa em métrica”, problematizou o professor Marcelo Pereira (FFCLRP). “Fico bastante desconfortável, porque aprendemos a fazer pesquisa, sabemos. [Mas] não sei dar aula, nunca me ensinaram a dar aula. Não sabemos nada de administração, mas administramos hospitais, departamentos, reitorias... Eu queria saber com que métrica eu faço isso” (avaliar). “Não sabemos a métrica e queremos avaliar”.

A professora Laura Vilela e Souza (FFCLRP), que ingressou no corpo docente da USP em 2015, tendo lecionado por quatro anos em universidade federal (onde participou da discussão e criação coletiva de métodos de avaliação não punitivos), relatou sua surpresa ao constatar, no I Congresso de Graduação da USP, que “o que está se tratando como inovação é simplesmente o uso de tecnologias, e não toda uma filosofia de avaliação da graduação”.

A diretora regional da Adusp, professora Annie Hsiou, entende que as propostas do GT-AD são punitivas e afetam diretamente o segmento dos professores-doutores (MS3). “Nós damos muito para a universidade. Faltou um olhar sensível e humano para o RDIDP”, resumiu.

Informativo nº 406
Matéria atualizada em 12/9/15