É velha a tentativa de, na USP, enquadrar a vida alheia. Não é coisa de agora. Sem contar o empenho antigo das unidades poderosas de impor critérios e domínio especialmente à originária Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e às unidades que dela se desligaram, ganhando vida própria. Trata-se de um jogo de poder. Júlio de Mesquita Filho, personagem central na concepção e fundação da USP, distinguira o que ele chamava de faculdades profissionais (as velhas escolas já existentes, as que em oposição ao projeto original acabariam mandando em todas) da Faculdade de Filosofia, reduto da Filosofia e dos cursos propriamente científicos, em todos os campos de conhecimento, da Física, à Biologia, à Sociologia, à Antropologia. Em sua visão, a produção do conhecimento deveria ter predominado sobre a aplicação do conhecimento. Desolado, já nos anos 1950 ele reconhecia que o projeto fora derrotado porque a Universidade caíra sob o controle político de seus setores devotados ao que era propriamente técnico. É a pauta da aplicação e do mercado que, de um modo ou de outro, vem mutilando e limitando o trabalho propriamente científico.
 
A decisão de agora, do Conselho Universitário, confirma essa orientação. Júlio de Mesquita Filho deve estar revirando-se no túmulo. Pelo critério agora aprovado, mais repressão do que estímulo, Isaac Newton, Albert Einstein, James Watson e Francis Crick, Ludwig Wittgenstgein, Émile Durkheim, e outros grandes nomes da ciência e da filosofia, provavelmente nunca conseguiriam ser professores na USP. Ciência não se produz por metro quadrado. E ciência não é conhecimento de resultados, como seria o caso de uma inovadora plantação de abóboras quadradas, que, aliás, existem, produzidas aqui no Brasil. Alguns dos próprios grandes nomes da USP jamais teriam se tornado seus docentes e pesquisadores.
 
As ciências progridem no campo da incerteza e não das certezas métricas e cronológicas. Um pesquisador de verdade pode dedicar boa parte de sua vida a pesquisas sem resultados, simplesmente descartando hipóteses não confirmadas. Nem por isso seu trabalho será irrelevante. No entanto, as ciências progridem através desses fracassos que aplainam o caminho para outros pesquisadores. Sem contar as descobertas acidentais, que dependem do acaso e da mente científica consolidada.
 
O desestímulo de agora ao trabalho científico e aos jovens pesquisadores constitui deplorável retrocesso.
 
José de Souza Martins
(Sociólogo, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo)