Vaquinha produtivista” entre coautores e financiamento por agências e programas são alguns dos meios utilizados para bancar publicações que chegam a custar US$ 5 mil cerca de R$ 18.700

“Embora eu não concordasse, percebi que esse era o único caminho, se não eu seria massacrado. Usei isso como uma ferramenta profissional, o que me faz infeliz, pois não é esse o caminho da qualidade”. Assim o professor Cláudio Alvarenga de Oliveira, docente de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) desde 1981, descreve sua relação com as publicações científicas. Na sua primeira década na USP, com sua área incipiente, não publicou um único artigo científico. Hoje, porém, Alvarenga é líder de um grupo de pesquisa e publica com orientandos da iniciação científica ao doutorado.

Professor Alvarenga (FMVZ) Professor Ricci (FFLCH) Professor Landi (IF)

A produção em revistas de alto nível tem grande peso no novo modelo produtivista de avaliação implantado pela Reitoria via “Nova CPA” e CERT, mas não é simples atender a esse imposição. Muitas áreas não têm revistas de alto nível (avaliadas com o almejado conceito “A” pela Capes) no país, e publicar fora incide em custos. É comum editoras exigirem tradução profissional, cujos valores de referência para o sindicato da categoria estão em 0,53 centavo por palavra. Muitas revistas cobram pela publicação, em uma dinâmica que incide ora sobre o pesquisador, ora sobre instituições públicas financiadas com recursos públicos.

A editora Springer Nature, que publica trabalhos em áreas que vão da Física à Saúde, chega a cobrar US$ 5 mil por publicação, em suas revistas de acesso aberto. A mesma editora também mantém revistas acessíveis somente a assinantes, como a Nature, que pede US$ 199 por ano do assinante individual, e são bastante disputadas pelos cientistas. A “terceira via”, de publicações sem fins lucrativos e sem custos para publicação, ainda se organiza. Uma de suas maiores iniciativas, a rede social ResearchGate, passa, nos últimos meses, por uma série de notificações judiciais a quem publica em suas bases, com pedidos de indenização por parte das editoras.

Nos últimos três anos, Alvarenga e seu grupo da FMVZ dispenderam cerca de US$ 5 mil (equivalentes a cerca de R$ 18.700) para publicar sete trabalhos. Empregaram, para tanto, recursos bancados por órgãos de apoio à pesquisa, como Fapesp, Capes e CNPq, mas também tiveram de dividir parte dos custos de publicação entre os autores, ou “aquilo que já se tornou praxe entre os autores e coautores: a famosa ‘vaquinha produtivista’”, nas palavras do professor.

Concentração em grandes editoras prejudica a divulgação dos artigos”

O grupo de pesquisa do professor Paolo Ricci, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), gastou cerca de R$ 10 mil em publicações, na sua maior parte cobertos por recursos da Fapesp. O professor reclamou, porém, da dificuldade em conseguir apoio da sua unidade. Consultada, a FFLCH respondeu que vem “reunindo esforços para resolver o impasse da terceirização desses serviços tão importantes para a qualidade da divulgação do conhecimento produzido na Faculdade”, e que entre os principais desafios está a subjetividade na avaliação e dificuldades como fatores legais e imprevistos “como questionamentos, impugnações, pedidos de prorrogação etc”.

Ricci considera o cenário internacional de publicações digno de preocupação, pois “a concentração em grandes editoras prejudica a divulgação dos artigos e torna o sistema extremamente engessado”, e enxerga alternativas de publicação e difusão sem custo, como o SciELO, um facilitador importante. O docente da FFLCH, que também atua como parecerista, destacou ainda um recente amadurecimento da área, que tem se tornado mais disputada, e vê de forma positiva esforços para publicações conjuntas: “Desde que a parceria seja construída em cima de um projeto de pesquisa conjunto. Inclusive acho positivo os professores se envolverem em projetos não próximos às áreas de pesquisa deles”, destaca.

No entender do professor Gabriel Landi, do Instituto de Física, a cobrança direta aos pesquisadores aprofunda desigualdades entre centros ricos e centros pobres, pois o custo favorece pesquisadores de países desenvolvidos “Eu percebi o impacto disso, por exemplo, quando me peguei refletindo se era melhor enviar um estudante a uma conferência ou publicar um novo artigo. No Brasil temos que lidar mais com essa dificuldade do que pesquisadores de centros nos países que investem mais em pesquisa, e temos, algumas vezes, de escolher pelo custo, e não pela qualidade”.

Landi sempre publicou em revistas de publicação gratuita, mas dois de seus trabalhos estão para ser publicados em revistas que demandam pagamento. Um deles, na revista New Journal of Physics, será financiado com recursos para publicação da Universidade de Belfast, à qual um dos colaboradores está vinculado. O outro, na revista Nature Quantum Information, que cobra US$ 2.500 (cerca de R$ 9.350), terá o custo dividido entre os pesquisadores.

A crítica de Landi extende-se à propriedade intelectual das editoras, pois “as revistas ganham milhões ao ano”, sem realmente dar um retorno à sociedade. “Outro dia tive de passar mais de uma hora procurando, com colegas e na Internet, um artigo de 1950, sobre física de matéria condensada e supercondutividade, pelo qual a editora queria me cobrar US$ 100 pelo acesso. E no fim das contas, ele nem foi útil para mim!”.

(Guilherme Jeronymo, especial para o Informativo Adusp)