Foto: Imprensa EACH

Em 5/9/2017, data dedicada ao maior patrimônio natural do planeta, a Amazônia, houve o lançamento do curso de Biotecnologia da USP. Sediado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), a USP Leste, a partir de 2018, o curso foi aprovado em meio a várias crises, entre elas a dita financeira (mas que sabidamente é de financiamento), que impediu, por exemplo, que o corpo docente e funcional tivesse aumento salarial em 2017.

O argumento de que a Universidade dispende por volta de 100% de seu orçamento com folha salarial não impediu a criação de cursos que certamente aumentarão gastos, seja pela necessidade de contratação de docentes e servidores, seja pela criação de serviços que a organização e gestão dos cursos necessitarão. O curso de Biotecnologia foi aprovado na mesma sessão do Conselho Universitário que aprovou o curso de Medicina de Bauru, mas, diferentemente deste, o processo levou mais tempo, principalmente porque a proposta trazia consigo dois aspectos que merecem destaque.

O primeiro é que, desde a criação da EACH, vários grupos, internos e externos à USP, vêm estu­dan­do propostas de novos cursos que contemplassem áreas ainda incipientes na universidade e na região Leste de São Paulo. O segundo aspecto é que as vagas propostas para o curso de Biotec (como foi apelidado pelos seus idealizadores) substituirão vagas “ociosas” do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza (LCN), graduação criada para suprir o déficit de professores principalmente na rede pública de ensino. Desde sua criação em 2005, a procura pelas 120 vagas anuais em LCN tem sido baixa, não completando as turmas nos dois turnos de oferecimento (matutino e noturno).

Um dos argumentos apresentados pelos idealizadores do curso de Biotecnologia é o de que a substituição das vagas de LCN seria uma otimização de recursos, já que a procura era baixa e o corpo docente poderia ser “melhor aproveitado”. No entanto, a baixa procura pelo curso pode se dever ao fato de que a profissão de professor do ensino básico é enormemente desvalorizada e mal remunerada, em detrimento de áreas que estejam mais alinhadas ao mercado. Quanto às propostas de cursos que vinham sendo debatidas pela comunidade, essas sequer foram aventadas e a discussão acumulada ao longo dos anos foi descartada. Entendendo que a Universidade deve responder aos anseios da sociedade, reconhecendo que a educação carece de cuidado e sabendo que há déficit de professores, uma pergunta emerge: qual a real intenção dessa substituição de vagas de LCN por vagas para Biotecnologia?

Parcerias, de novo

A resposta pode ser encontrada no vídeo de divulgação do curso, na notícia sobre o lançamento veiculada na página da EACH e no vídeo da cerimônia de lançamento do curso.

O que parece estar por trás da criação do curso de Biotecnologia são o empreendedorismo e a parceria com empresas. O lançamento foi feito na Reitoria, longe do local no qual o curso será oferecido, a EACH, sem convite ou comunicação à comunidade da escola, mas com a presença de representantes das empresas Monsanto, Thermo Fisher Scientific, LGC Biotecnologia e G&E, as quais “se mostraram abertas a oportunidades futuras de parcerias”, segundo notícia na página da EACH (os grifos são nossos).

Ao afirmar durante o lançamento que “a universidade tem de estar associada às empresas”, o professor Diego Falceta, docente que liderou o grupo responsável pela proposta, evidencia tais pretensões. Falceta afirma ainda que “este curso está pensado para trabalhar de mãos com as empresas” (sic). Ao mencionar o programa “Parceiros da USP”, aprovado na gestão Zago-Agopyan, e a sanção pelo governador Geraldo Alckmin do decreto nº 62.817 em 4/9/2017, véspera do lançamento, fica claro que o curso está alinhado a um projeto de universidade com pretensões essencialmente voltadas para o mercado, seja na formação de mão de obra, seja no desenvolvimento de produtos.

Embora o projeto pedagógico do curso apresente intenções de contribuir para a solução de problemas sociais, não fica claro como se pretende abordar tais questões. Parece-nos que o engajamento social, aspecto que permeia os cursos da USP Leste, foi suplantado  pela tecnociência de ocasião, cumprindo um papel importante rumo à privatização da universidade pública. Além disso, formar profissionais que estejam preparados para trabalhar na indústria farmacêutica e no agronegócio, setores avassaladores que funcionam sob a égide do mercado, torna difícil identificar o tal engajamento social pretendido.

“Pressupostos”

A reportagem do Informativo Adusp entrou em contato com dois professores da EACH responsáveis pelo novo curso, para que respondessem a alguns questionamentos (vide quadro). Ambos, contudo, recusaram-se a responder às perguntas encaminhadas.

Perguntas não respondidas
  1. Em que estudos e diagnósticos se baseia a criação do curso de Biotecnologia da EACH?
  2. Há motivos, na sua opinião, para que o novo curso seja mais interessante à USP do que o turno matutino de Licenciatura de Ciências da Natureza?
  3. O projeto pedagógico do curso de Biotecnologia cita a necessidade de fazer avançar a transferência de conhecimentos entre a universidade, a indústria e o agronegócio. De que modo isso se refletirá no conteúdo pedagógico do curso?
  4. Por que razão empresas como Thermo Fisher Scientific, LGC Biotecnologia, Monsanto e G&E foram convidadas para o lançamento do curso de Biotecnologia? Será uma graduação superior destinada a, meramente, formar “mão de obra” para a indústria e o agronegócio?

Numa troca de mensagens eletrônicas, o professor Diego Falceta Gonçalves, um dos relatores do projeto pedagógico do curso, inicialmente indagou ao repórter: “as respostas serão mantidas intactas e serão publicadas na íntegra?” Depois de explicado que, por uma limitação de espaço, nem sempre é possível publicar a íntegra das declarações de nossas fontes, mas sempre se procura respeitar o teor dessas declarações, e de que “não publicaremos nenhuma explicação truncada, distorcida ou que não faça sentido”, o docente não mais respondeu.

A coordenadora pró-tempore do curso de Biotecnologia, professora Viviane Abreu Nunes, por sua vez, colocou sob suspeita o propósito da reportagem: “Terei prazer em responder quando identificar que as perguntas são honestas, pertinentes e podem contribuir para a informação das pessoas sobre o curso. Me procure, se esse for o caso”, escreveu, numa primeira resposta.

O repórter ponderou, então: “Por quê minhas perguntas colocam em dúvida nossa honestidade? A matéria que produzirei abordará criticamente a presença das empresas previamente mencionadas no evento de lançamento do curso, fato público e explicitado em textos institucionais da EACH e da Reitoria. Entrevistarei professores responsáveis pela elaboração do projeto pedagógico do curso, mas também professores críticos à substituição do curso de licenciatura de Ciências da Natureza”.

A professora, então, encerrou o assunto: “Perguntar se o curso irá formar, ‘meramente’, mão de obra para indústria e agronegócio já sinaliza o viés que quer dar para a matéria. Como mencionei, estou à disposição para contribuir, mas a partir de outros pressupostos”.

 

 

Informativo nº 443