Nada parecia mais distante da realidade brasileira do que a consigna de “greve geral”. Em primeiro lugar, porque o movimento sindical está cindido em várias centrais, algumas das quais deram apoio ao golpe midiático, parlamentar e judicial que levou o país a uma crise sem precedentes. Em segundo lugar porque as tentativas de greve geral ocorridas nas décadas de 1980 e 1990 enfrentaram grandes dificuldades organizativas, basearam-se fortemente na paralisação dos transportes coletivos e só obtiveram, quando muito, sucesso parcial. Em terceiro lugar, porque a mídia vem jogando no time do governo Temer e reforçando a propaganda enganosa de que as contrarreformas em curso são benéficas para o país e a população. E, finalmente, porque as greves costumam ser tratadas no Brasil como rebeliões de escravos, a merecer castigo seja nas mãos da Polícia Militar ao vivo e a cores, seja a cargo dos próprios patrões no day after.

E no entanto... No entanto, o Brasil parou no dia 28 de abril. Sim, parou! Estima-se que cerca de 35 milhões de trabalhadores e trabalhadoras cruzaram os braços em enérgico sinal de repúdio às “reformas” trabalhista e da Previdência Social. Capitais, cidades médias e pequenas, o Brasil foi atravessado de ponta a ponta pelos ventos do protesto. A repressão compareceu, como sempre, mas não conseguiu conter a vaga humana decidida a dizer um sonoro “não” a Temer e sua claque. Das metrópoles, somente no Rio de Janeiro a mobilização ficou aquém do esperado, em razão da enorme truculência da PM. Inúmeros relatos coincidem em apontar a ação policial na capital carioca como “insana”, pois a violência foi indiscriminada e a PM procurou deliberadamente acuar e cercar os manifestantes: os policiais chegaram a lançar bombas de gás no palanque montado para o ato público enquanto um deputado estadual discursava. Outro ato de barbárie ocorreu em Goiânia, quando um capitão da PM quebrou seu cassetete no rosto de um jovem manifestante desarmado e pacífico, que sofreu traumatismo craniano.

Em São Paulo a violência policial também chegou à USP. Ao reprimir uma tentativa de estudan­tes de derrubar a grade do reitor na ECA, os policiais militares “comunitários” agrediram e prenderam um aluno da FEA que se en­con­trava no local tocando tambor. O festejado “Sistema Koban” da PM na USP confirma assim sua verdadeira finalidade: repressão pura e simples, violência pura e simples, com a anuência cúmplice da Reitoria.

“Incitação ao crime”

Em outro front, a Polícia Civil da capital paulista determinou a prisão de três ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Juracy, Luciano e Ricardo, encaminhados para o Centro de Detenção Provisória Vila Independência (Vila Prudente). Eles foram detidos de forma ilegal em Itaquera e acusados de “incitação ao crime”, incêndio e explosão. O delegado considerou como “incitação” as palavras de ordem dirigidas pelos militantes contra o governo Temer, as reformas trabalhistas e previdenciária.

De qualquer modo, a greve geral alcançou grande adesão, a par de conquistar a simpatia da população. Foi, por isso, vitoriosa em vários sentidos. Não se deixou intimidar nem pela repressão policial, nem pela narrativa falsifi­ca­da posta a circular em telejornais e radiojornais, que tentaram escamotear o verdadeiro significado do movimento. Duas ativistas do Coletivo Intervozes, Bia Barbosa e Mônica Mourão, assim descreveram a atitude da mídia: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo, diz a sabedoria popular. [...] a relação entre a imprensa comercial e Michel Temer é de servidão ou sintonia. O posicionamento oficial do governo, divulgado através de nota do Presidente e em entrevista do ministro da Justiça Osmar Serraglio, estava no mesmo tom da cobertura feita nesta sexta (28) pelos principais veículos do país. A ordem era não falar em ‘greve geral’, mas sim em ‘dia de protestos’ e, no máximo, ‘paralisações’. E isso foi o difundido para a população brasileira”.

A desinformação, reitere-se, teve início nos dias anteriores à deflagração da greve geral. Escre­ven­do na manhã de 28 de abril, uma professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Pará, Rosaly Brito, assim descreveu a atitude do principal grupo nacional de mídia: “O jornalis­mo da Globo, ao silenciar sobre fatos históricos e fundamen­tais na vida do país do presente, produz deliberadamente o esquecimento. Quem viu ontem os tele­jornais da Globo, incluindo o Jornal Nacional, esteve em contato com um Brasil irreal. E até surreal. Nem uma palavra sobre o movimento que toma o país de ponta a ponta hoje. Sequer uma alusão à paralisação de serviços essenciais, informação que, além do mais, é de utilidade pública. Total negação do país real”.

Rejeição à agenda

O que a mídia fingiu não ver é que, ao driblar e superar esses e outros obstáculos postos no seu caminho, uma expressiva parcela do povo brasileiro fez questão de demonstrar sua cabal rejeição à agenda ultraliberal das forças econômicas e partidos políticos que dirigem o governo Temer, expressa no documento “Ponte para o Futuro”, que pretende nada menos do que rasgar a Constituição de 1988, privatizar os fundos públicos destina­dos aos direitos sociais, refundar a escravidão, anular a soberania nacional.

“Os trabalhadores perceberam que estão diante de um ataque sem precedentes”, registrou o jornalista Rodrigo Vianna, para quem a mídia oligopólica está praticando um “jornalismo de guerra”, destituído de qualquer pudor, em defesa da agenda de Temer.

O bloco no poder vem impondo à sociedade brasileira a reversão das modestas conquistas civilizatórias havidas nos últimos anos, e uma série de derrotas: congelamento dos gastos sociais por vinte anos, “reforma do Ensino Médio”, corte pela metade do orçamento para a ciência, terceirização indiscriminada, “reforma trabalhista”, retomada das privati­zações etc. Em síntese: a me­mo­rável jornada de 28 de abril pode ser um ponto de inflexão nesse criminoso retrocesso. Há que barrar a escravidão, o neocolonialismo, o entreguismo, a criminalização dos movi­mentos sociais e da pobreza. Há que lutar, por nós e pelas gerações futuras. Lutemos, pois!

Informativo nº 435