foto: Daniel Garcia

Uma conjuntura contraditória, incerta, marcada por retrocessos e tensões e cujos desdobramentos colocam as conquistas democráticas do país em risco, frente à ameaça de ascensão do neofascismo. Esta é uma das sínteses possíveis do debate promovido pela Adusp nesta quarta-feira 12/9, no Auditório da Geografia, com a participação dos professores André Singer, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) e Mauro Iasi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Coordenado pelo professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp, foi o primeiro de uma série de três debates sobre a conjuntura programados pela entidade (os próximos estão previstos para 20/9 e 26/9).

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Professor André Singer (FFLCH) Professor Mauro Iasi (UFRJ)

Mauro Iasi iniciou apontando que o qualificativo “grave” vai ficando cada vez mais defasado à medida que a conjuntura evolui. “Terrível, desesperadora... a gente vai ter que inventar palavras. O país está fraturado. Um país fraturado é mais do que um país dividido. O Brasil sempre foi dividido estruturalmente, seja pelo seu passado colonial, seja pela sua forma de inserção no modo de produção capitalista”, disse ele, apontando diversas oposições que expressam as “desigualdades profundas e estruturantes da formação social brasileira”, tais como “colonizadores e colonizados, latifundiários e agricultores, colonizadores e povos indígenas, escravocratas e escravos, oligarquia e povo, burguesia e proletariado”.

Há momentos em nossa história em que, a seu ver, essa desigualdade acumula tensões e explode em fraturas. “Fraturas muito mais constantes em nossa história do que gostariam aqueles que procuram entendê-la pela ótica do cordialismo, uma ótica da formação social em que as rupturas, as explosões sociais são raras. Uma breve passada pela história do país, desde a Confederação dos Tamoios em 1554-1567, Confederação do Equador em 1824, as constantes revoltas escravas, como a dos Malês, Palmares, a guerra de Canudos, as lutas operárias do final do século 19 e início do século 20, tem uma série muito longa que marca constantes explosões”.

Assim, continuou Iasi, “se formos buscar um caráter para nossa formação social, ela é algo que oscila entre esses momentos ditos de estabilidade e momentos de explosão”. Mesmo nos momentos de dita estabilidade, ocorre uma submissão da maioria da população a uma camada pequena daqueles que se beneficiam da ordem. Ele citou Florestan Fernandes, que “ao tentar entender esse caráter vai buscar na maneira como se equaciona a revolução burguesa no Brasil, uma característica do nosso Estado — que ele identifica como autocrático, de uma pequena classe governante que se beneficia — que tem como tarefa fundamental manter a maioria daqueles excluídos dessa ordem, que dela pouco se beneficiam, nos limites de uma ordem dada”.

O precário equilíbrio dessa formação social tão desigual, baseada em interesses de classe antagônicos, provoca constantemente crises. Para Iasi — que lembrou a afirmação de Teotônio dos Santos de que “o desenvolvimento das formações sociais dependentes só pode desenvolver o subdesenvolvimento”, aprofundar as características da dependência — o “velho mito de que essa desigualdade estruturante da sociedade brasileira pudesse ser resolvida a partir do desenvolvimento do modo de produção capitalista faliu”. Tanto o registro da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) da dicotomia desenvolvimento x subdesenvolvimento, como o projeto de “Brasil Potência” da Ditadura Militar (1964-1985), e mais recentemente “o ciclo de conciliação de classes”, com o desenvolvimento da economia para gerar mais emprego etc., “mostraram seus claros limites”.

Seria de esperar que a conjuntura que resulta da última crise produzisse uma radicalização e uma conflagração séria na sociedade brasileira, avaliou. “Como a classe dominante pode enfrentar essa fratura? As formas institucionais, políticas, jurídicas desenvolvidas pelo Estado brasileiro para garantia da ordem em tempos normais esgarçaram-se. A aventura golpista de 2016 vai gerar um cenário em que os próprios instrumentos do Estado brasileiro passam a demonstrar insuficiência para dar conta da contradição e da sua explosividade”.

Assim, prosseguiu, as forças despertadas pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff terminaram por quebrar o funcionamento dito normal das instituições da República, seja na representação política, seja no tocante ao governo, seja no funcionamento do Judiciário. “Seria de se esperar que isso provocasse tensões, como está provocando. O ciclo passado de tentativa de diminuição das desigualdades via desenvolvimento econômico resultou no agravamento dessas desigualdades”. A única maneira de uma classe dominante tão pequena, tão aferrada a seus privilégios, “lograr uma unidade em torno da sua universalidade abstrata, vazia”, é fortalecer os aspectos da ideologia. “A função da ideologia numa sociedade de classes é fundamentalmente fortalecer, através de uma série de mecanismos de inversão, de naturalização, de justificativa, apresentar o interesse particular como se fosse o interesse universal”.

Apoiando-se em reflexões de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, o professor da UFRJ disse estar convencido “de que vivemos numa época de hipocrisia deliberada”, ou de “consciência cínica”. Há uma construção ideológica para afirmar a existência de vitoriosos (que conquistam posições de prestígio e poder) e de fracassados (que precisam ser dominados), ao invés das possibilidades de igualdade, liberdade, democracia. “É fundamental para os setores dominantes construir uma unidade em torno de algo supostamente universal, e para isso precisam de estigmas. O que foi mobilizado de 2016 para cá, desde o mais rasteiro anticomunismo até o acirramento de ideias preconceituosas (machismo, homofobia), são expressões dessa falsa universalidade. É necessário unificar a população brasileira em torno de uma sagrada cruzada contra aqueles que atacam os valores da ordem, da moral, da família, da liberdade, entendida aí como expressão de uma natureza humana que precisa ser preservada”.

“Fascismo quando sai da gaveta divide a sociedade”

Quem expressa isso, explicou, é um segmento das classes dominantes: a extrema-direita. “As classes dominantes sempre têm a ilusão de que podem usar a extrema-direita até o momento que lhes seja útil e depois guardá-la na caixinha dos horrores, para utilizar depois. A história prova o quanto essa perspectiva às vezes falha”, disse, dando como exemplos o nazi-fascismo e a Ditadura Militar. “O fascismo quando sai da gaveta acaba despertando paixões, dividindo a sociedade, e encontra um aspecto de unificação que vai apresentar em vários momentos um grau de irracionalismo muito grande”.

Para ele, a prova da existência de uma grave fratura na sociedade é que até mesmo episódios capazes de provocar comoção, e que poderiam em tese ser convertidos em momentos de trégua na luta de classes, “são rapidamente capturados pela lógica dualista da ideologia dominante, que quer criminalizar uma parte da sociedade e ao mesmo tempo esconder as contradições que estão na sua base”. Isso explicaria, por exemplo, o fato de que o assassinato de Marielle Franco foi imediatamente seguido de tentativas de desqualificação da vítima, na mesma medida em que o atentado contra o candidato do PSL à Presidência da República tornou-se motivo para ataques aos opositores políticos do ex-capitão e das forças que o apoiam.

Iasi entende que o cenário eleitoral continua indefinido, totalmente em aberto, a um mês da eleição e em meio ao esgarçamento da ordem instituída, tendo como fatos marcantes a “indefinição dos próprios setores dominantes em torno da candidatura que pudesse, na expectativa desses segmentos, ungir de legitimidade aquele que seria o próximo mandato” e a liderança de Lula nas pesquisas mesmo preso. Por outro lado, o candidato da extrema-direita, que vem liderando as pesquisas “sem Lula”, “foge ao papel desenhado pelos que urdiram o golpe”.

Para ele, a conjuntura mudou muito rapidamente no final de 2015, por um alinhamento das forças conservadoras e da classe dominante, na perspectiva da interrupção do mandato de Dilma. Destacou o papel das eventualidades e das personalidades menores, como foi o caso de Eduardo Cunha, que na condição de presidente da Câmara dos Deputados aceitou o pedido de impeachment. Iasi acredita que, a princípio, a burguesia não queria derrubar Dilma, mas apenas enfraquecê-la politicamente.

“A gente precisa parar de imaginar que a burguesia, a classe dominante no Brasil, tem uma capacidade teleológica tão eficaz, como a gente muitas vezes imagina. Eles também erram. ‘Erraram na mão’ na interrupção do mandato, levaram isso a ponto das manifestações de massa, criaram fatos consumados e acreditaram piamente que o Temer, mesmo com sua reconhecida incapacidade, poderia usurpar o poder, ficar no governo, que a economia uma vez crescendo adequaria todos elementos daqueles que estavam em torno do bloco dominante, desconhecendo a gravidade e a natureza da crise econômica. Isso faz com que a crise se alastre e os golpistas não possam entregar aquilo que prometeram”.

A crise política, econômica e social pode culminar numa crise de Estado, imagina ele, o que ainda não está dado, dependendo do resultado das eleições. Não se confirmará, a seu ver, a “expectativa da ordem de que as eleições ungissem o candidato de uma legitimidade, seja para consolidar os termos do retrocesso e da profunda ofensiva que se desencadeou sobre a classe trabalhadora, seja a perspectiva de uma reconfiguração de um acordo nacional nos termos da conciliação de classes que foi interrompida com o golpe”. “Independentemente de quem ganhe as eleições, o candidato não sairá legitimado para evitar o aprofundamento da fratura. Então estamos numa situação em que as eleições perdem a centralidade que muitas vezes têm no jogo político brasileiro”.

Desse modo, continuou Iasi, não se trata de resolver, “muito menos no primeiro turno”, quem será o candidato que vá organizar as condições para que o país possa pensar serenamente seu futuro, nem à direita e nem à esquerda. “A extrema-direita conseguiu um papel político-institucional e enraizamento social para poder entrar no jogo político; a direita tem enorme dificuldade de apresentar uma alternativa que neutralize o risco da extrema-direita e unifique o conjunto do país; o centro, para mim representado pelo PT, PDT e outros segmentos, também não tem essa condição de unificar o conjunto do país e recriar as condições do pacto interrompido; e a esquerda, bastante debilitada, tem a perspectiva de unificar-se em torno de uma força política que intervenha no momento atual, mas que seja essencial para enfrentar, seja qual for, o cenário que emergir dessas eleições” — de acirramento da ofensiva da extrema-direita ou da instabilidade crônica.

Refluxo “é comparável ao de 1964”, diz André Singer

O professor André Singer optou por fazer uma exposição centrada nos dias de hoje, começando por defender duas hipóteses. “A primeira é que estamos numa conjuntura intensamente contraditória, e a segunda é que o impasse atual só poderá ser rompido a favor dos trabalhadores se houver uma política de unidade. Por que a situação é muito contraditória? Porque, de um lado, visivelmente estamos desde 2015, portanto agora caminhando para quatro anos, num período de refluxo, do ponto de vista da classe trabalhadora. O golpe parlamentar não encontrou resistência popular. Encontrou resistência dos setores organizados, da esquerda, uma resistência importante, mas que não chegou a mobilizar a população da periferia, as camadas de baixa renda, de maneira mais extensa”.

Singer enfatizou a gravidade tanto da desmobilização da classe trabalhadora, como do retrocesso em curso facilitado por essa desmobilização. “Estamos falando de um refluxo que é comparável ao de 1964. Estamos falando de alguma coisa que pode determinar décadas. O que sinaliza esse refluxo? Depois do golpe parlamentar, a aprovação da PEC do Teto de Gastos que é a desmontagem do que foi construído, a partir da Constituição de 1988, de Estado de Bem-Estar Social no Brasil. Que é muito pouco, sobretudo em face das necessidades e se comparado a países onde o Estado do Bem-Estar se desenvolveu plenamente, mas é muito, em face daquilo que pode vir a ser no futuro”.

“Estamos falando por exemplo daquilo que existe de Sistema Único de Saúde, SUS, que daqui a vinte anos pode ter acabado, se essa Lei do Teto de Gastos não for revogada. Estamos falando da existência de uma universidade pública, de um sistema público universitário, no qual neste momento estamos diretamente inseridos, que pode também simplesmente deixar de existir. Então estamos falando da construção de um Estado que tem alguns valores, como educação pública para todos. Sabemos que isso é muito variável, assim como a saúde pública para todos, no entanto existe um embrião disso que não é pouco importante, que pode desaparecer”.

O docente da FFLCH destacou também a reforma trabalhista, que revogou conquistas históricas dos trabalhadores e legalizou ou ampliou a terceirização, o trabalho intermitente, o trabalho temporário e outras formas de superexploração e precarização do trabalho. “Simplesmente, se não for revogada, vai mudar a cara da classe trabalhadora brasileira”, advertiu ele. “Para não me referir ao Pré-Sal etcétera, que significa questões relativas à soberania nacional. Então, estamos falando de uma mudança estrutural no Brasil. Essa é a questão. Essa fase de retrocesso foi muito rápida, tudo aconteceu muito rapidamente. Algumas coisas têm que ser pontuadas. Uma delas é que essa fase de retrocesso rápido vem após um período longo de avanço, que começa em 2003, com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo federal, e prossegue até 2014. Reparem que eu disse que o retrocesso começa em 2015, portanto começa ainda durante o período do governo Dilma. O golpe faz parte de um processo que já tinha começado”.

No entanto, de 2003 a 2014, explicou, em que pese os avanços terem sido moderados, como se estenderam ao longo do tempo eles tiveram um resultado estrutural importante. “A saber: uma redução muito significativa do desemprego, um período longo de pleno emprego. O professor Fernando Rugitsky, da FEA, mostra num trabalho publicado recentemente que pela primeira vez houve um ciclo de expansão longo no Brasil, depois de muito tempo em que os ciclos de expansão, quando ocorriam, eram muito curtos, o chamado ‘vôo de galinha’. Tivemos um ciclo de expansão econômica de cerca de sete anos, comparável aos que ocorrem nos Estados Unidos, coisa que historicamente não havia no Brasil”.

“Estou falando do Bolsa-Família, evidentemente, em que pese não ter sido constitucionalizado trata-se de uma política universal: todos os brasileiros que têm renda aquém de um certo limite têm direito a um auxílio do Estado. Não se trata de uma política focada, embora até possa ter na origem uma concepção de política focada, mas não é. Estou falando do crédito consignado, que abriu a possibilidade de consumo para faixas extensas da população de baixa renda. Enfim, cerca de 60 milhões de pessoas passaram para uma condição melhor de vida. Quando chegamos ao ponto de falar de 60 milhões de pessoas, estamos falando também de uma mudança estrutural. Então, o que é interessante, nessa situação que estamos vivendo, é que saímos de um período longo de avanço e aqui eu concordo com uma coisa que o Mauro disse, importante, vou usar a exposição dele para não ter que repetir: é que realmente o problema histórico no Brasil é a fratura social. Qualquer política que diminua a fratura social é uma política de avanço. Qualquer política que retroceda e que faça abrir o fosso social é uma política de retrocesso”.

O paradoxo, assinalou o professor da FFLCH, é que “nós vivemos um período longo de avanço e de repente caímos num processo muito rápido de retrocesso”. Ele deixou claro, contudo, que uma coisa está ligada à outra. “Não é casual. É porque este avanço se deu dentro de uma lógica, talvez não pudesse haver outra, mas se deu dentro de uma lógica de desmobilização, o que fez com que, quando o retrocesso veio, não houvesse o que o pudesse parar. As coisas estão conectadas. O fato é que dentro desse período rápido, intenso, profundo de retrocesso que estamos vivendo abriu-se, nesses dias, uma brecha. E aqui tenho uma discordância do Mauro: a disputa eleitoral é central. É central por uma razão também importante. É que as camadas de baixa renda não se mobilizaram, mas estão se mobilizando eleitoralmente. Estão dando o troco na eleição de tudo que aconteceu. O que estou dizendo não é um juizo de valor. Não estou aqui para dizer se gosto disso ou não. É assim que é, é assim que está acontecendo”.

A seu ver, a desmobilização popular continuará, sendo a “resposta eleitoral” a única possível. “E ela está sendo dada de uma maneira muito peculiar, que é a intenção de voto no ex-presidente Lula, que chega a 40% das intenções de voto, de uma liderança que representou esse longo período de avanço. As pessoas de baixa renda estão identificando o ex-presidente Lula com o período de avanço e querem que esse período de avanço volte. Não há uma elaborada consciência, ou uma concepção elaborada do que está acontecendo; há uma perceção que, não obstante ser pragmática, é profunda, porque há uma identificação do que aconteceu e há uma identificação do que se quer. Então, este momento eleitoral é da maior relevância, porque na verdade é a única chance que existe de tentar algum tipo de bloqueio para esse processo de refluxo”.

Singer acredita que há um segundo fator de natureza eleitoral a fazer com que essa “brecha” se apresente com características inusitadas: “É que nós estamos diante da probabilidade — não estou dizendo que isso vai acontecer, mas que é possível e que há uma certa probabilidade — de que o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, vá para o segundo turno, sobretudo depois do ataque que ele sofreu. Esse ataque, que na minha opinião não teve um significado político em si, tem consequências políticas. Bolsonaro não cresceu tanto quanto se esperava, num primeiro momento depois do ataque, mas cresceu o suficiente para talvez ter cristalizado uma situação que o coloque no segundo turno”.

Surgiria, então, “um quadro muito surpreendente”, uma vez que Bolsonaro, com suas posições muito radicais de direita, representa “não só o que já aconteceu de retrocesso, mas um aprofundamento ainda mais rápido desse retrocesso, com uma peculiaridade: de que esse candidato está ameaçando a democracia no Brasil — a própria democracia está em questão”. Ele referiu-se então, para reforçar esse ponto de vista, ao diagnóstico “de alguém completamente isento do ponto de vista do nosso debate”: o cientista político Steven Levitsky, de Harvard, autor do livro Como as Democracias Morrem.

Singer reproduziu, então, recentes declarações de Levitsky: “O candidato Jair Bolsonaro questiona as regras democráticas, elogiando frequentemente a Ditadura brasileira, e tem como companheiro de chapa um general que ameaçou um golpe de Estado. O candidato encoraja a violência, como execuções extrajudiciais pela polícia, nega a legitimidade de seus oponentes”. Ele continuou citando Levistky: “Bolsonaro afirmou que Fernando Henrique Cardoso deveria ter sido morto durante a Ditadura, que Lula deveria ter sido preso, e que seu governo (de Bolsonaro) trataria o MST como terrorista. Bolsonaro se mostra disposto a restringir as liberdades civis, aprovando a tortura e execuções extrajudiciais”.

Portanto, concluiu o professor da FFLCH, “estamos em face de uma candidatura que não só coloca em questão tudo que se conquistou entre 2003 e 2014 (e que em parte já está sendo revogado), mas coloca mesmo a possibilidade de que venha a se reverter isso democraticamente num futuro qualquer”. Ele advertiu que os pesquisadores de comportamento eleitoral sempre lembram que a pesquisa eleitoral é o retrato de um momento, portanto passível de rápidas mudanças. “Mas se a situação se mantiver e Bolsonaro for para o segundo turno, quem irá contra ele? Sabemos que o ex-presidente Lula foi capaz de manter quase 40% de intenções de voto, mesmo preso, e ontem foi oficializada a candidatura de Fernando Haddad como uma candidatura que o substituirá, uma vez que a candidatura dele [Lula] foi impugnada pelo TSE. Portanto, nós podemos ter um confronto desse tipo no segundo turno, o que faria com que se contrapusessem de maneira aberta, explícita, e até mesmo radical, duas visões antagônicas em relação ao Brasil e às perspectivas para o país”.

Só haverá possibilidade de reversão desse quadro de retrocesso por meio de uma frente, acredita, “porque é óbvio que se de fato acontecer de o candidato do PT chegar ao segundo turno ele só poderá ganhar se tiver o apoio de um arco amplo, que vai abranger todos os que são contra o candidato que está ameaçando a democracia”. Esse arco amplo, acrescentou, deveria partir de uma base que é “uma espécie de programa mínimo”. Uma análise dos programas registrados pelos candidatos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) levou Singer a elencar “elementos comuns” a eles, que seriam os principais tópicos desse programa mínimo: defesa da democracia, “sobretudo em relação aos candidatos do campo da esquerda, e aí eu citaria também o Ciro Gomes e Guilherme Boulos, para não falar de outros candidatos”; compromisso com a revogação do Teto de Gastos; e compromisso com a revogação da reforma trabalhista.

A estes, Singer disse ser necessário acrescentar um “compromisso com a desmilitarização da política de segurança pública, porém com a apresentação de propostas positivas, que serão indispensáveis para confrontar o candidato da extrema-direita se ele de fato for ao segundo turno”. Porém, advertiu, “há um problema de fundo que não se pode resolver nem com um programa mínimo”, a saber: “Qualquer candidatura antagônica ao postulante da extrema-direita terá que se comprometer com uma política que melhore as condições de vida das camadas de baixa renda. Para fazer isso, é preciso enfrentar o problema da austeridade, que é uma pedra sagrada do neoliberalismo. Para fazer isso, é preciso enfrentar setores da sociedade brasileira que terão de tomar uma decisão muito relevante em relação a quem votar”.

Ele insistiu que persistirão grandes dificuldades mesmo que ocorra a unificação apontada. “Os problemas são muito mais profundos, mas não vejo como enfrentá-los se não houver uma disposição generosa de unificação para apresentar ao conjunto do país uma resposta para problemas que são muito complicados de resolver para qualquer força isoladamente”.

Comentários e perguntas do plenário

Encerradas as exposições iniciais, o professor Ricupero fez um rápido comentário antes de franquear a palavra ao plenário. “Estamos vivendo a velha e boa luta de classes. Nem a direita consegue derrotar a esquerda, nem o contrário. Como criar as condições para que o campo popular derrote o outro projeto?”, indagou, questionando a viabilidade do arco de alianças aludida pelo professor Singer, uma vez que “o PT coloca nesta eleição a velha política de alianças”. Em seguida várias pessoas se inscreveram para fazer perguntas ou apresentar comentários.

O professor Ciro Correia (IGc) questionou as diferentes definições de golpe no tocante à destituição de Dilma Rousseff, particularmente a de “golpe de Estado”, apontando as responsabilidades do PT quanto às alianças de governo, bem como a inexistência de autocrítica do partido. Lembrou ainda que o governo Lula “começou com a Reforma da Previdência”, e “colocou o grosso do orçamento federal que poderia ser destinado para política pública na mão do grande capital”.

O professor Everaldo Andrade (FFLCH) concordou que os governos petistas cometeram erros, porque “abraçaram a pauta da conciliação de classes”, mas disse serem inegáveis suas realizações, tais como 18 novas universidades, contratação de 100 mil professores, investimentos na Petrobras etc. Discordou de Iasi, assinalando que o PT é um partido de esquerda e destacando a importância da disputa eleitoral.

Laura, aluna do IP, disse que a política de conciliação de classes facilitou a derrubada de Dilma sem resistência popular, indagando à mesa se as eleições de 2018 poderão reverter esse quadro. Guilherme, aluno de Letras, vinculou a forte ofensiva da burguesia à busca de recomposição das taxas de lucro, e reforçou a necessidade de “ampla unidade em torno da defesa das liberdades democráticas”.

O professor Pierluigi Benevieri (IME) manifestou seu receio quanto a uma eventual vitória, no segundo turno, do “candidato neonazista”, e perguntou qual a posição da classe dominante em relação a ele. O professor Marcos Magalhães (IME) lamentou a desmobilização da sociedade: “Muita gente está tocando sua vida, vejo muito isso na universidade”. Comentando a questão do “programa mínimo”, disse que ela exige maturidade: “Não vamos ter um grande programa de esquerda, porque a correlação de forças é desfavorável”. César disse que, enquanto na Europa a pauta da extrema-direita é a imigração, no Brasil é a agenda da corrupção e da dívida pública.

Ambiguidade e divisão da classe dominante

Ao responder aos questionamentos do plenário, Singer disse a avaliação de fundo das políticas dos governos petistas “precisa ser cotejada com as possibilidades reais, uma longa discussão para avaliar o que era possível e o que não era”, levando em conta inclusive o bloqueio imposto pelo setor conservador do Congresso. “Não acho que o governo tenha cometido erros. O governo, o lulismo, adotou uma política a partir de uma certa avaliação. Se esta avaliação era correta ou não, a gente deveria discutir numa outra oportunidade”. Em resposta ao professor Ciro, concordou que não houve esclarecimentos sobre a política de alianças.

Comentando pergunta de Guilherme sobre a relação entre as candidaturas e os ruralistas, disse que derrotar Bolsonaro implica tentar aliança até mesmo com o agronegócio, embora este setor certamente seja refratário a uma aliança desse tipo. Nesse sentido, reconheceu, as contradições serão mesmo grandes.

Em resposta ao professor Pierluigi, ponderou que a posição da classe dominante frente ao candidato da extrema-direita parece ambígua neste momento. “Vejo setores evidentemente inclinados por Bolsonaro. Por outro lado, ao representar um alternativa antidemocrática, Bolsonaro coloca setores da classe dominante em dúvida, porque trata-se quase que optar de novo por 1964”, afirmou. “Não é à toa que ele elogia a Ditadura. Ele está propondo isso, só que pela via eleitoral. Minha intuição é que estamos diante de uma divisão da classe dominante frente ao Bolsonaro”.

Iasi voltou ao tema da centralidade ou não da eleição, afirmando que, no contexto em que ela acontece, não resolverá a crise. “Pode ser no máximo a resposta política ao golpismo, mas não reverte o golpe”. Quanto ao que chamou de “batalha semântica” em torno dos acontecimentos que se desenrolam desde 2015, sustentou: “A posição de que não foi golpe ficou isolada”.

O professor da UFRJ apontou “ausências significativas” no programa mínimo proposto por Singer. Assim, relativamente à defesa da democracia, disse que não haveria como fugir de uma “reorganização da política brasileira que confronte o Congresso” e adote nova forma congressual. No tocante à segurança pública, destacou que não pode ser “instrumento para matar pobres na periferia”.

Ele incluiu, ainda, outros tópicos no que seria o “programa mínimo”: reforma política, com superação do presidencialismo de coalizão e do financiamento de campanha; não realização da (contra)reforma da Previdência, lembrando que a reforma encaminhada por Temer ao Congresso “era do governo Dilma”; reforma agrária, que exige enfrentar o agronegócio; fim do superávit primário etc.

Iasi estimou que Lula não conseguirá transferir votos para Haddad na proporção necessária; que não procede a hipótese de que a população está “dando o troco” aos golpistas na eleição, levantada por Singer; e que haverá uma “enxurrada de votos brancos e nulos”. Criticou Haddad porque, quando ministro da Educação, “a prioridade do governo foi abrir os cofres para as instituições privadas de ensino” e “sequer recebeu o Andes para negociar”. Ponderou que, como o PT está aliado aos golpistas em 15 Estados, isso “encurta o espaço da frente necessária para enfrentar o neonazismo no Brasil”.