Abraham Weintraub, novo titular da pasta, tem duas décadas de experiência em empresas do mercado de capitais e trabalhou na formulação dos planos do governo na área da Previdência Social. Nunca atuou em gestão de educação e é defensor das “ideias” de Olavo de Carvalho, assim como seu antecessor, Ricardo Vélez Rodríguez, demitido depois de menos de três meses de exibição explícita de despreparo para o cargo

Depois de três meses de desencontros, ausência de projetos, muitas quedas de braço na equipe e uma coleção de medidas estapafúrdias que, não raro, foram revogadas antes mesmo de entrar em vigor, por conta das reações em contrário, Ricardo Vélez Rodríguez foi derrubado do cargo de ministro da Educação nesta segunda-feira (8/4).

A demissão já havia sido praticamente anunciada por Jair Bolsonaro na semana passada – em conversa com jornalistas, Bolsonaro avaliou que a gestão de Vélez Rodríguez à frente do MEC não estava “dando certo”, embora o agora ex-ministro fosse “uma boa pessoa, de coração grande, bom para conversar”.

Fiel ao seu estilo, Bolsonaro anunciou pelo Twitter tanto a demissão do antigo ministro quanto a indicação do novo, o economista Abraham Weintraub. Na mensagem, qualificou Weintraub como “doutor, professor universitário” e um nome que possui “ampla experiêcia em gestão e o conhecimento necessário para a pasta”. Também agradeceu a Vélez Rodríguez “pelos serviços prestados”.

O novo titular do MEC na verdade não tem o título de doutor (informação corrigida posteriormente pelo próprio Bolsonaro – onde mais? – num tuíte). É graduado em Ciências Econômicas pela USP e tem mestrado em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Weintraub vinha ocupando o cargo de secretário-executivo da Casa Civil, comandada pelo ministro Onyx Lorenzoni. Foi Lorenzoni quem o apresentou a Bolsonaro, há cerca de dois anos.

Professor do curso de Ciências Contábeis do campus de Osasco da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desde 2014, Weintraub tem uma trajetória marcada pela atuação de mais de vinte anos no setor financeiro. De acordo com o resumo de seu Currículo Lattes, foi sócio da Quest Investimentos, diretor estatutário do Banco Votorantim e CEO da Votorantim Corretora no Brasil e da Votorantim Securities nos Estados Unidos e na Inglaterra, além de ter representado a empresa em encontros do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Foi também membro do comitê de trading da Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo (BM&F Bovespa, atual B3), conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord) e membro do comitê de macroeconomia da Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima). Criou, em sociedade com seu irmão Arthur, o Centro de Estudos em Seguridade (CES), do qual é diretor-executivo.

Essa trajetória no setor financeiro — distante do cotidiano e dos problemas da educação — motivou questionamentos como o da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP): “E a experiência com educação e gestão pública? Bolsonaro trocou 6 por meia dúzia?”, perguntou a deputada numa postagem no Twitter.

Quando um comunista chegar para você, xinga”

Abraham e Arthur Weintraub trabalharam na área da Previdência na equipe de transição do governo Bolsonaro. Em dezembro do ano passado, participaram em Foz do Iguaçu (PR) da Cúpula Conservadora das Américas — que teve como um dos organizadores o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o “zero três”. No encontro, de acordo com relato darepórter Mariana Haubert no jornal O Estado de S. Paulo, Abraham Weintraub afirmou que era necessário vencer o “marxismo cultural” nas universidades e trabalhar para que o país pare de “fazer bobagem” e chegue a uma situação ideal.

“Ele afirmou também que é preciso vencer o comunismo e evitar outras ameaças, como ataques islâmicos, para que o Brasil seja um dos países mais pacíficos do mundo. ‘Dá para ganhar deles. É Olavo de Carvalho adaptado. E como ganhamos deles? Não sendo chatos. Temos que ganhar com humor e inteligência’”, disse Weintraub.

O guru Olavo — mentor do ex-ministro Vélez Rodríguez, outro integrante das hostes de combate ao “marxismo cultural” — não tardou a reaparecer na fala do agora novo ministro da Educação: “Quando ele (um comunista) chegar para você com o papo ‘nhoim nhoim’, xinga. Faz como o Olavo de Carvalho diz para fazer. E quando você for dialogar, não pode ter premissas racionais”, registrou o Estadão. Já Arthur, também professor da Unifesp e pós-doutor pela mesma universidade, afirmou no convescote dos conservadores que “o socialista é a Aids e o comunista, a doença oportunista”.

Catorze demissões em 85 dias, uma das marcas de Vélez

Pelo menos 14 integrantes do primeiro escalão do MEC foram exonerados ou pediram demissão na gestão de Ricardo Vélez Rodríguez. Indicação de Olavo de Carvalho, o ex-ministro colecionou imbróglios em sua breve passagem pelo cargo. Entre eles, a publicação de um edital para compra de livros didáticos que excluía a condenação da violência contra mulheres e quilombolas, permitia a inclusão de publicidade e retirava a obrigatoriedade da publicação de referências bibliográficas. Vélez Rodríguez também anunciou a criação de uma comissão para fazer um “pente-fino” ideológico nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e enviou uma carta a milhares de escolas de todo o país solicitando que os diretores filmassem os alunos cantando o hino nacional e reproduzindo o slogan da campanha eleitoral de Bolsonaro.

Formado em Filosofia e Teologia na Colômbia, seu país natal, Vélez Rodríguez fez carreira como docente no Brasil e passou por dois programas de pós-graduação em Filosofia mal avaliados e fechados pelo MEC na década de 1990, um na Universidade Federal de Juiz de Fora e outro na Universidade Gama Filho (RJ). De acordo com reportagem publicada em março pelo jornal Nexo, seu currículo na plataforma Lattes contém 22 erros.

Numa entrevista à revista Veja, o ex-ministro mostrou todo o seu despreparo ao defender o movimento “Escola sem Partido”, atacar as universidades públicas e dizer que os brasileiros são “canibais” que furtam objetos de aviões e hotéis em viagens ao exterior. Sua gestão de 85 dias foi marcada também por uma desastrada participação em reunião da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados no dia 27/3, que talvez encontre um bom resumo na pergunta formulada pela deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP): “Cadê os projetos, ministro?”