foto: Daniel Garcia

Professores da USP se manifestam sobre nomeação do ex-reitor como presidente da agência de fomento à pesquisa, cargo que acumula com o de secretário estadual da Saúde

O legado de Marco Antonio Zago ao deixar a Reitoria da USP, em janeiro deste ano, inclui processos de desmonte (Hospital Universitário, Creche Oeste, Programa de Incentivo à Demissão Voluntária), de desvinculação (HRAC de Bauru) e de imposição de muitas medidas sem o necessário diálogo que deveria pautar a vida na universidade. Isso não impediu, no entanto, que em abril, apenas três meses depois do término de sua gestão, Zago fosse convidado pelo governador Márcio França (PSB) — então recém-chegado ao posto, em substituição a Geraldo Alckmin, candidato tucano à presidência da República — para assumir o cargo de secretário estadual da Saúde de São Paulo. Em setembro, França escolheu Zago para uma nova função: a de presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O ex-reitor compunha a lista tríplice entregue ao governador pelo Conselho Superior da Fapesp, ao lado do também ex-reitor da USP José Goldemberg (indicado para recondução ao cargo) e de José de Souza Martins, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Uma vez nomeado pelo governador, Zago tomou posse no dia 5/10 e, pelo menos até a posse do novo governador, a ser escolhido no segundo turno da eleição, deverá acumular os dois cargos.

No discurso do novo presidente da Fapesp ficou claro o reforço no foco das “parcerias” da agência com empresas, ao dizer que vêm se fortalecendo nos últimos anos “programas de perfil mais fortemente tecnológico e de inovação, correspondendo a uma aspiração de diferentes parceiros do sistema de ciência e tecnologia de São Paulo, sem que o apoio à pesquisa mais tradicional sofra qualquer efeito negativo”. Para Zago, “não pode, aqui, haver competição, mas sempre complementariedade”.

O novo presidente ressaltou também que “o plano de metas orçamentárias aprovado no Conselho Superior aponta para mudanças graduais, a serem implantadas nos próximos anos”. Nas metas até 2023 há previsão de “aumento dos dispêndios de pesquisa em colaboração com empresas de 10% para 13% do total”, além de “um aumento de 5% para 10% da pesquisa em áreas estratégicas, ou seja, em áreas ou com objetivos definidos em virtude de seu interesse para o estado”.

Omitiu informações, tornou-se agressivo e fechou o diálogo”

Docentes da USP expressaram ao Informativo Adusp posição contrária à nomeação do ex-reitor. O professor titular Daciberg Lima Gonçalves, do Insituto de Matemática e Estatística (IME), lista várias preocupações: “A gestão Zago na Reitoria da USP foi pautada pela implementação de propostas sem uma ampla aceitação da comunidade USP; várias dessas propostas refletem sugestões de consultoria privada (McKinsey&Company), contratada em situação nebulosa; o desastre do Plano de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV), provocando perda indiscriminada de funcionários qualificados, com reflexos negativos em várias áreas da universidade, em particular, afetou o Hospital Universitário (HU) de modo significativo; as reiteradas tentativas de desvincular o HU da USP contribuíram, além do PIDV, para a deterioração do serviço de atendimento, com consequências importantes na formação dos estudantes de áreas tais como Medicina, Farmácia, Fiosioterapia etc”.

Gonçalves continua: “Zago manifestou insensibilidade com a falta de professores em várias unidades da USP; em várias situações omitiu informações da comunidade USP, mesmo quando solicitadas formalmente, e tinha muita dificuldade de tratar com divergências. Não raras vezes se tornou agressivo e fechou o diálogo. Vídeos de reuniões do Conselho Universitário podem ilustrar bem esse ponto”.

Outra preocupação levantada pelo professor do IME é em relação à atividade docente: a pretexto de “modernizá-la”, o ex-reitor “conseguiu aprovar no Conselho Universitário, com apoio de diretores de unidades, uma proposta de avaliação docente centralizada e produtivista, que poderá comprometer o trabalho docente a longo prazo”. Na época, continua Gonçalves, “essa proposta estava sendo rejeitada pela maioria das congregações, que reivindicavam mais tempo para a discussão de alterações, sendo todas elas ‘atropeladas’ pelo furor reitoral, conforme amplamente divulgado nas publicações da Adusp”.

Por tudo isso, finaliza o docente, “creio que a gestão de Zago como diretor na Fapesp precisará ser acompanhada com atenção pela comunidade científica paulista, pois um perfil autoritário e que está muito pouco disposto a ouvir opiniões divergentes não contribui para o bom andamento da Fapesp”.

Não estranharia que o quantitativismo esvaziado avance na Fapesp”

No entender do professor associado Adrián Pablo Fanjul, da FFLCH, a nomeação de Zago é “preocupante em dois aspectos”, a saber, “em relação à defesa de verbas para a Fapesp” e quanto aos “critérios de avaliação de mérito que ele pode promover”.

Durante sua gestão como reitor, lembra Fanjul, “Zago negou reiteradamente, em público, o desfinanciamento que o governo do Estado praticou e pratica em relação à USP”. “Foi o único reitor das três universidades estaduais que chegou a afirmar em público que os recursos eram suficientes. Considerando esse antecedente, posso avaliar que a nomeação de Zago aponta para ter na Fapesp alguém que nunca exponha para a sociedade eventuais cortes de verbas para a fundação”, diz.

No tocante aos critérios de avaliação, o docente ressalta que a Fapesp “é a agência de fomento em que mais subsistem critérios qualitativos de avaliação”. Tanto é que a “súmula curricular” que o pesquisador deve preencher para solicitar apoios ou para postular projetos “está menos centrada no quantitativo, uma vez que é o próprio proponente que deve indicar o que considera suas produções mais relevantes”. Para Fanjul, portanto, “considerando o tipo de avaliação docente que Zago promoveu na USP e as diretrizes com que a CERT atuou durante sua gestão, não estranharia que o quantitativismo esvaziado e redutor avance, inclusive limitado à observação de índicadores externos e destinados a outro tipo de avaliação, como o Qualis da Capes”.

Gerson Salvador, médico da Divisão de Clínica Médica do HU e diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), afirma que Zago “teve uma gestão muito ruim, levando à Reitoria da USP uma visão de universidade dentro de uma concepção de Estado mínimo”. “Ele demonstrou que não tinha preocupação com a importância da relação entre a universidade e o resto da sociedade. Na sua visão, a universidade podia prescindir de seus hospitais-escola, de seus museus, de suas creches”, diz Salvador, uma das lideranças na luta contra o sucateamento do HU. “É lamentável que uma pessoa com esse histórico seja neste momento o responsável tanto pela saúde do Estado de São Paulo quanto pela principal agência de fomento do país”.

No dia 18/10, a Diretoria da Adusp divulgou nota na qual afirma que “merece repúdio a nomeação do ex-reitor Marco Antonio Zago como presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)”. A nota cita diversas medidas da gestão que contribuíram para colocar “em risco as bases que tornaram as universidades públicas estaduais uma referência para as universidades públicas brasileiras” e conclui afirmando que “a nomeação de Zago como presidente da Fapesp é, portanto, um desserviço à pesquisa paulista e brasileira, tendo como agravante o fato de acumular a pasta estadual da Saúde” (leia a íntegra).