A paralisação nacional da Educação agendada para esta quarta-feira 15/5 promete contar com ampla participação de estudantes, docentes e funcionários técnico-administrativos das universidades estaduais e federais, mas envolve também o apoio discreto ou ostensivo de setores normalmente avessos a protestos desse tipo, porém de alguma forma sensibilizados (ou mesmo indignados) com o fortíssimo ataque desencadeado por Jair Bolsonaro e pelo MEC contra a educação e, particularmente, contra as universidades públicas — e que, no Estado de São Paulo, conta com um “braço” parlamentar: a CPI presidida pelo deputado Wellington Moura (PRB), vice-líder do governo João Doria (PSDB) na Alesp.

Foto: Esquerda Diário
Alunos da USP de São Carlos aprovam paralisação de 15/5

Neste sentido, um pronunciamento até certo ponto surpreendente partiu do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), que já em 13/5 emitiu nota sobre a “anunciada manifestação de diversas entidades em defesa da Educação” prevista para 15/5. Na nota, os reitores reconhecem “a importância de a Comunidade Universitária debater as questões relativas aos complexos problemas da educação, ciência e tecnologia no Brasil e suas consequências para o desenvolvimento do país”, destacam o papel da USP, Unesp e Unicamp (“respondem por mais de 35% da produção científica nacional e são responsáveis por 35% dos programas de pós-graduação de excelência no país”) e lembram que no Brasil, “como em todos os países desenvolvidos, a pesquisa nas universidades é financiada majoritariamente pelos governos”.

Ainda que sem citar expressamente a Capes (e o MEC) e o CNPq, o Cruesp critica os cortes de recursos impostos pelo governo federal: “Agências públicas federais de fomento que integram o sistema nacional de CT&I são fundamentais para o funcionamento das universidades, que dependem desses recursos para financiar suas linhas de pesquisa. Interromper o fluxo de recursos para estas instituições constitui um equívoco estratégico que impedirá o país de enfrentar e resolver os grandes desafios sociais e econômicos do Brasil”.

A nota do Cruesp pode ter estimulado outras manifestações. O chefe do Departamento de Biologia (DB) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), professor Flávio Bockmann, enviou nesta terça-feira (14/5) a seguinte mensagem aos docentes: “Em consonância com a unânime e profunda indignação manifesta na 339a Sessão Ordinária do Conselho do Departamento de Biologia, realizada a 9/5/2019, com relação às declarações e aos ataques arbitrários e infundados dirigidos à Educação, ao Conhecimento (Ciências, Artes e Filosofia), à Universidade brasileira e ao Meio-Ambiente de nosso país, protagonizados pelo governo federal, e em sintonia com a ‘Nota do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp)’, publicada em 13/5/2019, em que se observa a ‘importância do debate sobre os problemas da educação, ciência e tecnologia’, a Chefia do DB informa que apoiará as manifestações do ‘Dia Nacional de Luta em Defesa da Educação, da Universidade e da Ciência’, a serem realizadas nesta quarta-feira, 15 de maio de 2019, bem como incentiva a participação de toda a sua comunidade, respeitando naturalmente as decisões contrárias ou de abstenção. Outras ações, decididas pelo Conselho do Departamento de Biologia na referida reunião, estão em curso”.

Também foram inusuais a votação realizada pelo Grêmio da Escola Politécnica (EP) e seu resultado: os alunos decidiram, por expressiva maioria, aderir à paralisação nacional. Votaram 1.245 alunos, dos quais 946 (76%) aprovaram a paralisação, ao passo que 261 (21%) a rejeitaram e apenas 38 (3%) se abstiveram. Ao todo, estudantes de cerca de 30 cursos da USP deliberaram por paralisar as atividades nessa data.

FMVZ repudia cortes do MEC e decide aderir à paralisação

Também os estudantes da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) deliberaram, em assembleia realizada em 13/5, paralisar suas atividades em 15/5 com a finalidade de tomar parte no ato público que terá lugar no MASP nessa data. Antes disso, informou o Centro Acadêmico Moacyr Rossi Nilson, eles discutiram “os recentes problemas financeiros que vêm acometendo nossa universidade”, bem como “os cortes anunciados pelo MEC nos repasses a universidades federais e cursos de formação humana, e os cortes de novas bolsas de Mestrado, Doutorado e Ciência sem Fronteiras da Capes”.

Os alunos da FMVZ decidiram ainda, na assembleia, aprovar moção de repúdio aos cortes, a ser apresentada à Congregação da unidade. “Reforçamos que estas pautas não dizem respeito apenas aos alunos, mas a toda a comunidade universitária, que será extremamente prejudicada com estes cortes”, lembrou o centro acadêmico. “Pedimos a todos os docentes desta instituição compreensão e apoio à nossa causa, visto sua importância para nosso desenvolvimento científico”.

Outra decisão importante relacionada a uma área “técnica” ocorreu em Piracicaba, onde os estudantes de graduação e os de pós-graduação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), reunidos em assembleias em 13/5, decidiram paralisar atividades na manhã do dia 15/5, de modo a participarem de um ato local, a ser realizado no Mercado Municipal. Nesta terça-feira (14/5) o DCE promoveu uma mesa-redonda, que contou com a participação da diretoria regional da Adusp.

No campus de Ribeirão Preto da USP, as categorias produziram uma extensa programação conjunta para 15/5, que terá início com panfletagem em frente aos três portões da USP a partir das 6 horas. A concentração para uma “Marcha em Defesa da Educação Pública!” será a partir das 7 horas na entrada da Avenida do Café. A “Marcha” vai se dirigir à Esplanada do Teatro Pedro II, no centro da cidade. Às 10h30 terá lugar, na Esplanada, uma Aula Pública ministrada pelos professores José Marcelino Rezende Pinto (FFCLRP), Tiana Kohlsdorf (FFCLRP) e Eurico de Arruda Neto (FMRP).

Após a aula pública, entre 12 horas e 13 horas, serão apresentadas no Calçadão da Praça XV, sob o mote “Universidade Vai à Praça!”, atividades de pesquisa e extensão desenvolvidas pela USP para a população de Ribeirão Preto. À noite estão previstos dois outros eventos: na Câmara Municipal, debate sobre o projeto “Escola sem Partido”, às 18h30, e na sede do Conselho Regional de Psicologia, fundação do Comitê em Defesa da Universidade Pública, às 19 horas.

UFF expõe trabalho acadêmico e UFES desmente Onyx

No Rio de Janeiro, estado que conta com três universidades federais (UFRJ, UFRRJ e Uni-Rio) e três estaduais (UERJ, UEZO e UENF), além de 17 institutos federais de educação, um ato unificado de toda a educação e de categorias e movimentos que apoiam esta luta começará na Candelária, com concentração a partir das 15 horas. “A expectativa é de que a maioria das universidades e institutos federais pare. A mobilização ganhou enorme impulso após o anúncio por parte do governo federal de cortes de 30% em média nos orçamentos destas instituições”, informa o site da Associação dos Docentes da Universidade Federal Fluminense (Aduff). Em Niterói, a Aduff está organizando o ato “Eu Defendo a UFF”, na Praça Araribóia, na qual serão expostos trabalhos desenvolvidos pela comunidade acadêmica na universidade. No dia 8/5, sob esse mesmo mote, a UFF protagonizou uma das maiores manifestações realizadas no país contra o corte de verbas decidido pelo governo federal.

Em Sergipe é grande a mobilização, estimulada, adicionalmente, pela indignação provocada por informações errôneas sobre a Universidade Federal de Sergipe (UFS), divulgadas pelo ministro-chefe da Casa Civil. Cristian Góes, professor de jornalismo da UFS, explica: “Foi uma entrevista do ministro Onyx Lorenzoni que usou números falsos e disse que a UFS não tinha cursos de pós-graduação com nota 5 da Capes. O que não é verdade. A UFS possui 54 programas de Pós-Graduação, quatro deles com nota 5. Aproximadamente 90% dos alunos de mestrado (1.511) e doutorado (724) do estado de Sergipe são da UFS. O número de programas de pós-graduação da UFS saiu de 10 em 2007 para 54 em 2018, um crescimento de 440%. Houve uma grande revolta da sociedade local”.

Ainda segundo Cristian, “a paralisação será total e um grande ato público está sendo programado para 15 horas no centro de Aracaju, onde se juntam os educadores das redes municipal e estadual de Sergipe, que também estarão com suas atividades paralisadas contra os cortes de verbas, pela liberdade de ensinar e contra a reforma da Previdência”.