FFLCH realizou reuniões nesta quinta-feira (2/5) para acolher a dor e o luto pela perda de Filipe Varea Leme, aluno vitimado por suposto “acidente de trabalho” na terça-feira (30/4) quando carregava um armário em elevador da Escola Politécnica, onde fazia estágio

Facebook/CEGE

Alunos, professores e funcionários do Departamento de Geografia (DG) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) reuniram-se nesta quinta (2/5) para lembrar a morte do aluno Filipe Varea Leme, de 21 anos, que morreu na terça-feira (30/4).

O estudante de Geografia estava no nono semestre do curso de bacharelado e havia iniciado a licenciatura. Era monitor no laboratório de informática da Escola Politécnica. Na tarde de terça, trabalhava numa mudança interna, auxiliado por um colega. Ambos transportaram um armário cheio de livros até um elevador para deficientes para descer um andar. O colega não entrou, pois não havia espaço para duas pessoas e o móvel. O elevador não sustentou o peso e o armário caiu em cima de Filipe.

A Poli – cujo comportamento no caso foi bastante criticado pelos participantes da reunião na Geografia – criou uma comissão de sindicância para apurar os acontecimentos, que estão sendo investigados também pela Polícia Civil. A chefe do DG, professora Sueli Angelo Furlan, representará a unidade na comissão.

O Informativo Adusp tentou contato com a diretora da Poli, professora Liedi Bariani Bernucci, mas foi orientado a solicitar à assessoria de imprensa da Reitoria a nota oficial divulgada na terça-feira sobre o caso.

“A Universidade de São Paulo, por meio da Escola Politécnica (Poli) e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), lamentam profundamente o falecimento do estudante de Geografia e monitor da Poli, Filipe Varea Leme”, diz a nota. “A Direção da Poli ressalta que preza pela adoção das medidas de segurança necessárias para a rotina do trabalho dentro de suas dependências. A Escola informa, ainda, que prestará todos os esclarecimentos necessários para a elucidação dos fatos junto às autoridades competentes. Neste momento de profunda dor, a Universidade se solidariza com familiares, amigos e toda a comunidade acadêmica. O Escritório de Saúde Mental da Universidade está prestando apoio à família”, prossegue o texto.

Vocês crescem com a gente, e a gente cresce com vocês”

O Informativo Adusp acompanhou a reunião realizada no início da tarde desta quinta no auditório Milton Santos, na História/Geografia. Um segundo encontro seria realizado à noite. Na abertura, a professora Sueli Furlan ressaltou que aquele seria um momento de reflexão e acolhimento da dor e do luto da comunidade pela morte de Filipe e que aquele era o momento mais difícil de toda a sua trajetória no departamento. “Queremos acolher a todos vocês, reconhecer que a nossa dor é profunda e que não seria possível, no dia seguinte ao velório e ao enterro, ter aula e estar aqui como se fosse um dia normal”, disse. Sueli lembrou que as relações entre alunos e professores vão muito além da sala de aula e das tarefas acadêmicas: “Vocês crescem com a gente, e a gente cresce com vocês.”

A professora Glória da Anunciação Alves disse: “Sempre falo para os meus alunos que eles têm que viver a USP, e o Filipe vivia – nas aulas, no Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu (CEGE), na Atlética, em tudo”. Os alunos do time de vôlei compareceram uniformizados ao velório, realizado na quarta-feira (1/5) no cemitério do Araçá. O sepultamento ocorreu no cemitério da Lapa.

“No velório, o pai do Filipe me disse que havia sido uma honra ter sido seu pai por 21 anos. Para mim também foi uma honra ter sido professora dele”, disse a docente Marta Inez Medeiros Marques, que foi orientadora de Iniciação Científica do estudante. A professora lembrou que construir uma história na universidade representa uma convivência humana que vai muito além dos aspectos instrumentais e de carreira, e solicitou que os amigos mais próximos “apoiem a família de Filipe da maneira que for possível”.

Na reunião, a vice-chefe do DG, professora Valéria de Marcos, fez várias críticas ao comportamento da Poli em todo o caso: “Acordei ontem com um peso gigante pelo silêncio que vem do outro lado [a Poli]. Soubemos da notícia pelos nossos estudantes. Do outro lado, falta humanidade no sentido de acolher, de estar com a gente. Precisamos de uma explicação. Não dá para ficar com esse silêncio”.

Situação é inaceitável”, diz a diretora da FFLCH

O professor Eduardo Donizeti Girotto abriu sua fala dizendo que “nenhuma mãe ou pai mereceriam enterrar um filho, assim como nenhum professor mereceria enterrar um aluno”. Girotto lembrou que, no último trabalho de campo em que esteve com Filipe, ambos conversaram muito sobre vida e morte e sobre como o tema morte é pouco presente na universidade.

“Como a gente continua a partir daqui? Como a gente se coloca no lugar do outro?”, perguntou Girotto. “A gente precisa assumir que isso dói e que a cada dia essa ausência se fará sentir mais. Temos que chorar na universidade e assumir essa dor, que é de todos nós”, disse. Assim como outros partipantes, ele mencionou a presença maciça de alunos, professores e funcionários no velório e no enterro, dizendo que “olhar para tanto amor que havia naquele contexto de morte pode nos ajudar a nos basear para o que temos que fazer. O caminho é escutar, ouvir, dialogar”, concluiu.

Assim como ocorreu com os docentes, os relatos dos colegas de curso foram marcados por muita emoção, voz embargada e lágrimas. Filipe foi lembrado como um amigo sempre presente, profundamente envolvido com o curso e a universidade em todas as suas dimensões: aulas, centro acadêmico, discussão e ação políticas, esporte, festas, organização de eventos e encontros nacionais de estudantes de Geografia.

“A gente perde um grande amigo. A gente nunca imaginou que iria passar por isso. Eu vou me lembrar dele do melhor jeito possível quando fechar os olhos”, disse uma aluna. “Ele iria ser um grande geógrafo e um grande professor. Eu lamento muito pelos que não serão alunos dele”, afirmou outra colega (as alunas preferiram não se identificar para o Informativo Adusp).

A diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, e o vice, Paulo Martins, participaram da reunião. Maria Arminda, também profundamente emocionada, relatou que recebeu um telefonema da diretora da Poli apenas no final da tarde de terça-feira comunicando o ocorrido. “O que fiz na hora foi ficar em profundo silêncio. Fiquei chocada”, disse. Em telefonema a seguir ao reitor da USP, Vahan Agopyan, a diretora disse que queria “não apenas fazer um protesto muito veemente, mas dizer que a faculdade não aceitava o que estava acontecendo”.

“Isso é inaceitável, e a nossa indignação tem vários motivos. Primeiro, a universidade é o lugar da educação. Segundo, a universidade é o lugar do acolhimento. Terceiro, não admito que ninguém desta casa seja tratado de um jeito que não deve ser tratado”, afirmou. Maria Arminda disse ainda que a faculdade fará o que for necessário para o esclarecimento do caso. Uma cerimônia será organizada pelo DG, com a participação da família de Filipe, para homenagear o estudante.

Lógica de precarização

O professor Pierluigi Benevieri, docente do Instituto de Matemática e Estatística (IME), escreveu um e-mail aos seus colegas de unidade no qual diz que “o silêncio e a blindagem do assunto pesam”. Na mensagem, ele elenca uma sequência de questionamentos do processo de precarização do trabalho na USP e que possivelmente se aplicam ao trágico caso da morte de Filipe: “Um aluno estagiário de uma unidade X está fazendo uma mudança que comporta riscos (um armário cheio de livros não é uma cadeira). Por que acontece isso? Estamos acompanhando redução de funcionários (e professores) e redução de financiamentos. Isso se traduz em diminuição da qualidade de funcionamento de tudo”.

“A dinâmica de uma tragédia individual é ligada a erros que podem se verificar. Filipe não deveria ter usado o elevador, claro. Somente que: ele foi orientado? Tinha preparo para isso? Cabia  a ele uma mudança? Queremos continuar nessa lógica de corte de orçamento? De precarização do trabalho dentro de uma instituição  pública?”, prossegue o professor.

O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) divulgou moção de pesar e repúdio na qual afirma que “a precarização do trabalho na USP avança de várias formas” e cobra a “rigorosa apuração do acidente, garantindo à família e à sociedade o conhecimento dos fatos causadores dessa terrível perda”.