Decorridos mais de dois meses do Baile da Adusp, a Coordenadoria de Assistência Social (Coseas), responsável pela administração do Clube dos Professores, mantém sua postura de indiferença diante da intoxicação que acometeu mais de 60 docentes na ocasião.

A única manifestação oficial da Coseas, até o momento, é o ofício GC 0793, de 18/12/09, em que a coordenadora, professora Rosa Maria Fonseca, limita-se a encaminhar relatório técnico da sua Divisão de Alimentação, intitulado “Comentários em relação ao episódio gastrentérico ocorrido no dia 4 de dezembro de 2009”.

O relatório informa que só foram contatadas 15 pessoas vitimadas pelo surto, entre as mais de 40 relacionadas; que “Não foi realizada análise microbiológica das preparações [refeições] oferecidas”, e que, em razão disso, “o diagnóstico do agente etiológico ficou indefinido”. Afirma ainda, à guisa de conclusão, que “os sintomas começaram na manhã de domingo (6/12) e manhã da segunda-feira (7/12), indicando que o jantar em questão (jantar do dia 4/12 no Clube dos Professores) não foi a única nem a última refeição utilizada pelos doentes, sugerindo que (...) não foi o causador deste episódio gastrentérico”.

“Inaceitável”

Insatisfeita com a resposta inicial da Coseas, a Adusp solicitou um parecer sobre o relatório ao professor Flávio Finardi, que atua na área de Alimentos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF-USP). E, em 5/2, enviou novo ofício à professora Rosa Maria Fonseca, encaminhando cópia do parecer.

O ofício da Adusp, baseando-se no parecer do professor Finardi, considera “inaceitável que não tenham sido guardadas amostras dos alimentos preparados e servidos na festa para posterior análise” e pede que a Coseas se manifeste sobre o documento, “bem como nos informe quais medidas foram tomadas para que acontecimentos desta natureza não se repitam”. Até o fechamento desta edição, em 19/2, não houve resposta da Coseas.

O professor Finardi compareceu ao baile de 4/12/09 e foi uma das vítimas do que chama de “surto de doenças gastrointestinais”. Ao retornar ao restaurante do Clube dos Professores, em 8/12, perguntou aos garçons “se houve algum tipo de queixa de mal-estar após a festa, e me foi confirmado que uma das pessoas da cozinha foi hospitalizada e que pelo menos um deles teve indisposições semelhantes no domingo”.

Surto de DTA

Na avaliação do professor Finardi, o que ocorreu foi um surto de DTA, isto é, “doença transmitida por alimentos”. O relatório da Coseas, contudo, afirma que os resultados do estudo epidemiológico conduzido pelo órgão “revelaram que o quadro clínico, o período de incubação e a taxa de ataque observados “não são compatíveis” com surto de DTA. O professor critica os procedimentos adotados pela Coseas na investigação:

  • “Em dias normais os funcionários da cozinha retiram amostras dos alimentos servidos, mantendo-os sob refrigeração, para eventuais análises se forem necessárias. Em seguida veremos que tal procedimento não foi realizado ou as amostras foram descartadas antes dos alertas de surto.”

  • “No caso em questão, somente as matérias primas foram analisadas, com baixa probabilidade de se encontrar o agente patogênico, visto que muitos dos alimentos consumidos foram processados a quente, fato que pode levar à destruição térmica de microrganismos, mas em alguns casos não destrói toxinas produzidas por eles. Vale mencionar que esta hipótese seria pouco provável, devido ao longo tempo decorrido para aparecimento dos sintomas.”

  • “O relatório é pouco preciso ao apontar os itens mais consumidos (vinho, filé mignon, água e filé de frango) como taxas de ataques altas, citando “outros” (em conjunto) com taxas nada desprezíveis de 50% de ataque. Há que se considerar que o número de entrevistados foi muito baixo em relação aos casos de que a Adusp tomou conhecimento.”

  • “A avaliação do fluxograma das etapas de preparação, como consta do relatório, não garante a eficácia da manipulação adequada dos pratos preparados. São diversas as etapas de preparação: higienização das matérias-primas, corte/descascamento/trituração, cocção/fritura/assamento, finalização e conservação do alimento preparado. Sabe-se que a higiene da manipulação é o fator mais importante na preparação de alimentos. Uma simples falha de higiene na manipulação ou nos cuidados de conservação, em temperaturas adequadas para cada tipo de produto, seria suficiente para causar o surto.”

  • “O relatório diz ainda que ‘os sintomas variados não indicam um agente etiológico específico causador da ocorrência’, porém deixa de citar que esta hipótese não está de per si descartada”.

  • “A análise microbiológica de fezes dos pacientes não é essencial para fechar o diagnóstico quando um número relativamente grande de participantes de um evento relata suspeitas de DTA. No meu entendimento, um inquérito mais minucioso com os pacientes poderia trazer as informações necessárias para, em conjunto com a análise de amostras de todos os alimentos preparados pela cozinha para aquela ocasião, estabelecer o principal agente etiológico do surto.”

  • “A possibilidade de tal agente ser de origem viral não deve ser descartada, eventualmente veiculada pelos alimentos. Devo lembrar que a pessoa da cozinha que teve problemas não participou da festa, mas da elaboração e do consumo dos pratos ali preparados”.

O professor Finardi arremata seu parecer ironizando a conclusão a que chegou o relatório da Coseas: “Finalmente, atribuir a outras refeições fora dos domínios do Clube dos Professores os sintomas apresentados por cerca de 40 colegas, que se encontraram somente naquela noite, não é uma atitude correta para concluir esta avaliação”.

 

Matéria publicada no Informativo nº 300