Gabriela Ferro, Marcela Carbone, Naiara Schranck e Vanessa Couto, representantes discentes da graduação no Conselho Universitário (Co), divulgaram documento em que denunciam o reitor e diretores de unidades por tê-las agredido verbalmente e tentado intimidá-las no decorrer dos trabalhos da reunião de 9/12 desse colegiado. O texto está na página do Diretório Central dos Estudantes-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”.

A reunião do Co teve como pauta principal o orçamento da USP para 2015. “Mais uma vez, a Reitoria cortará em cerca de 30% o orçamento da USP, prejudicando atividades de ensino, pesquisa e extensão”, dizem as RDs. No entanto, prosseguem, referindo-se a denúncias de violência sexual e racismo na FMUSP, “o que mais chamou atenção no Co não foi a discussão orçamentária, mas sim o tema das violações de diretos humanos, da violência a mulheres, negras, negros e LGBTs, em espaços da USP”.

O documento registra que só após a realização de três audiências na Alesp é que o reitor se pronunciou sobre o tema, mas o fez, para o espanto das RDs, “da pior maneira possível”. Isso porque, ao falar na reunião, “Zago preferiu voltar suas críticas àquelas e àqueles que têm denunciado os casos de agressão na USP, e não aos agressores”. Segundo o reitor, “os que pedem a punição dos agressores na USP são, na verdade, ‘inquisidores’, ‘purificadores’ e adeptos de ‘autos de fé’”.

“Evidentemente, nós, RDs, não ouvimos caladas tais declarações. Não é admissível que a mais alta figura hierárquica da universidade, o reitor, reproduza uma das principais lógicas da perpetuação do machismo e do preconceito, a saber, a culpabilização das vítimas e não dos opressores. Tal postura, em essência, legitima institucionalmente que práticas de transgressão dos direitos humanos, como o machismo, racismo e a LGBTfobia, se perpetuem na USP”.

Assim, elas decidiram contestar as afirmações feitas em defesa de uma suposta preservação da “imagem” da universidade. Citaram as propostas elaboradas em espaços do movimento estudantil, que há tempos exige que a Reitoria tome medidas urgentes: campanha contra a violência à mulher, centro de referência para orientações jurídicas, médicas e psicológica. “Deixamos claro que não admitiríamos nenhum tipo de omissão por parte da USP”.

Provocações

Porém, denunciam as RDs, “frente aos nossos questionamentos, teve início uma série de agressões morais, protagonizadas pelo reitor Zago e por diversos diretores, contra aquelas (nós) que ousavam criticá-los”. Uma primeira representante foi interrompida diversas vezes pelo reitor, dizem: “Zago tentava a todo tempo desmoralizá-la, alterando o tom de voz e se utilizando de sua posição de autoridade, não permitindo que o raciocínio da RD fosse concluído”. Depois disso, “diretores seguiram, em pronunciamentos e informalmente, debochando das RDs, fazendo abertamente piadas e provocações acerca das denúncias colocadas, e um deles filmando de maneira constrangedora, com um aparelho celular, as representantes discentes”.

O ápice da situação: “Após o pronunciamento de uma das RDs sobre o tema orçamentário, Zago simplesmente não reconheceu a legitimidade dos argumentos apresentados e, de modo arbitrário e autoritário, diante de todo o conselho, ordenou que voltasse ao microfone e se retratasse, posto que o reitor discordava de seus argumentos. Ao tomar a palavra, a RD imediatamente foi interrompida pelo reitor, que gritava repetidas vezes, em altíssimo tom de voz: ‘Você é incapaz de me responder’, não permitindo que a RD sequer iniciasse sua fala, configurando uma inadmissível tentativa de desestabilizar a estudante e enfraquecer seus argumentos e colocações políticas”.

O documento lembra que a composição do Co evidencia sub­representação de estudantes e funcionários: “As duas maiores categorias da universidade são as menos representadas no Co. Queríamos nessa nota agradecer a grande solidariedade que recebemos dos representantes dos funcionários, os quais falaram em nossa defesa, e dos estudantes da pós-graduação”.

O machismo de M.A. Zago já apareceu em outras oportunidades, revelando uma faceta perturbadora do atual reitor. A novidade de 9/12 é o envolvimento ostensivo de diretores no clima de agressão moral e chacota contra as RDs. Será que, a par do declínio político-ideológico da estrutura de poder da USP, assistiremos também à sua erosão ética?

Informativo nº 395