foto: Daniel Garcia

Organizado pela Revista Adusp no auditório da FE, em 9/5, o debate “USP Pública ou USP Empreendedora? Gestão democrática ou tirania pró-mercado?”, reuniu os professores Franklin Leopoldo da Silva (FFLCH-USP), José Sérgio de Carvalho (FE-USP) e Maria Caramez Carlotto, da Universidade Federal do ABC (UFABC). A transcrição integral do debate será publicada pela Revista Adusp, em edição especial sobre a gestão M.A. Zago-V. Agopyan. Veja o vídeo.

Daniel Garcia
Maria, Franklin, Elisabetta e José Sérgio (ao microfone)

“O debate de hoje é motivado por tudo aquilo que estamos vivendo nos últimos tempos. Os ataques que a universidade pública vem recebendo, tanto de dentro quanto de fora”, esclareceu, ao abrir os trabalhos, a professora Elisabetta Santoro, 2ª vice-presidenta da Adusp, que atuou como moderadora. A Reitoria, afirmou, pretende impor à USP uma gestão empresarial. “A contratação da consultoria privada McKinsey é um exemplo disso”.

A exposição de Maria Carlotto compartilhou achados do grupo de pesquisa em que atuou na USP, durante seus estudos de doutorado acerca do predomínio do discurso gerencial na instituição. A universidade divide-se entre dois polos, ou campos: de um lado as escolas profissionais tradicionais, que possuem “um núcleo duro que não se altera”, apesar de renovar-se; de outro lado, o polo acadêmico-científico, “que reúne todas as instituições voltadas à produção de conhecimento, aos produtores e difusores de conhecimento”. A seu ver, essa estrutura básica dual “organiza grande parte das visões da história da universidade”. O antagonismo entre os dois campos se torna patente durante a reforma universitária dos anos 1960.

“O centro do projeto ‘moderno’, gerencial, é justamente se contrapor a essa democratização das estruturas de poder, deliberativa, sobretudo as decisões mais estratégicas. E essa ideia de democratização vinha justamente do polo acadêmico-científico. Ela se colocava no final dos anos 1950 e mais ou menos até 1964/65 como uma proposta essencialmente moderna, de combate a uma estrutura arcaica, vinda das castas. As elites que controlavam a universidade, Medicina, Direito e Engenharia, vão sistematicamente buscar um novo conhecimento, uma nova visão, capaz de se apresentar como moderna e de se contrapor a essa reforma”.

No entender de Maria Carlotto, uma dimensão fundamental no enfrentamento atual é a disputa simbólica. “Eles conseguiram construir tal bloqueio de legitimação da sua visão enquanto moderna, gerencial, arrojada, que a gente está com muita dificuldade de furar. Mas também é verdade que só se consegue impor essa visão com uma violência física e simbólica brutal. É sobre isso que a gente precisa pensar. Existe uma violência física absurda e também existe uma violência simbólica”.

Famigerada gestão

Franklin Leopoldo destacou, a respeito da passagem da USP de “uma instituição política a uma organização de mercado”, que a universidade não inova, porque “simplesmente segue uma coisa que vem acontecendo há muito tempo no mundo inteiro, que é a definição da política pela administração”. Em outras palavras: “É a famigerada gestão, que vem invadindo todos os setores e colocando as coisas no seguinte pé: ‘se continuarmos mistu­rando a gestão da universidade com discussões político-institucionais, acabaremos por para­lisar a gestão’”. Tal reorientação levou a “uma racionalidade específica, que é corporativa e, num sentido mais amplo, instrumental”.

A competição, característica marcante do liberalismo, contamina a USP. “A pauta individualista que percorre o meio universi­tário faz com que o pesquisador seja, antes de mais nada, um investidor em si mesmo. E, portanto, as técnicas de investimento e de retorno é que pautam a vida universitária”. Na avaliação do professor da FFLCH, a “indiferença ética” que toma conta da sociedade como um todo reflete-se também na universidade, provocando mudanças.

“A despolitização é um projeto político. Quando você vê na universidade, e mesmo na sociedade, a apologia da eficiência, da eficácia e da administração, completamente contrária ao pensar políti­co, é o efeito de um projeto bem pensado”. É preciso que alguém se debruce “sobre um binômio funda­men­tal para entender o que a gen­te vive: a democracia formal e o totalitarismo real”, propôs Franklin.

Ele disse ter ficado “pasmo” ao ler a descrição das reuniões do Conselho Universitário (Co). “A violência desmedida que lá aparece, principalmente por parte da cúpula dirigente. Eu vejo isso como uma violência totalitária. Isso é naturalizado. Temos um reitor segundo o que o modelo MEC-Usaid queria colocar. Trata-se de um uso burro da violência. Então, não sei se isso serve de consolo ou não, mas temos tido uma série consecutiva de dirigentes universitários que não primam pelo uso da inteligência”.

Gesto desesperado

José Sérgio de Carvalho, que representa a Congregação da FE no Co, esclareceu que, não sendo militante político ou sindical, foi levado a atuar politicamente por ocasião das recentes reuniões desse colegiado (de 7/3 e 11/4). Depois de pronunciar-se contra as chocantes agressões da Polícia Militar a estudantes e funcionários e contra a conivência da Reitoria, retirou-se de ambas. “A minha atua­ção política ali tem mais a ver não com o que a gente entende classicamente por política, que é uma certa negociação dos diferentes interesses, mas justamente o gesto desesperado da crise, onde se fala ‘isso não é negociável’. A minha única atitude política foi de falar que aquilo que estão fazendo está fora do âmbito da negociação”.

Historicamente, observou, existe “uma tensão constitutiva da USP” desde sua fundação entre, de um lado, “o papel público e político da universidade”, e de outro lado “a ideia de que ela é também um lugar de formação de profissionais, de atendimento a reclamos e demandas sociais”. Tensão, portanto, “Entre o sentido político, o significado cultural da universidade na nossa sociedade, e suas finalidades sociais, econômicas e produtivas”, isto é: a universidade se caracteriza por ser um lugar que tem tanto uma finalidade em diálogo com a produção econômica, quanto um sentido político. “A universidade deve inclusive sua excelência a esse equilíbrio tenso”, destacou José Sérgio.

Enquanto se conseguiu manter uma universidade que tinha sentido público, “embora também tivesse que cumprir a função da finalidade aqui e acolá”, essa experiência tinha sentido, enfatizou. “Ela não era a mera conformação de indivíduos adequados a uma engrenagem que funciona por si”. Porém, adverte, seu sentido público, político, crítico, “está sendo esgarçado, dilacerado e quase anulado nos dias que correm”.

Não obstante, salientou, hoje estamos diante de uma ruptura ainda mais radical.  “O que há de novo é que a ruptura agora se opera em um novo campo, da própria gestão dos conflitos e das tensões”, em relação à proeminência da palavra, ou seja: da política como forma de deliberação que suspende a violência. “A ruptura da proeminência da palavra em favor da força bruta em relação a todas as vozes dissonantes”.

Informativo nº 436