Convocado a prestar contas sobre sua gestão, o reitor da USP, Vahan Agopyan, compareceu no dia 16/5 ao auditório da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informação da Assembleia Legislativa (Alesp), quando foi questionado por deputados e por membros do Coletivo Butantã na Luta, da Adusp e do Diretório Central dos Estudantes a respeito da situação de quase colapso do Hospital Universitário (HU) e do descaso da Reitoria frente à aguda insuficiência de pessoal.

Após apresentar uma série de transparências com propostas de sua gestão, Agopyan foi questionado pelo deputado Carlos Neder (PT) sobre os motivos pelos quais o reitor não realizou audiências com o Coletivo Butantã na Luta, que chegou a entregar três ofícios à Reitoria com pedido de reunião para a entrega de seu abaixo-assinado em defesa de contratações no HU, com quase 60 mil assinaturas. Sem dar uma resposta clara, Agopyan se limitou a dizer que estava aguardando a conclusão de um relatório da Superintendência do HU para realizar a reunião.

O deputado Roberto Massafera (PSDB) também pediu esclarecimentos sobre a situação financeira da USP e questionou o reitor sobre o HU, desta vez quanto à não aplicação da emenda orçamentária aprovada em dezembro de 2017, que acrescenta R$ 48 milhões ao orçamento da USP, para que sejam contratados funcionários para o hospital.

Em seguida, o deputado José Américo (PT) reconheceu que houve um erro do relator do orçamento, Marco Vinholi (PSDB), que colocou a emenda no grupo de “custeio” em vez no de “pessoal”, mas perguntou ao reitor se não era possível um remanejamento interno das verbas em vez de esperar pela aprovação da correção pela Alesp e pelo governador.

Vahan afirmou que a verba de R$ 48 milhões não é um acréscimo ao orçamento da USP e que “estão retirando recursos da rubrica de educação para a rubrica de saúde”. Depois, responsabilizou a Prefeitura e o Governo estadual pela atual condição do HU, que estaria com superlotação em decorrência do fechamento de hospitais na Zona Oeste da cidade.

Após perguntas sobre a condição financeira da USP, o HU voltou a ser o assunto principal a partir dos pronunciamentos dos deputados Gustavo Petta (PCdoB), que criticou “a visão de desresponsabilização interna à USP”, quando comparada à relação que a Unicamp tem com seu hospital, e Carlos Giannazi (PSOL), que acusou a Reitoria de não realizar uma gestão democrática da universidade.

Mudança de discurso

Diversos deputados questionaram a mudança de discurso do reitor sobre os R$ 48 milhões, porque, em audiência anterior concedida a Gianazzi, Neder e Vinholi, Agopyan afirmara desconhecer a emenda orçamentária. Segundo os deputados, ou o reitor estava mentindo ao dizer que os recursos não eram adicionais ao orçamento da USP ou Vinholi fraudara o orçamento.

Neste momento, Vinholi, que entrara na reunião em meio às últimas intervenções, pediu a palavra e declarou que a verba era um acréscimo ao orçamento da universidade, tratando-se de recursos provenientes dos royalties do petróleo, que começaram a ser destinados às universidades paulistas neste ano. O relator do orçamento reiterou que os recursos foram frutos de “uma luta apartidária” pelo hospital, e que “mesmo o recurso do custeio poderia avançar neste projeto”.

Neste momento, o presidente da comissão, Orlando Bolçone (PSB), curiosamente, ao invés de conceder a palavra ao reitor, encaminhou os pedidos de manifestação da Adusp, DCE e Coletivo Butantã na Luta. Lighia Horodynski-Matsushigue, professora sênior do Instituto de Física e integrante dos GTs Educação e Saúde da Adusp, descreveu a importância do hospital para a região e foi complementada pela estudante Maria Luísa, diretora do DCE e do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz, da Faculdade de Medicina, que também questionou como a USP manteria sua excelência acadêmica sem investir no ensino prático.

Marcelo Aguirre, morador do Jardim Ester e membro do Coletivo Butantã na Luta, contestou a preocupação do reitor de só contratar funcionários caso haja garantia de recursos para os próximos anos, porque todo o orçamento da USP também precisa ser referendado anualmente pela Alesp.

Após estas falas finais, Bolçone passou a palavra ao reitor. Tergiversando, Agopyan proferiu platitudes como “é óbvio que a população tem que exigir mais”, “a USP não está se furtando com o HU” e “eu também sou usuário do HU”. Interpelado por deputados, estudantes e moradores, prometeu uma audiência com o movimento, mas sem confirmar uma data.

Aproveitando os gritos de alguns espectadores, Bolçone salvou o reitor: deu por encerrada a audiência antes de o reitor responder sobre a emenda. Rapidamente, Agopyan, que sempre esteve sentado a dois metros de uma saída do auditório, aproveitou o ensejo e saiu escoltado por seguranças e policiais militares.

Reitoria tratará de projetos acadêmicos em “reunião de dirigentes”

Antes de ser questionado pelos deputados, Vahan Agopyan teve a oportunidade de apresentar os planos de sua gestão, divididos em três eixos principais: “Relação com a sociedade”, “Excelência acadêmica” e “Valorização dos recursos humanos”.

Entre os planos apresentados pelo reitor no eixo “Relação com a sociedade” estão projetos já existentes, como os programas “USP Municípios”, que oferece consultoria a cidades do interior do Estado, e o “Vem pra USP”, que pretende incentivar o ingresso de estudantes de escolas públicas na universidade. Mais preocupante é o último ponto deste eixo, “transferência de conhecimento”, que o reitor explicou se tratar de incentivos para professores encontrarem “uma maneira mais rotineira e eficiente” de transferirem “conhecimento para a sociedade”, deixando no ar o que entende por “sociedade”, mas citando como exemplo as práticas da Agência USP de Inovação (Auspin), que estabelece parcerias com empresas.

Em relação ao eixo “Excelência acadêmica”, Agopyan disse que a Pró-Reitoria de Pesquisa tem o plano de atrair pós-doutorandos por meio de “estímulos”. Outras propostas são a consolidação do Inova USP e a criação de cursos de graduação interdisciplinares. Novamente, a proposta mais preocupante foi deixada por último: a consolidação dos “projetos acadêmicos institucionais”, a serem seguidos pelos departamentos e unidades de ensino. O reitor anunciou aos deputados que a criação dos projetos acadêmicos institucionais será a pauta principal da próxima “reunião de dirigentes” da universidade, um fórum paralelo, que não figura entre as instâncias formais da universidade existentes no Estatuto da USP, mas foi sistematicamente utilizado pelas gestões anteriores para controlar o Conselho Universitário.

Quanto à “valorização de recursos humanos”, Agopyan apresentou planos de criar um local de acolhimento de alunos, com orientação profissional e assistência à saúde mental dos estudantes, e também prometeu estímulos aos funcionários técnico-administrativos.

Por fim, Agopyan também citou medidas administrativas que a Reitaria está planejando. Uma das propostas é “criar uma auditoria interna” ligada à Reitoria, “para que os procedimentos administrativos da universidade funcionem de maneira mais regular”, sem deixar claro do que se trata. O reitor também quer criar mais três escritórios na universidade: de acolhimento estudantil, de relações institucionais e de “gestão de indicadores de desempenho acadêmico”, que teria o objetivo de ser um complemento ao Portal da Transparência da USP.

Questionamento sobre diárias de dirigentes

A questão das diárias recebidas por M.A. Zago na sua gestão e por outros dirigentes da USP e Unesp, revelada em reportagem publicada no Estadão em 27/3, também foi levantada pelo deputado José Américo na sabatina de Vahan. Ele pediu esclarecimentos ao reitor, citando o fato de que o atual vice-reitor, professor Antônio Carlos Hernandes, foi um dos que usufruíram da verba quando pró-reitor. “Isso desmoraliza a universidade e desmoraliza qualquer programa que você fala de contenção de despesas”, afirmou o deputado, sob aplausos.

Em resposta, Agopyan defendeu Hernandes, afirmando que “o professor mora e faz pesquisa em São Carlos” e que a “universidade não pode ser dirigida apenas por professores da capital”. Segundo o reitor, “os valores das diárias são bastante draconianos e são todos públicos no Portal da Transparência”. Agopyan também afirmou que está aberto a outras propostas, como o recebimento de auxílio-moradia. Entretanto, o deputado não se contentou com as respostas do reitor. “O sistema de diárias pode transformar a universidade na caixa-preta que é o Judiciário brasileiro”, criticou.