fotos: Marcos Santos/USP Imagens (2017)

Nos últimos anos, a política reitoral de congelamento de contratações de funcionários, associada às duas edições do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV), afetou duramente os trabalhadores dos restaurantes universitários da USP, os “bandejões”. Segundo o Sintusp, esta política é responsável pelo adoecimento de 70% dos servidores dos restaurantes, que estão submetidos a um trabalho exaustivo e em ritmo intenso para cumprir a crescente demanda com um reduzido contingente de pessoal.

Apesar da procura crescente, "Bandejão" central perdeu funcionários

Como é de se esperar, a política de desmonte dos serviços da USP abre caminho à precarização. Hoje, apenas dois dos oito restaurantes universitários não foram completamente terceirizados: o Restaurante Central e o da Física. Entretanto, apesar dos constantes pedidos por mais contratações via USP, neste ano o serviço de limpeza de louça no Restaurante Central foi terceirizado. O pregão foi realizado em 8/3 e os novos funcionários começaram a trabalhar em 27/3.

“Eles contrataram um número inferior de funcionários, comparado ao quadro anterior de efetivos. Um trabalho que era feito por 13 ou14 pessoas, eles colocaram seis, sete pessoas para fazer, recebendo um salário que é metade do valor de um efetivo”, explicou Marcello Santos, conhecido como Pablito, funcionário do “Bandejão” central e diretor do Sintusp. A redução do efetivo contrasta com o visível aumento da procura, justamente no primeiro ano de vigência das cotas étnico-sociais nos vestibulares da USP.

A medida suscitou protestos não só pelo rebaixamento salarial e pela diminuição de direitos dos trabalhadores, mas também pela imposição de um ambiente segregacionista dentro do “Bandejão” central. Com o consentimento da Superintendência de Assistência Social (SAS), os terceirizados da Sala de Louças do restaurante estão proibidos de se alimentarem dentro dos bandejões e de usarem os vestiários, direitos usufruídos pelos funcionários efetivos que trabalham no local.

Efetivos defendem condições dignas de trabalho para os terceirizados

“Os funcionários efetivos fizeram uma reunião e, por ideia deles mesmo, surgiu um abaixo assinado defendendo quatro reivindicações: condições dignas de trabalho para os terceirizados, que eles pudessem comer lá dentro, usar o vestiário e também utilizar o BUSP [cartão que permite a funcionários e estudantes utilizarem gratuitamente os ônibus circulares], para poderem circular dentro da universidade. Foi iniciativa dos efetivos, que ficaram bem constrangidos com a situação e fizeram questão de demonstrar que essa segregação não era a vontade deles”, afirmou Pablito.

“À SAS e à Reitoria foi relatada a situação, mas elas infelizmente mantiveram a postura de ignorar ou buscar justificar essa situação, inicialmente chegaram a dizer que era por causa do contrato, mas fomos atrás e eles mesmo tiveram que reconhecer que o contrato não proíbe isso [as refeições no interior do restaurante]. Em um primeiro momento a SAS disse que era responsabilidade da Reitoria, depois a Reitoria disse que não estava sabendo e a determinação não partiu dela”, descreveu. “A última informação da SAS foi que foi feita uma consulta à Procuradoria Geral [da USP], e a PG disse que não podia [atender às reivindicações]. Diante disso, pedimos a cópia da consulta, mas disseram que foi uma consulta verbal”.

Apesar de três atos já terem sido organizados contra a segregação, assim como um abaixo-assinado com mais de 1.500 assinaturas, nenhuma das reinvindicações dos trabalhadores do “Bandejão” foi atendida até o momento.

Contatado por e-mail e telefone pelo Informativo Adusp, o superintendente de Assistência Social, professor Fábio Guerrini, recusou-se a responder às perguntas que lhe foram encaminhadas sobre os motivos para a proibição do acesso dos terceirizados à alimentação e ao vestiário. Guerrini deixou de responder, ainda, se a proibição partiu da Reitoria ou da SAS.