Pressionada pelo aumento do número de casos de suicídio na universidade e pela organização de alunos em torno do tema, bem como pela repercussão na mídia comercial, a Reitoria da USP criou no segundo semestre de 2018 o Escritório de Saúde Mental (ESM) sem, contudo, ter formalizado a nova estrutura por meio de uma resolução ou portaria, ou oficializado o respectivo orçamento. A Reitoria não respondeu ao questionamento do Informativo Adusp quanto ao fato de o ESM permanecer na informalidade. Porém, informou que ele compõe o “Programa de Acolhimento e Bem-Estar do Estudante”, junto aos congêneres Escritório de Desenvolvimento de Carreiras (Ecar) e Escritório de Atividades Esportivas (EAE) e ao futuro Escritório de Artes, Cultura e Design.

Alocado provisoriamente no prédio da Superintendência de Assistência Social, o ESM já atende estudantes que necessitam de acolhimento psicológico. Tal atendimento é fornecido principalmente pelo coordenador do escritório, professor Andrés Eduardo Aguirre Antúnez, que também é vice-diretor do Instituto de Psicologia (IP).

Procurado pelo Informativo Adusp para esclarecer como o ESM pretende oferecer atendimento aos estudantes da universidade num momento de crise de financiamento e insuficiente quadro de funcionários, Antúnez limitou-se a dizer que “o Escritório de Saúde Mental já está fazendo acolhimento aos estudantes que procuram ajuda, bem como aos pais”.

Antúnez foi igualmente questionado sobre como será possível atender os estudantes eficazmente sem a participação de equipes multiprofissionais completas do Hospital Universitário, uma vez que o HU enfrenta uma crise orçamentária sem precedentes, graças ao descaso da Reitoria. Novamente o coordenador do ESM foi evasivo: “Se organizarmos uma equipe multiprofissional com os recursos humanos que temos e que estejam dispostos a enfrentar esses desafios, os estudantes serão beneficiados, pois [isso] permitirá uma compreensão da complexidade da problemática e da possível terapêutica em saúde aos estudantes universitários”.

“Processo não foi democrático e nem plural”, diz docente do IP

Todavia, na opinião da professora titular Maria Luisa Sandoval Schmidt, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do IP, a forma de criação do ESM esteve longe de ser a ideal. “A notícia da criação do escritório chegou à maioria de colegas do Instituto de Psicologia por meio de matérias publicadas em jornal e entrevistas do coordenador aos meios de comunicação. Foi, portanto, uma iniciativa gestada e concluída num âmbito muito restrito de pessoas ligadas à Reitoria e ao IP”, descreveu a professora.

“Há vários serviços e projetos que atendem estudantes em mais de uma unidade, há muitas iniciativas de coletivos de estudantes, assim como professores e professoras mobilizados e preocupados com as expressões contundentes de sofrimento que não foram convocados a pensar juntos maneiras de integrar e ampliar aquilo que já vem acontecendo como resposta a essas expressões. O processo não foi democrático e nem plural. Excluiu a participação mais ampla da comunidade, inclusive daqueles e daquelas que têm experiência acumulada na área”.

Ainda segundo a docente do IP, “a criação de um Escritório de Saúde Mental não responde às demandas da comunidade USP por programas e serviços de atendimento psicológico, mas a uma demanda talvez da mídia, que fez pressão sobre a Reitoria em relação aos recentes suicídios”. Ela avalia que atual gestão, assim como a anterior, executa uma “política de desarticulação e desinvestimento nos projetos e serviços de saúde” úteis à comunidade USP e à população do Butantã em geral. “Além disso, há uma crescente demanda, especialmente por parte de estudantes, por políticas de permanência e outras providências que melhorem a vida universitária, valorizando, sobretudo, a convivência acadêmica e universitária”.

“Saúde mental é campo de disputas epistemológicas, éticas e clínicas”

Maria Luísa também é crítica ao modelo de atendimento individual oferecido pelo ESM. “Atender individualmente estudantes que sofrem pode ser necessário, mas não responde adequadamente a questões que são de âmbito societário, coletivo e institucional. É importante também esclarecer que saúde mental é um campo de disputas epistemológicas, políticas, éticas e clínicas em torno das experiências de loucura e sofrimento psíquico. Não me parece interessante tomá-la como uma substância que pessoas, individualmente, têm ou não têm. Imaginando que quem não tem [saúde mental] precisa de tratamento e remédio como se se tratasse de um doente”.

No entender da professora, a criação do ESM não está desconectada do projeto reitoral de desmonte da universidade. “É interessante considerar que a crise na USP, assim como na educação e na saúde públicas em geral, não é apenas uma crise financeira mas um projeto. Está em jogo a privatização da universidade e, ao que tudo indica, a quebra do regime de dedicação integral e exclusiva de docentes às atividades integradas de ensino, extensão e pesquisa”.

A seu ver, o ESM já expressa uma forma de retirar sustentação financeira e acadêmica do tripé ensino, extensão e pesquisa. “A sustentação desse modelo talvez faça melhor bem à saúde da comunidade uspiana do que a tentativa, a meu ver equivocada, de tratar o sofrimento de estudantes como ‘distúrbios mentais’ que precisam ser tratados individualmente. Parece um tanto irresponsável, por outro lado, acenar com a possibilidade de realizar este tipo de atendimento individualizado de cunho clínico sem uma rede de referência composta por profissionais e instituições, capazes de acolher e responder à crescente demanda que o próprio viés das abordagens que individualizam e patologizam o sofrimento cria”.