Em resposta, Amorcrusp convoca criação de comitê antifascista e pede à Superintendência de Assistência Social da USP que investigue as pichações

Na madrugada de terça (16) para quarta, os apartamentos de final 1 do bloco A do Conjunto Residencial da USP (Crusp), na Cidade Universitária do Butantã, amanheceram com pichações de cunho xenofóbico, misógino e homofóbico dirigidos diretamente aos seus moradores.

Os moradores fotografaram as pichações e as apagaram, reportando o caso à Associação de Moradores (Amorcrusp). Na manhã seguinte (quarta 17), novamente cinco apartamentos de final 1 do bloco A estavam com pichações com a cruz suástica, símbolo do nazismo, na porta, e um deles com a inscrição “Volta p/ Bolívia”.

A Amorcrusp suspeita que o autor, autora ou autores seja(m) também morador(es), por conta das referências diretas aos moradores dos apartamentos que foram alvo das pichações, mas ainda não há nenhum dado concreto a respeito. A associação solicitou providências à Superintendência de Assistência Social (SAS, ex-Coseas), responsável pelas moradias.

Na próxima quarta (24) haverá reunião para a constituição de um Comitê Antifascista no Crusp. Moradores reclamam de estar completamente vulneráveis e de que há blocos sem porteiro à noite.

“Acordar com uma suástica — pintada na surdina e na calada da noite — na porta do teu vizinho certamente tem a ver com o momento em que o Brasil está passando e isso não é normal”, diz a Amorcrusp em nota oficial sobre o episódio, que reflete, no entendimento da associação, “uma onda apolítica, vazia, sem conversa ou debate, algo que paira no ar perigosamente, pois beira o nazi-fascismo e sua consequência é, como em qualquer reinvindicação de símbolos totalitários, a violência”.

Ainda segundo a nota, “Goebbels, ministro e um dos estrategistas de Adolf Hitler, dizia que ‘uma mentira contada cem vezes passa a ser uma verdade’. Modernamente, é o que vemos com as fake news espalhadas por WhatsApp e robôs seguidores, reencaminhando e dando audiência em grande escala às notícias falsas. Portanto, há uma ideia por trás do símbolo e um momento onde essa ideia se realiza”.

Prosseguindo, a Amorcrusp lembra que “distribuir ou veicular símbolos para fins de divulgação do nazismo é crime (Lei 7.716/89) que pode levar até cinco anos de reclusão e multa”. Assim, conclui, “é fundamental nos organizarmos para que esse tipo de retrocesso civilizacional — mediado por símbolos que enaltecem a discriminação e a violência — não torne a acontecer”

Caso está sendo apurado, diz Reitoria, que promete providências

A Assessoria de Imprensa da Reitoria informou que “o caso está sendo apurado para a identificação dos autores e serão adotadas as medidas cabíveis”. Informou também que no dia 15 de outubro (antes, portanto, do caso das pichações), o reitor Vahan Agopyan divulgou “mensagem à comunidade da USP” referindo-se a acontecimentos da semana anterior e defendendo que “a Universidade se consolidou como local privilegiado para o debate de ideias”:

“Os acontecimentos da semana passada, quando mensagens raivosas, preconceituosas, ofensivas e até com ameaças aos docentes, funcionários e alunos desta Instituição foram postadas em redes sociais, contrariam a natureza da Universidade e maculam o momento de eleições do qual a sociedade está participando”, diz a mensagem do reitor. “Esse tipo de comportamento não pode ser tolerado, muito menos admitido em um ambiente universitário. A Reitoria da USP tomará todas as medidas cabíveis para que essas atitudes não se repitam”.

Ele solicita à comunidade universitária, ainda, que “continue mantendo o ambiente saudável e rico dos debates eleitorais e não aceite provocações de grupos radicais, que, por não terem argumentos para discussões, apelam para a violência”. A íntegra do texto está disponível em https://jornal.usp.br/universidade/para-reitor-debate-eleitoral-deve-se-dar-em-ambiente-saudavel-sem-provocacoes/.