A conjuntura nacional eleitoral e pós-eleitoral finalmente chegou ao Conselho Universitário da USP (Co). Desde o início da gestão do reitor Vahan Agopyan, o Co reúne-se ordinariamente apenas uma vez por trimestre. Na reunião de 13/11, as ameaças à universidade pública e ao conhecimento científico foram repudiadas por diversos oradores, a maioria dos quais congratulou-se com o reitor pelas declarações que prestou ao jornal O Estado de S. Paulo, contra o projeto “Escola Sem Partido” e em defesa da gratuidade do ensino.

Ao final da reunião, o Co aprovou por 70 votos favoráveis, nenhum contrário e algumas abstenções uma moção apresentada pelo diretor da Faculdade de Direito, Floriano de Azevedo Marques, em defesa da autonomia universitária. Em pronunciamento no início da sessão, Marques rechaçou a “série de ameaças que rondam a nossa atividade”, entre as quais “ameaça e tentativas de esterilizar o conhecimento universitário”, “ameaça à autonomia da universidade, nas suas mais diferentes acepções”, e “ameaça da emergência de um certo agir pela violência, violência como instrumento de ação politica”.

O vice-diretor da FFLCH, Paulo Martins, solidarizou-se com o reitor por sua entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, apoiou também o diretor da FD, e externou preocupação com as ações policiais ocorridas nas últimas semanas contra mais de trinta universidades brasileiras — “ainda que o STF tenha respondido com rapidez, minha faculdade não pode se furtar de vir a público e registrar desconforto com essas ações”. Martins também expressou “desassossego” frente à existência de uma “pretensa lista de nomes indignos de confiança” do governo federal eleito, lista que ele classificou como “arremedo tupiniquim de um macartismo de segunda categoria, extemporâneo e anacrônico”.

Tal lista, argumentou, “deve ser alvo de muita atenção e principalmente de cautela e prudência, atinge-nos no cerne de nossa atividade”. Ele citou os nomes dos docentes da USP que fariam parte dela: Angela Alonso, Sérgio Lafer, Cícero Araújo, Eugenio Bucci, Floriano Marques, Jobson Arruda, Lilian Schwarcz, Maria Arminda, Maria Ermínia, Mary Lafer, Renato Giannini, Sérgio Adorno. Por fim, pediu ao Co que se solidarize com essas professoras e professores, sendo bastante aplaudido.

Da tribuna, diversos conselheiros cumprimentaram Vahan por suas declarações contra o movimento “Escola Sem Partido”. Em dado momento, após as intervenções dos professores André Singer e Paulo Inácio Prado, representantes das congregações da FFLCH e do IB respectivamente, o reitor agradeceu: “O que falei é o óbvio. O que fiz foi expressar, explicar que a universidade nasceu mil anos atrás para isso. Eu fiz a minha obrigação. Se todos nós fizermos isso nosso país será um pouco melhor”.

Adilson Brant Favarin, representante dos funcionários, avalia que a recente eleição “modifica a estrutura do regime brasileiro”. A seu ver, “a vitória de Jair Bolsonaro e de João Dória para o governo do Estado e suas declarações favoráveis à cobrança de mensalidade na universidade, ao cerceamento da liberdade de cátedra, com o projeto Escola Sem Partido”, bem como “a ameaça de intervenção direta na escolha dos reitores das universidades federais e no ENEM pelo presidente eleito”, colocam em xeque a autonomia universitária.

Na gestão Zago, lembrou, “sofremos punições, como corte de salário e processos administrativos, exatamente por lutar em defesa dessa universidade e da autonomia que tanto se apregoa”. Favarin fez ressalvas à entrevista de Vahan, questionando a afirmação deste de que pretende “evitar o radicalismo dos dois lados”. No seu entender, ao manifestar-se assim o reitor iguala os setores autoritários àqueles que, a exemplo de estudantes, funcionários e professores, defendem a universidade e os direitos dos trabalhadores.