Professor Américo Sakamoto (FMRP), ex-coordenador do projeto “USP do Futuro” confiado à consultoria internacional McKinsey, e Thiago Liporaci, ex-chefe de Gabinete da Reitoria, exercem agora os cargos de secretário-executivo e de chefe de Gabinete da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, respectivamente

Aos fatos:

1) No segundo semestre de 2015, a Reitoria dá início a tratativas sigilosas com a “organização social” Comunitas e a consultoria internacional McKinsey&Company, com a finalidade de elaboração de um projeto supostamente intitulado “USP do Futuro”.

SDE
Américo Sakamoto participa da inauguração de uma planta industrial, em 31/1/2019

2) A existência do projeto em curso só se torna pública em setembro de 2016, quando a Adusp divulga denúncia anônima das tratativas entre Reitoria e McKinsey. Um dos itens dessa denúncia, logo rechaçado com veemência pelo reitor Zago (e depois por seu sucessor Vahan), é de que o projeto envolvia estudos sobre cobrança de mensalidades.

3) Nos papéis que documentam a cooperação entre USP, Comunitas e McKinsey, a então diretora dessa consultoria, Patricia Ellen da Silva, figura como uma das coordenadoras do projeto e uma das signatárias dos instrumentos contratuais, na condição de representante da McKinsey. Outro coordenador, na condição de representante da USP, é o professor Américo Ceiki Sakamoto (FMRP).

4) Então prefeito do campus de Ribeirão Preto da USP, Sakamoto participa da reunião realizada em agosto de 2016 no Palácio dos Bandeirantes com o então governador Alckmin, o reitor M.A. Zago e o vice V. Agopyan, Patricia Ellen, outros dirigentes da McKinsey e representantes dos grupos empresariais que bancariam o projeto (Natura, Cosan, Itaú, Ultrapar). 

5) Em novembro de 2016 a Adusp ajuiza uma ação judicial contra a Reitoria, para obrigá-la a exibir a documentação completa do caso. Em janeiro de 2017, registra o Informativo Adusp, “o chefe de Gabinete do reitor, Thiago Liporaci, finalmente permitiu o acesso da Adusp a alguns outros documentos relacionados ao projeto ‘USP do Futuro’, mediante agendamento prévio e pagamento das cópias”.

6) Procurador da USP, Liporaci tornou-se chefe de Gabinete da Reitoria no decorrer da gestão M.A. Zago-V. Agopyan (2014-2017). No primeiro ano da gestão V. Agopyan-A. Hernandes (2018), continuaria lotado ali, no cargo de “coordenador executivo do Gabinete”.

7) O suposto relatório final do projeto, datado de outubro de 2016, só é divulgado em maio de 2018, no curso de uma ação judicial ajuizada pela Adusp contra a Reitoria, para obrigá-la a exibir a documentação completa do caso. O relatório não fala em cobrança de mensalidades, mas em “foco em unidades-chave”, expandir a oferta de cursos pagos e passar a cobrar pelos “dormitórios estudantis” (sic).

8) Há evidências de que foram implantadas sem alarde pela Reitoria da USP certas sugestões da McKinsey, tais como a desvinculação dos hospitais universitários (HRAC) e a adoção de um sistema de avaliação centralizada (“Nova CPA”).

9) Eleito governador de São Paulo em outubro de 2018, João Doria (PSDB) passa a montar rapidamente o seu secretariado, recrutando seus auxiliares majoritariamente no governo Temer e no empresariado paulista. Em dezembro, ele anuncia o nome de Patricia Ellen (que, segundo informa, já se desligara da McKinsey) para conduzir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SDECTI), uma “super-pasta” que ainda seria ampliada com a incorporação da Secretaria de Emprego e Relações de Trabalho, que Doria pretendia extinguir (e o fez).

10) No dia 6 de dezembro, portanto antes mesmo de assumir o cargo, Patricia Ellen declara, em entrevista à rádio CBN, que a discussão da cobrança de mensalidades nas universidades públicas consta da sua agenda de secretária estadual do Desenvolvimento Econômico. “Com relação à cobrança, é uma das pautas que está sendo discutida e tem que ser discutida envolvendo as universidades”, admitiu em resposta a uma pergunta do repórter. “Quem pode pagar, se puder pagar, para que mais pessoas que não possam pagar tenham acesso, é uma discussão importante de se ter. Eu sou a favor de as pessoas contribuírem da forma que elas podem”.

11) Patricia Ellen toma posse na Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE) em 2 de janeiro e nomeia seus auxiliares. Entre eles, Thiago Rodrigues Liporaci, para exercer o cargo de chefe de Gabinete da pasta, e Américo Ceiki Sakamoto, como secretário-executivo.

Agora, uma breve conclusão. Pode ter sido coincidência a nomeação de Liporaci e Sakamoto no governo Doria, para exercer importantes cargos na SDE. Porém, em face dos fatos acima itemizados, mais parece um novo capítulo de uma história permeada, desde a origem, por conflitos de interesse e expedientes sigilosos entre a Reitoria da USP, o governo estadual e setores do mercado — articulados pela nada insuspeita consultoria Mckinsey com a finalidade de potencializar a privatização da educação.

Em síntese: servidores que exerceram protagonismo na Reitoria em torno de projeto nebuloso, não licitado, repleto de irregularidades são oficialmente colocados em postos de destaque do executivo estadual, a convite de quem respondia pela contraparte privada daquele projeto.

O Informativo Adusp encaminhou à secretária Patrícia Ellen e aos seus auxiliares Liporaci e Sakamoto, por intermédio da Assessoria de Imprensa da SDE, algumas perguntas sobre o caso, para que pudessem exercer o direito ao contraditório. Até o momento não recebemos qualquer resposta.