LES, que responde pelas áreas de Economia, Administração e Sociologia, tem 461 alunos regulares na graduação e pós-graduação, contra 13.800 alunos matriculados em 12 cursos pagos de especialização (MBA). Projeto de separação é de 2013 e envolvia, na origem, a criação do Departamento de Ciências Humanas

Encontra-se em curso processo que prevê o desmembramento da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), unidade da USP sediada em Piracicaba, que viria a ser dividida em duas para atender ao projeto de membros do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (LES) de criar uma unidade cujo nome provisório é, coincidentemente, “Escola de Economia, Administração e Sociologia Luiz de Queiroz”.

A proposta de criação de uma nova unidade no campus da USP de Piracicaba foi aprovada na Congregação da Esalq já em 24/10/2013, na gestão do professor José Vicente Caixeta Filho (ele próprio docente do LES), mas somente foi retomada quase seis anos depois. Em 15/5/2019, o atual diretor, professor Durval Dourado Neto, nomeou uma comissão assessora, presidida por Caixeta Filho, com a finalidade de “consolidação da proposta de nova unidade”. Da atividade dessa comissão surgiu o documento intitulado “Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade no Campus da USP de Piracicaba”. Posteriormente esse grupo foi extinto e substituído por uma comissão assessora da Congregação, que tem o mesmo presidente e composição quase idêntica à da anterior.

Nos termos da “Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade”, a justificativa para a divisão da Esalq reside quase exclusivamente na expansão do Departamento de Economia, Administração e Sociologia: “Verifica-se, através dos fatos apresentados em ordem cronológica, que o LES vem, há muito tempo, numa trajetória de crescimento vertical e horizontal, o que torna legítima a proposta deste Departamento em constituir-se em nova unidade da USP que continuará a atuar nas subáreas de conhecimento Economia, Administração, Sociologia e Educação, como já vem fazendo como um Departamento da Esalq” (p. 2).

Ainda segundo o documento, no corrente ano o LES “está oferecendo 126 disciplinas de graduação e 36 de pós-graduação stricto sensu, sendo responsável por 40% das disciplinas obrigatórias oferecidas para os sete cursos de graduação da Esalq, destacando-se o oferecimento da totalidade das disciplinas obrigatórias ministradas para o curso de graduação em Administração, 96% das disciplinas obrigatórias do curso de bacharelado em Ciências Econômicas e 100% das disciplinas obrigatórias dos cursos de Licenciatura em Ciências Agrárias e de Licenciatura em Ciências Biológicas” (p. 2).

Os dois primeiros cursos oferecem 40 vagas anuais, “havendo, em maio de 2019, 191 alunos matriculados em Ciências Econômicas e 183 em Administração”, bem como “82 alunos matriculados no curso de mestrado e doutorado em Economia Aplicada e 5 no curso de Mestrado em Administração”. Portanto, 374 alunos regulares de graduação e 87 de pós-graduação, com um total de 461. Acrescenta o documento: “A esse público se somam quase 14 mil estudantes de MBA em cursos oferecidos pelo LES devidamente cadastrados e autorizados pelos órgãos competentes da USP” (p. 2).

Documento sinaliza perspectiva de arrecadar mais com cursos pagos

São reiteradas, na “Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade”, as referências aos cursos remunerados do tipo master of business administration (MBA) oferecidos pelo LES, em especial que em maio de 2019 “havia em andamento 56 turmas de MBA com um total de 13.884 alunos matriculados, muitos dos quais estrangeiros” (p. 2), e que os docentes do departamento “captaram recursos extraorçamentários de R$ 42 milhões em 2017, o equivalente a cerca de metade do total arrecadado na Esalq” (p. 6). Assim, a criação da nova unidade parece vincular-se fortemente à perspectiva de ampliar a indústria de cursos pagos existente hoje no LES.

Essa dimensão volta a ser explicitada no item 3, “Estrutura Organizacional”, ao vincular-se à apresentação de novas justificativas para o desmembramento: “A criação da nova unidade permitirá melhor gerenciamento das atividades acadêmicas e científicas nas áreas de economia, administração, sociologia e licenciatura dentro do Campus Luiz de Queiroz, permitindo a essas áreas (que hoje englobam quatro cursos de graduação, dois cursos de pós-graduação stricto sensu e doze cursos de MBA) melhor planejamento e orientação em seu crescimento. Adiciona-se o fato de que uma nova unidade em nosso Campus favorecerá a maior captação de recursos extraorçamentários e a melhor utilização dos recursos do Tesouro diante das limitações impostas pela Lei 8.666” (p. 8 e 9).

Nesse sentido, é notável que o documento inclua já no item 1, “Breve trajetória do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq”, a seguinte passagem: “Desde 1976, a Fealq (Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz), criada por docentes do LES, vem proporcionando forte estímulo à pesquisa, extensão e formação de recursos humanos aos departamentos da Esalq” (p. 1). Desse modo, a criação de uma fundação privada dita “de apoio”, voltada essencialmente à formulação de projetos de captação de recursos com finalidades de apropriação privada, é apresentada como um fato relevante de natureza acadêmica, dando a entender, adicionalmente, que o sucesso da Esalq está relacionado à atuação desse ente privado (Fealq).

Por outro lado, o documento não fornece garantias expressas de que a criação da nova unidade contemple adequadamente a oferta de disciplinas para os alunos dos cursos regulares da Esalq. Fala-se vagamente em “compromissos” assumidos pelo corpo docente da possível nova unidade: “compromisso do LES em manter a área de concentração em Economia e Administração”, ou “os docentes do LES se comprometem, quando da criação da nova unidade, a buscar meios para atender a demandas futuras legítimas [sic] que surjam nos cursos da Esalq” (p. 3).

Embora o professor Caixeta Filho declare que o documento “Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade” esteja superado, porque “não existe mais” (veja adiante), o fato é que ele resultou do trabalho de uma comissão nomeada pela direção da unidade, supondo-se que expresse a visão majoritária do grupo e do próprio LES. Dadas as inconsistências do documento, ele vem sendo alvo de críticas dos docentes da Esalq ligados à área de ciências humanas, porque a consideram totalmente preterida no projeto de divisão, a julgar pelo “estado da arte” que é, por enquanto, a “Proposta Consolidada”.

É questionável, por exemplo, que o número de alunos de cursos MBA possa ser computado como medida da expansão de atividades experimentada por um departamento da USP. O fato é que o LES tem 461 alunos regulares. A título de comparação, em 2015 (dados mais recentes disponíveis) o Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) possuía 935 alunos; o de Geografia, 1.227; e o de História 1.552.

Departamento de Ciências Humanas não foi descartado, diz Caixeta Filho

O professor Caixeta Filho, presidente da comissão assessora da Congregação da Esalq incumbida de preparar o projeto de criação de uma nova unidade, assegura que “nem a Esalq, nem a comissão desistiram de criar o Departamento de Ciências Humanas”.

Em conversação telefônica com a reportagem do Informativo Adusp, Caixeta Filho confirmou que a Congregação aprovou, já em 2013, o projeto de criação da unidade de Economia e Administração e do Departamento de Ciências Humanas. Posteriormente, a Reitoria devolveu o processo do departamento, não se opondo à criação da nova unidade, cujo obstáculo à época teria sido unicamente a difícil situação financeira da universidade.

Ainda segundo o presidente da comissão assessora da Congregação, a chamada “Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade no Campus da USP em Piracicaba” é um documento “que existiu anteriormente, mas não existe mais”.

De acordo com Caixeta Filho, a comissão assessora da Congregação está encarregada de “reconstruir” a proposta de criação da nova unidade (“e eventualmente também do Departamento de Ciências Humanas, considerando inclusive a incorporação dos docentes interessados à nova unidade, docentes esses que originalmente teriam aderido à proposta de criação desse novo departamento”), por meio da discussão nos diferentes colegiados da própria Esalq, dos quais espera receber subsídios. “Em sendo o caso, se se achar que vale a pena criar, vamos levar a proposta novamente para a Congregação”. Ele acredita que esse processo de debate deverá consumir todo o primeiro semestre de 2020.

Perguntas encaminhadas ao diretor da Esalq não foram respondidas

O Informativo Adusp encaminhou ao professor Durval Dourado Neto, diretor da Esalq, cinco perguntas sobre o projeto em curso. Em resposta, o diretor remeteu cópia de ofício enviado por ele em 6/9/2010 aos membros da comissão assessora da Congregação da Esalq. Embora se depreenda, da leitura desse documento, que a chamada “Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade no Campus da USP em Piracicaba” ainda será debatida nos colegiados da unidade e atualizada pela comissão assessora da Congregação, o diretor deixou de responder às questões que lhe foram encaminhadas.

Não explicitou, por exemplo, sua avaliação a respeito do projeto, nem qual é a garantia de que os alunos dos cursos da Esalq não serão prejudicados pela transformação do LES em unidade, tendo em vista as inconsistências da “Proposta Consolidada” nesse aspecto.

Deixou de responder ainda — frente às diversas referências da “Proposta Consolidada” aos cursos pagos oferecidos no LES, como a existência de “56 turmas de MBA com um total de 13.884 alunos matriculados” e a captação de “recursos extraorçamentários de R$ 42 milhões em 2017” — à seguinte indagação: “A criação da nova unidade vincula-se à perspectiva de ampliar essa indústria de cursos pagos?”.

Não sou contra a divisão da Esalq. Mas esse projeto é neoliberal”

O professor titular Antonio Ribeiro de Almeida Jr., também lotado no LES, explica ao Informativo Adusp que não se opõe, em princípio, à ideia de criação de novas unidades, ao contrário de um setor tradicionalista da Esalq que se coloca contra qualquer mudança: “Não sou contra a divisão. É razoável, a Esalq é muito tímida frente ao tamanho que a cidade tem hoje: 400 mil habitantes. Piracicaba está passando por uma transformação muito grande. Nesse sentido, a divisão da Esalq pode ajudar no desenvolvimento da cidade”.

No entanto, esclarece o docente, a proposta atual, de criação da “Escola de Economia, Administração e Sociologia Luiz de Queiroz”, não contempla esse tipo de preocupação social. “O projeto é muito mercantil, muito neoliberal. Como se pode solicitar novos docentes se você tem 13.000 alunos de MBA? É uma distorção completa”, questiona. Porém, sua objeção principal ao projeto está relacionada ao tratamento negativo conferido à área de ciências humanas da Esalq.

“Em outros campi a área de ciências humanas quase nunca fica junto à de economia”, diz Almeida, que é sociólogo. “Por exemplo: FEA e FFLCH estão separadas. Esse é o desenho normal das coisas, porque ciências humanas e economia têm essas divergências. Os economistas tendem a ter essa visão neoliberal, enquanto nas ciências humanas é diferente”. No LES, a convivência entre economistas e sociólogos têm sido difícil, segundo Almeida, porque os primeiros controlam amplamente o departamento.

“Já não é fácil o que acontece no departamento, onde há um histórico de perseguições. O departamento é hegemonicamente do pessoal da economia, eles não têm um interesse muito nítido na área de ciências humanas. E essa subordinação da área de ciências humanas à economia, que já não tem sentido dentro do departamento, será ainda pior dentro de uma congregação”, adverte o docente, cogitando da hipótese de conversão do LES em nova unidade. “Não quero que os economistas tenham mais poder, numa congregação”.

A USP não pode criar uma nova unidade desse jeito, com atropelo”

Almeida destaca a importância acadêmica e social da área de ciências humanas: “O Brasil tem a maior concentração de terras do mundo, vive um desenvolvimento conservador desde a Ditadura Militar. Tem uma série de coisas que as ciências humanas precisam fazer”. Mas essas preocupações são ignoradas no projeto em causa, observa: “Quantas vezes mencionam as questões relativas às ciências humanas? Só para cumprir formalidades burocráticas é que a gente aparece no projeto deles. A USP não pode criar uma nova unidade desse jeito, com esse atropelo. Tem que ter maior responsabilidade, porque assim as coisas já nascem tortas”.

Ele enfatiza que os interessados no projeto não se dispuseram a discutir com os docentes da área de ciências humanas o formato da nova unidade: “Não fazem negociação nenhuma, em momento algum nos chamaram para participar da formulação do projeto. Até disseram em certo momento: ‘Escreve aí uma parte’, uma coisa pró-forma. Incluíram sociologia no título da nova unidade só para ver se isso nos captura. Queremos ter um departamento nosso, para ter um mínimo de autonomia”.

Almeida detalha, a pedido do Informativo Adusp, seu entendimento de que o projeto de criação da “Escola de Economia, Administração e Sociologia Luiz de Queiroz” tem inspiração neoliberal: “Seus autores têm uma visão da universidade como um local para cursos pagos como os MBA, para captar recursos. Eles têm um acordo muito grande com a Bolsa de Mercadorias e Futuros, BMF. É uma visão completamente distorcida de mundo, que não tem o necessário cuidado com a sociedade, com a população, com os compromissos públicos da universidade”.

A seu ver, o projeto neoliberal compromete as condições de vida da população, promove concentração de riqueza. “Estamos vendo a situação do Chile, que era alardeado como modelo, como um grande sucesso. O projeto da nova unidade está mais ou menos nessa linha. Não gostam que use o termo ‘neoliberal’. Quando fiz o concurso de professor titular, uma pessoa da banca reclamou porque usei. Não querem esse termo associado a eles, porque sabem que foi muito criticado”.

Projeto de separação negligencia as ciências humanas, diz diretor da Adusp

“Para tratar da proposta de criação de uma nova unidade no campus Luiz de Queiroz, é pertinente retomar o debate que ocorreu no final da gestão de José Vicente Caixeta Filho na diretoria da Esalq. Neste período no ano de 2012, este diretor defendia a ideia de uma ‘nova geografia do campus Luiz de Queiroz’, veiculando a perspectiva de multiplicar as unidades da USP em Piracicaba, que passariam de duas (CENA e Esalq) para sete”, explica o professor associado Paulo Moruzzi Marques, também lotado no LES e diretor regional da Adusp.

“Entre as novas unidades, foi concebida a criação daquela de ‘Ciências Econômicas e Administração’, com cursos de graduação nestas duas áreas do conhecimento e com um programa de pós-graduação em economia aplicada. Desta forma, o Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq seria fragmentado, pois seria criado na unidade de ciências agrárias (aquela que substituiria a Esalq) o departamento de ciências humanas”, continua ele. “Com o fim do mandato de Caixeta, que coincidiu com o término da gestão do reitor Rodas, o projeto de ‘nova geografia do campus’ é abandonado, vistas as novas orientações da Reitoria sob o comando de Zago”.

Entretanto, no primeiro semestre de 2019, o projeto de criação da unidade de ciências econômicas e administrativas volta à agenda política da USP, ao mesmo tempo em que era arquivada a proposta de instalação de um departamento de ciências humanas em Piracicaba. “Portanto, há um evidente vácuo no que se refere à área de ciências humanas (incluindo aqui sociologia, antropologia, história, psicologia e pedagogia) na configuração institucional em perspectiva”, adverte o professor Marques. “Esta ausência de lugar no campus Luiz de Queiroz para a referida área não foi efetivamente considerada em fóruns de debates sobre a nova unidade”.

De fato, o interesse em aprovar rapidamente tal projeto levou a uma ação acelerada e centralizada. “Assim, ocorre a clara marginalização das ciências humanas: mesmo que, em momento posterior, a proposta de unidade passe a incluir em seu nome ‘sociologia’ (‘Escola de Economia, Administração e Sociologia Luiz de Queiroz’), não houve uma profunda discussão sobre esta inserção das ciências humanas no projeto, considerando suas especificidades, suas orientações e suas prioridades”, assinala o diretor regional da Adusp.

“Deste modo, as atividades de extensão, de graduação, de pesquisa e de pós-graduação — linha de Ambiente e Sociedade do Programa Interunidades de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada-PPGI-EA — em torno das ciências humanas são muito negligenciadas no projeto de instituição desta nova unidade. Nesta medida, fervilha um enorme descontentamento dos docentes e funcionários ligados à área de ciências humanas diante da possibilidade desta mudança institucional”.