A equipe do Serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena, que integra o Centro Escola do Instituto de Psicologia (IP-USP), emitiu nota intitulada “Carta de repúdio à violência sofrida por professores do curso de Língua e Cultura Guarani”, que denuncia episódio ocorrido em 1o /11 com um grupo de professores indígenas que se dirigiam à Cidade Universitária do Butantã quando foram objeto de abordagem violenta e despropositada de integrantes de uma viatura da Polícia Militar.

De acordo com a nota, o carro que conduzia os jovens professores indígenas foi seguido por uma viatura da Tropa de Choque e depois interceptado sem motivo aparente. “Os policiais separaram os professores indígenas do motorista não-indígena e abordaram os jovens de maneira violenta com armas de fogo e frases desrespeitosas como ‘indigentes’ e ‘vendedores de drogas na USP’”, assinala a equipe da Rede de Atenção à Pessoa Indígena, segundo a qual a ação policial foi motivada por preconceito racial. A seguir a íntegra da nota.

Pessoas indígenas estão sendo alvo de desprezo e abusos autoritários”

“No segundo semestre de 2019, professores indígenas estão oferecendo um curso de língua e cultura Guarani, atendendo uma demanda da comunidade acadêmica da USP e de pessoas da comunidade externa à Universidade, numa parceria com o serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena do IP-USP. Como de praxe, na última quinta-feira, 1o de novembro de 2019, um grupo de professores indígenas veio de Uber para a Universidade de São Paulo, com a finalidade de ministrar as aulas semanais”.

“Para nossa surpresa, os professores relataram que foram seguidos por um carro da Tropa de Choque, tiveram seu carro interceptado no caminho sem um motivo evidente. Os policiais separaram os professores indígenas do motorista não-indígena e abordaram os jovens de maneira violenta com armas de fogo e frases desrespeitosas como ‘indigentes’ e ‘vendedores de drogas na USP’. Mesmo liberados após a abordagem o grupo de professores Guarani foi escoltado pela PM até chegar à USP”.

“Queremos destacar a seriedade e o absurdo da situação. Ela evidencia a persistência de preconceitos, descabidos em nossa sociedade, envolvendo a cor da pele, aparência física, local de origem, cultura, ancestralidade, modo de vida ou qualquer outra razão. Pessoas indígenas estão sendo alvo de desprezo e abusos autoritários”.

“Diante desse fato, nós, membros da Rede de Atenção à Pessoa Indígena do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, expressamos, nesta carta, o nosso repúdio à violência e preconceito racista em relação aos indígenas e a nosso grupo de professores, situação que atinge às comunidades indígenas e universitárias”.

“Como membros desta Rede, professores, pesquisadores, bolsistas e estudantes de diferentes cursos, nos opomos a qualquer tipo de violência, física ou simbólica, em relação a qualquer grupo de pessoas, especialmente, neste caso, tratando-se de pessoas indígenas. Entendemos que a situação aqui reportada é um exemplo de situações que indígenas no Brasil, infelizmente, precisam enfrentar e resistir diariamente”.

“Esperamos que a sociedade brasileira e paulistana se conscientize da seriedade da realidade que pessoas pertencentes aos povos originários de nosso país têm de suportar dia após dia. Mais uma vez, expressamos nosso repúdio e declaramos nosso apoio àqueles que são alvos de violência e abusos por parte de qualquer pessoa que esteja ocupando alguma posição de autoridade.

São Paulo, 7 de novembro de 2019”.