Por intermédio da Agência USP de Inovação (Auspin), a USP decidiu participar da “Semana Global de Empreendedorismo” (SGE), uma iniciativa de cunho privado que é descrita nos press-releases da universidade como “um movimento mundial iniciado em 2007 com o objetivo de fortalecer e disseminar a cultura empreendedora, conectando, capacitando e inspirando pessoas”. Assim, a Auspin “integra o evento com diversas atividades no campus da capital, no Butantã”, nos dias 18 a 21/11. A participação, como se verá, se dá de maneira totalmente acrítica, para não dizer antiacadêmica.

Rodada de investidores, painel com empresas da área de saúde e palestra sobre como transformar um trabalho de conclusão de curso em uma startup são parte da programação do evento, que é gratuito e aberto a qualquer interessado”, é como o Jornal da USP apresenta candidamente o evento (os grifos são nossos). Dentro, aliás, de uma perspectiva um tanto exagerada: “USP é parte de movimento global voltado ao empreendedorismo”, diz o título da matéria.

A palestra citada, a cargo do professor Marcos Ribeiro Pereira Barretto, da Escola Politécnica, tem exatamente o título “Transforme seu TCC em uma Startup”, que provoca de imediato a seguinte reflexão: será mesmo recomendável, do ponto de vista científico, “transformar” um trabalho de conclusão de curso num empreendimento de mercado? Quais serão as implicações práticas, acadêmicas e éticas de uma recomendação desse tipo aos estudantes que estão concluindo a sua graduação? Eles serão prevenidos, por exemplo, de que 70% das startups criadas têm vida efêmera?

Ao longo do evento, uma única palestra, a do gerente de Inovação de uma empresa pertencente a um grande grupo da área farmacêutica, trata explicitamente de inovação (“Colaborar para Inovar e Empreender”), que é, ou deveria ser, a razão da existência da Auspin. Quando promove iniciativas como uma “rodada de investidores” ou uma “rodada de startups”, essa agência apenas atesta o que o Informativo Adusp já constatou e noticiou: “inovação” e “empreendedorismo” são irmãos gêmeos dentro da narrativa do inovacionismo, sendo que a primeira é mero chamariz do segundo.