Em palestra na FDRP, Márcia Barbosa apresentou pesquisas que evidenciam a grande desvantagem das docentes em relação aos colegas homens em vários quesitos, e comprovam a existência de discriminação de gênero

“Como eu adoro ciência, eu vou falar para vocês sobre a mulher na universidade usando o que ciência mais sabe usar, que são evidências. Então vamos discutir esse tema utilizando evidências”. Assim a professora Márcia Cristina Bernardes Barbosa, do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), deu início à sua apresentação no dia 19/11 na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP), como parte do ciclo de debates organizado pela Adusp Regional.

Márcia exibiu e comentou um expressivo número de pesquisas que deixam claro que as mulheres estão em clara desvantagem na ciência e nas universidades. O roteiro preparado por ela (confira aqui os slides) incluiu a apresentação do problema (a discriminação de gênero), “por que me importo com o problema”, uma análise dos mitos existentes a respeito nas diferentes áreas de pesquisa, e o que fazer — “a gente sempre faz alguma coisa em ciência” — contra o preconceito, o machismo e a desigualdade resultante.

Ela apresentou algumas fotografias, a primeira das quais registra da primeira posse de reitor na Universidade de São Paulo (USP), em 1934. “Essa foto diz muita coisa: ela mostra homens, brancos, velhos, em sua maioria vestidos de preto. Isso tudo tem uma mensagem. Brancos, porque tem uma maioria branca; velhos, porque tu chegas no poder velho; homens porque era uma coisa muito machista; e preto porque as pessoas se vestem de preto quando querem mostrar que só o que importa é a cabeça delas”.

Em seguida, a professora exibiu outra fotografia, desta vez da última posse de reitor na USP, em 2018: “Avançamos. Nós temos já aí uma mulher, e muito interessantemente ela não está de preto. Quase que para dizer: ‘Estou aqui e sou única’. Tem uma mensagem, não é por acaso. Então houve um avanço, mas muito pequeno”. A partir desse primeiro “teste visual”, como chamou, Márcia referiu-se a uma área das ciências exatas onde o avanço feminino foi “minúsculo”, ao comparar fotos que registram duas edições da Conferência de Física de Solvay (Bélgica): a de 1927 e a de 2011.

Na primeira imagem aparece uma única mulher, a célebre cientista Marie-Curie, “a única pessoa que ganhou dois Nobel”. De novo, observou Márcia, referindo-se aos homens amplamente majoritários na foto, “são pessoas brancas, são pessoas mais velhas, são pessoas que se vestem de preto”. A Conferência de Solvay é muito especial, explicou a professora da UFRGS, porque só participam convidados. Ao mostrar a foto da edição de 2011, constata-se que só aparecem nela duas mulheres, apesar de haver transcorrido quase um século desde a edição de 1927, tomada em comparação.

“Vocês vêem que, num certo sentido, a área de Física está pior do que a universidade em geral, porque a gente não consegue avançar”, disse. “Na área de ciência em geral, se jogarmos todas as ciências juntas, as mulheres seguem na igualdade até o mestrado. Quando chega o doutorado elas dão uma caída, e quando chega na vida acadêmica elas são em torno de 30% no mundo. E isso é sério”. Na área de Física é ainda pior: o número de professoras universitárias cai para 12%. “É muito pouco. Nós temos um problema aí”, destacou.

Mulheres são ampla maioria entre concluintes dos cursos de graduação

A partir daí Márcia apresentou diferentes estatísticas. O Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) realizado em 2015 revela que as mulheres constituem ampla maioria entre os concluintes do conjunto dos cursos de graduação: 60%. No entanto, nos cursos relacionados à ciência esse índice cai para 41%, e nos cursos de engenharia a presença feminina é ainda menor: 29,3%.

“As mulheres e homens escolhem cursos muito distintos. O curso campeão das mulheres é Pedagogia, enquanto o campeão dos homens é Direito. As mulheres vão optar por cursos mais da área de cuidado e da Educação. Ou seja: apesar de a gente estar dentro da universidade, não está em todo lugar dentro da universidade. Estamos onde nos deixaram entrar”.

Também na composição do corpo docente das universidades a presença das mulheres é minoritária, o que é contraditório com a avassaladora participação feminina na graduação. O Censo de Educação Superior do INEP revela que entre 2006 e 2012 o segmento feminino da categoria docente superior permaneceu estagnado na faixa de 44% a 45%. Na USP, as mulheres são apenas 18% entre os professores titulares (topo da carreira), e exercem apenas cerca de 25% dos cargos de chefia, índices que a professora qualifica como “desastre” e um resultado do “efeito tesoura”.

Para justificar a importância de se superar a situação de desigualdade que afeta as mulheres no ensino superior e nas ciências, ela comentou o quadro “População com Educação Superior, por faixa etária”, que compara a situação de diferentes países nesse quesito, com base em dados de 2016 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nele o Brasil está em situação inferior à da Colômbia, Chile e México, além de países da União Europeia como França, Itália, Espanha e Portugal e seus parceiros do BRICS Rússia e China. É preciso graduar mais gente, sustenta ela. “A gente precisa sim ampliar o ensino universitário. Temos que atrair mais gente, ampliando a universidade”.

Márcia procurou refutar mitos como “não existe preconceito”, “mulheres não têm ambição”, “é uma questão de tempo” (a ascensão das professoras e pesquisadoras na carreira). Mostrou uma série histórica que atesta que entre 2001 e 2015 os pesquisadores homens foram invariavelmente aquinhoados com número muito maior de bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Embora a participação das mulheres tenha crescido ligeiramente desde 2008, os homens ainda são contemplados com mais de 65% das bolsas do CNPq.

Ela demonstrou, com base num estudo, que não raramente as professoras universitárias são levadas a perder a ambição “por comentários cretinos de colegas, comentários desestimulantes dos colegas, falta de apoio institucional”. Mesmo quando a docente quer competir por uma bolsa, ouve comentários do tipo “não é para ti, é muito cedo, não é adequado para ti”, descreveu. “Quantidade de vezes que tu dá uma ideia numa reunião e te interrompem, não dão bola, te ignoram, para depois copiar a ideia. Essas coisinhas, que eu chamo ‘mordidinhas de mosquito’, vão contaminando a tua carreira”.

A professora da UFRGS elencou as seguintes modalidades de assédio: gaslighting, bropriating, mansplaining e manterrupting. O gaslighting é um exercício de manipulação psicológica, por meio da qual o homem leva a mulher “a pensar que é doida ou incapaz”. No bropriating, o homem se apropria de uma ideia apresentada por uma mulher, e leva o crédito correspondente. O mansplaining é a prática de explicar o óbvio a uma mulher, “como se ela fosse incapaz de compreender sozinha”. Já o manterrupting é a interrupção constante da fala de uma mulher por homens ao redor dela.