Em reunião com centro acadêmico da ECA, prefeito do campus cita festas e morte de médico em 2015 para justificar cercamento. Portão da unidade já está sendo fechado a partir das 20 horas

O valor desembolsado pela Reitoria da USP para mandar construir uma grade em torno da sede do Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp) não condiz com a política de contenção de despesas alardeada pela gestão M.A. Zago-V. Agopyan: R$ 631.103,27 (seiscentos e trinta e um mil, cento e três reais e vinte e sete centavos).
 

A grade envolve o perímetro que compreende o prédio da Reitoria, a "Prainha" (praça que se tornou espaço de convivência dos estudantes da Escola de Comunicações e Artes-ECA) e o prédio onde estão situados, há décadas, o Centro Acadêmico Lupe Cotrim (CALC), a Associação Atlética (ECAtlética) e a sede do Sintusp.
 
O valor consta do contrato firmado entre a USP e a empresa Senca Serviços e Engenharia Ltda, por intermédio da Superintendência de Espaço Físico (SEF). Quem assina o documento em nome da SEF é seu superintendente, Osvaldo Shigueru Nakao, que também acumula o cargo de prefeito da Cidade Universitária. A instalação da grade se iniciou em dezembro último, por ordem da Reitoria.
 
De acordo com levantamento do CALC, os recursos consumidos pela obra permitiriam, num período de 12 meses, as seguintes alternativas: conceder bolsa (ou auxílio-moradia) de R$ 400 para 131 estudantes; conceder auxílio-livro de R$ 150 para 350 estudantes; conceder 262 bolsas-transporte, no valor de R$ 200; ou ainda, "sustentar 190 alunos na creche". Cada uma dessas alternativas custaria entre R$ 628,8 mil e R$ 630 mil.
 
Reunião com Nakao
 
Em reunião no dia 10/2/17 com representantes do CALC e ECAtlética, além da diretora da ECA Margarida Krohling Kunsch e do vice-diretor (e diretor eleito) Eduardo Henrique Soares Monteiro, Nakao justificou a instalação das grades como uma resposta às festas que ocorrem na "Prainha". Ele citou o caso de agressão ocorrido no local em 4/12/15, que resultou na morte do médico Benício Leão Filho. Além disso, o superintendente manifestou a intenção de controlar e restringir o acesso à ECA, após determinado horário.
 
Perguntado pelos representantes do CALC sobre a forma como se daria tal controle e a partir de qual horário, bem como a data de término da instalação das grades, Nakao respondeu que tais questões ainda não haviam sido definidas, mas que se tratava de "obrigações dele enquanto 'gestor público'".
 
No encontro foram discutidas as dificuldades de acesso às dependências da ECA, causadas pela grade. Os estudantes condenaram a forma como ela foi instalada, "sem diálogo com a comunidade ecana", pois a grade "ocupa terreno da ECA". Enfatizaram que a Congregação não discutiu o assunto.
 
Também demonstraram preocupação em relação à segurança no entorno. O espaço é mal iluminado, colocando em risco a segurança dos pedestres que por ali transitam.
 
O único resultado da reunião foi a constituição de uma comissão paritária no âmbito da ECA, com participação da diretoria, do centro acadêmico e da atlética, além de docentes. A comissão ficaria responsável por elaborar e enviar à SEF propostas de formas de acesso às dependências da ECA. No entanto, a comissão será apenas consultiva.
 
Portão fechado
 
Porém, às 20 horas do dia 14/2, o portão de pedestres da ECA foi fechado e o acesso proibido a qualquer pessoa a partir deste horário. No mesmo dia, às 17 horas, o Sintusp recebeu ordem de retirada de todos os carros que permaneciam no entorno de sua sede. No dia 16/2, carros conduzidos por diretores do Sintusp foram barrados por guardas universitários no portão da grade e impedidos de entrar na "Prainha".
 
Tais atitudes descumprem acordo firmado entre Reitoria e Sintusp, em audiência realizada no Ministério Público do Trabalho em 26/1. Na ocasião, a Reitoria comprometeu-se a liberar o acesso ao Sindicato de 3 automóveis e 1 motocicleta, bem como a cumprir o Estatuto das Pessoas com Deficiência e o Estatuto do Idoso. O Sintusp emitiu nota denunciando que a Reitoria rompeu o acordo.