a Polícia Militar bateu e chutou uma professora que exercia seu direito de manifestação [...] indignação em relação ao fato de a professora de nossa creche, mulher e negra, ter sido vítima da violência que produzimos aqui, nesta universidade

 

“Caros colegas. Agradeço a palavra, é o primeiro dia que participo deste Conselho. Gostaria de apresentar uma contradição.

Faço parte da comissão acadêmica do programa Aproximação, do Núcleo de Direitos desta Pró-Reitoria. A proposta é gerar aproximações, criar vizinhanças para enfrentar o seguinte problema: crianças e jovens que circulam pela USP, que vivem pelos nossos arredores e nos mostram que, em suas vidas, não estão garantidos o direito à educação, saúde, moradia digna e lazer.

Um desses jovens morreu afogado na raia olímpica em 1997 e isso deflagrou a necessidade de ações conjuntas. Temos, aqui na USP, muitas unidades que discutem essa problemática: as vidas negligenciadas pelo Estado do qual fazemos parte. Discutimos a produção do fracasso escolar, a produção de adoecimentos, a produção da exclusão social, a produção do preconceito em relação aos idosos embasando-se em conceitos formulados por professoras e professores desta universidade.

Esses meninos e meninas não podem apenas ser retirados à força, como se não tivéssemos relação com isso. Não podem, mais uma vez em suas vidas, ser tratados de forma autoritária, como a Polícia trata os jovens pobres e negros. Também não podemos tratá-los como se fosse natural virem ao campus e ficarem andando por aí, pois isso seria negligência. Em que escolas estão? Como estão seus familiares? Como a rede de atenção cuida e sabe dessas histórias? Onde moram? O que ofertamos de atividades no campus? Fazemos parte dessa rede.

Agora, uma contradição.

Vivemos intensas contradições nesta universidade. Somam-se projetos e atividades de extensão que visam a minimizar a desigualdade social em que a maior parte da população não tem seus direitos garantidos. Mas, ao mesmo tempo, nesta universidade, a Polícia Militar bateu e chutou uma professora de NOSSA creche que exercia seu direito de manifestação. Ela estava pacificamente se manifestando contra o projeto de sustentabilidade que foi votado no Co. Uma professora da Escola Politécnica, cuja filha estuda com essa educadora da creche, escreveu um relato sobre essa violência: essa educadora foi levada algemada ao hospital, foi levada detida para a delegacia.

Inspirada no dia de ontem, dia de luta e discussão sobre as históricas condições desiguais de vida das mulheres, e inspirada na direção ética de várias atividades de extensão presentes nesta universidade, queria manifestar indignação em relação ao fato de a professora de nossa creche, mulher e negra, ter sido vítima da violência que produzimos aqui, nesta universidade”.

Adriana Marcondes Machado