Ao chegar, reitor falou em “banditismo” e uma RD retrucou de imediato: “Bandido é o senhor, que colocou a PM para bater em estudante!”

Reprodução/DCE
Imagens da repressão
Interpelado, reitor finge altivez

A reunião de 7/3/17 do Conselho Universitário da USP (Co) se iniciou enquanto soldados do pelotão de choque da Força Tática da PM e outros, do chamado “policiamento comunitário” da Cidade Universitária, ainda perseguiam e agrediam manifestantes dentro do campus. No andar térreo do prédio da Reitoria, local de reunião dos conselheiros, a PM manteve detidas cinco pessoas, depois conduzidas em viaturas à 93ª Delegacia de Polícia Civil.

Ao chegar ao salão onde o colegiado se reuniria, o reitor foi recebido por gritos de “Fora, Zago!”, fato inédito. “Eu queria entender se este Conselho vai acontecer com gente apanhando, com gente ferida lá fora”, protestou, antes do início da reunião, a estudante Luana dos Santos Silva (IP), representante discente (RD) da Gradua­ção. Em seguida, o reitor acusou os manifestantes de “banditismo” e a RD retrucou de imediato, em voz alta: “Bandido é o senhor, que colocou a PM para bater em estudante!”. Ele se calou, dirigindo-se apressadamente para a mesa.

M.A. Zago foi, então, interpelado por várias RDs ao mesmo tempo. “Tem estudante sangrando lá fora, tem bomba de gás lacrimogêneo. O sr. vai fazer o Conselho mesmo assim?”. “Absurdo”. O reitor pareceu empalidecer frente à saraivada de questionamentos. Seguranças correram para protegê-lo. Ciente de que o episódio estava sendo registrado em vídeo, M.A. Zago queixou-se, irritado: “Olha, você já gravou o que queria gravar...”.

Apesar dos protestos e da ausência de expressivo número de conselheiros, a Reitoria conseguiu iniciar e concluir a reunião, levando à votação o documento “Parâmetros de Sustentabilidade Econômico-Financeira”, cujo texto-base foi aprovado por escassa maioria: 52 votos favoráveis (43,69% do número total de membros do Co: 119), contra 32 e duas abstenções. Porém, foram apresentados diversos destaques, que deverão ser apreciados na próxima reunião do Co.

Procedimentos

No decorrer dos debates, representantes de congregações (FE, IP, FFLCH, IME), representantes dos funcionários e RDs fizeram uso da palavra não apenas para condenar a truculenta ação policial, mas, igualmente, repelir o teor do documento proposto pela Reitoria e os procedimentos empregados pela gestão M.A. Zago-V. Agopyan para conseguir sua aprovação. Conselheiros ligados à Reitoria, por sua vez, como a professora Maria Aparecida Moreira Machado, diretora da FOB, defenderam a ação policial e criticaram a “agres­sividade gratuita” dos manifestantes.

Nas suas intervenções, os RDs Cristiano Buoniconti Camargo (FD) e Luana dos Santos Silva (IP) destacaram o fato de que, durante a campanha eleitoral de reitor, M.A. Zago comprometeu-se a “jamais” recorrer à força física contra opositores. “A manifestação era absolutamente pacífica. Como resultado da ação da Polícia, tivemos estudantes e funcionários feridos. Hoje é um dia triste para a universidade”, enfatizou Cristiano, que surpreendeu, ao final, ao entoar a canção “Apesar de Você”, de Chico Buarque (“Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia”). O Informativo Adusp selecionou os principais trechos de alguns dos pronunciamentos mais contundentes (leia a seguir).

Como contraponto, esta edição reproduz a intervenção do professor Pedro Dallari, diretor do IRI, que mais uma vez defendeu as medidas da Reitoria. Ex-coordenador da Comissão Nacional da Verdade (CNV), cujo relatório final propõe a desmili­tari­za­ção da PM, Dallari defendeu a repressão aos manifestantes, sob pretexto de que teriam colocado cola num cadeado. Ele sustentou a proposta da Reitoria de “Parâmetros de Sustentabilidade” e sugeriu que se discuta cobrança de mensalidades.

 


Professora ANA MARIA LOFFREDO (IP):

“Bombas, armas apontadas para alunos, funcionários e docentes, prisões e pessoas feridas. Lembrei-me da Ditadura. Me incluo naquela parcela da universidade que não se curva a este ciclo de violência e ausência de exercício democrático capitaneado por esta Reitoria”

“Quando cheguei, ninguém da turma que estava defronte à Reitoria me impediu de entrar. Não havia nenhum obstáculo. A grade estava fechada, o policial me impediu e me falou gentilmente para procurar os conselheiros. Mas ele nem sabia onde eles estavam. Não havia desrespeito por parte do grupo de pessoas que queriam se manifestar legitimamente”.

Fazia muito tempo que eu não vivia diretamente uma experiência de violência, de absurdo, de uma dimensão quase irreal desse tipo — que fizeram minhas pernas tremerem e meus olhos se incomodarem enormemente com o gás. Bombas, armas apontadas para alunos, funcionários e docentes, prisões e pessoas feridas. Lembrei-me da época da Ditadura, quando eu era estudante da USP.

Quando o professor Zago diz que a universidade está sendo agredida por forças internas, fiquei perplexa. Devo apenas lembrar ao professor que tudo depende do ponto de vista. [...] Seria muito interessante se ele pudesse perceber que dependendo do ponto de vista, sua gestão e os encaminhamentos autoritários que têm delineado o perfil identitário que a tem caracterizado, estes encaminhamentos autoritários, estes sim, são as forças internas que estão agredindo a nossa querida Universidade de São Paulo. Colocando-se na contramão da história de dignidade que atravessa o percurso da maior universidade pública brasileira. [...]

Eu e os colegas do IPUSP, os quais represento aqui, fazemos parte da resistência justamente a essas barbaridades que tem ocorrido na USP nos últimos tempos, cujos campos de tensões as atitudes da Reitoria têm estimulado, alimentado e fomentado. Tive um embate mais ou menos tenso com o reitor na entrada, quando eu cheguei, e ele falou para mim: “Olha o que vocês estão fazendo!”. É uma maneira muito irresponsável de tirar o corpo de tudo isso que está acontecendo.

Me incluo naquela parcela do Co e da universidade que não se curva a este ciclo de violência e ausência de exercício democrático capitaneado por esta Reitoria. Força física é a maneira mais precária do convívio da alteridade e a missão do espírito universitário é favorecer esse convívio em todos os níveis, planos e dimensões. E este Co deveria ser exemplar nesse quesito”.

 

Professor EUGÊNIO BUCCI (ECA):

“Partilho dos depoimentos feitos aqui, nós tivemos hoje um dia muito triste. O que ocorreu lá fora não foi um episódio de natureza administrativa. Foi algo muito grave, que ficará como um trauma e será difícil de superar”

“Nós precisamos, como instituição, entender que precisamos prestar contas de maneira metódica, transparente e permanente para a sociedade que nos sustenta. Nós não devemos ceder a pressões corporativas nessa missão e neste sentido.

Partilho dos depoimentos feitos aqui, de que nós tivemos hoje um dia muito triste. E esta percepção e este sentimento não podem ser desvinculados do que nós estamos decidindo aqui. Não é administrativamente que nós vamos resolver o impasse e que nós vamos resolver a fissura que se abre no íntimo da nossa universidade. Aqui, neste conselho, nós sentimos isso.

O que ocorreu lá fora não foi um episódio de natureza administrativa. Foi algo muito grave, que ficará como um trauma nesta universidade e que será difícil de superar. Este conselho deve se responsabilizar por acompanhar o que ocorreu com aqueles que foram detidos, nossos alunos, com buscar informação e oferecer amparo às pessoas que foram agredidas.

Nós precisamos pensar com mais seriedade sobre o que ocorreu hoje, na frente da Reitoria da nossa universidade. Eu não defendo e jamais defenderei a intransigência e prepotência dos que quiseram impedir a nossa entrada. Isso ocorreu e não concordo com eles”.

 

Imagens da repressão

Professor ANDRÉ SINGER (FFLCH):

“Para surpresa de todos nós, aparece uma proposta às vésperas de uma reunião do Conselho. Este é um método democrático de deliberação? Desencadear uma brutal repressão aos manifestantes só faz crescer a impressão de que isto está sendo votado à força”

[O professor comenta que participou de reunião da Congregação da FFLCH em 16/2, quando a diretora, professora Maria Arminda, fez relato acerca de reunião entre o reitor e dirigentes de unidades.] “Neste relato, não apareceu uma vez a proposta de parâmetros de sustentabilidade que hoje está em discussão. Alguns dias depois, para surpresa de todos nós, aparece uma proposta, às vésperas de uma reunião do Conselho, às vésperas do Carnaval, quando as aulas não haviam começado. Eu pergunto às senhoras e senhores: é possível considerar este um processo democrático de deliberação? E eu tenho a obrigação funcional e regimental de vir aqui pôr esta questão para os senhores as senhoras, porque a minha Congregação não se reuniu para decidir. Portanto óbvio que eu, como representante da Congregação, pergunto: este é um método democrático de deliberação?

A FFLCH é a maior unidade desta universidade. Nós somos 15 mil uspianos. Muitos deles nesta manifestação que aconteceu aqui em frente. Eu sou responsável por estes uspianos.

Noto uma profunda contradição nas falas daqueles que defendem que a votação ocorra hoje. Porque dizem que este plano ‘não tem nada demais, são apenas as regras que já estão aí’. Mas se são ‘apenas as regras que já estão aí’, porque votar desta maneira?

A decisão de desencadear uma brutal repressão em relação aos manifestantes que estavam na frente desta Reitoria só faz crescer a impressão de que isto está sendo votado à força. Faço um apelo a este conselho e um chamado à razão e um apelo ao Magnífico Reitor, de que não faça esta votação hoje. Esta votação vai corroborar algo muito grave. Na realidade, a sociedade brasileira está naturalizando a violência e as coisas estão sendo decididas pela violência. E a universidade não pode embarcar nisso, a universidade tem de dar o exemplo contrário.

O diálogo até o fim! Esta é a nossa responsabilidade enquanto professores, enquanto educadores, enquanto Conselho Universitário, enquanto Magnífico Reitor. Decisões equivocadas acontecem, todo mundo toma decisões equivocadas. Mas é preciso saber voltar atrás, é preciso ter razão. Por isso eu faço este chamado à razão, breve, mas eu espero que ele seja pelo menos registrado no sentido de que esta votação não ocorra hoje. A FFLCH está plenamente de acordo de que é preciso ter responsabilidade na administração da universidade. É uma unidade inteiramente comprometida com a autonomia universitária e portanto sabemos a seriedade do que está sendo discutido. E queremos discutir. Mas acho muito arriscado que se aliene de toda a discussão uma parcela enorme dessa universidade que tenho muito orgulho de representar”.

 

Professor JOSÉ SÉRGIO CARVALHO (FE):

“Somos nós que não devemos permitir, como professores, que a Polícia Militar adentre aqui. Presenciei um aluno meu, nosso aluno, sendo chutado na cabeça pela Polícia. Nós sabemos como a Polícia age. Ninguém pode alegar que não sabia que isso aconteceria”

“Cheguei aqui um pouco antes das 14 horas. Não houve uma uma única pessoa que impedisse a minha entrada, a não ser o fato de que o portão estava fechado. Ninguém me impedia de entrar, mas eu fui aconselhado a esperar a Polícia, aos 58 anos de idade. Talvez o reitor tenha razão de que há segmentos nessa universidade que se manifestam com excesso, que ele, em geral, chama de barbárie. É possível que assim o seja. No entanto, eles não têm o dever que nós temos, do exemplo da luta e da força das ideias, contra a ideia da força. Somos nós que não devemos permitir, como professores, que a Polícia Militar adentre aqui. Presenciei um aluno meu, nosso aluno, sendo chutado na cabeça pela Polícia. Nós sabemos como a Polícia age. Ninguém pode alegar que não sabia que isso aconteceria ao chamar a Polícia.

Me encontro diante de um fato que está me parecendo quase um teatro do absurdo. Nós estamos discutindo a saúde financeira da universidade e colocando em risco sua saúde espiritual, que é a defesa do diálogo. Não é possível a gente permanecer aqui, discutindo os rumos econômicos e ignorando o que aconteceu, patrocinado por uma Polícia que nós chamamos.  

Pelo meu dever moral, o que tenho a dizer é que me retiro desta reunião, porque ela não tem legitimidade. Ela não pode acontecer, fechando os olhos para aquilo que aconteceu nesta entrada, pelo fato de que a Polícia foi chamada pela universidade. É a universidade que tem que dar o exemplo do apreço ao diálogo. É ela que tem de ensinar, pelos seu atos e suas palavras, que a democracia se faz pelo diálogo. Não é posśivel que o preço a pagar para tomar uma decisão econômica, seja fechar os olhos para a barbárie que nós vimos aqui. Então, me despeço dos senhores e me retiro desta reunião, porque eu não vejo sentido de a gente fazer de conta que não aconteceu o que aconteceu. A gente, de novo, negociar a saúde financeira [da USP], pagando o preço da dignidade política. Nós já fizemos isso neste país. Eu me recuso a continuar a fazendo aqui dentro”.

 

BRUNO SPERB ROCHA, funcionário:

“Foi você [reitor] quem chamou a PM! Do meu lado, foi detida uma trabalhadora que, imobilizada pela Polícia, teve o rosto chutado por um policial; uma companheira, com 1,60 de altura, levou um golpe de cassetete que abriu sua cabeça e saiu carregada para o hospital”

“É revoltante que o reitor venha abrir a reunião falando sobre democracia na universidade, dizendo que na universidade é intolerável a violência. Foi você quem chamou a Polícia Militar!

Do meu lado, foi detida uma companheira trabalhadora que, imobilizada pela Polícia, teve o rosto chutado por um policial; do meu lado, uma companheira, se tanto com 1,60 [metro] de altura, levou um golpe de cassetete que abriu sua cabeça e saiu carregada correndo para o hospital, coberta de sangue; do meu lado, a mesma coisa aconteceu com um estudante. Isso para falar do que aconteceu do meu lado.

E ainda que tenha sido a Polícia Militar que tenha feito isso, é na mão do reitor que está o sangue derramado aí fora, dentro da Universidade de São Paulo. Na mão do reitor, que tomou a decisão de chamar a Polícia, e na mão de cada um e cada uma, de cada membro do Conselho Universitário, daqueles que entraram aqui escoltados pela Polícia. Na mão de vocês está o sangue de quem se feriu lá fora, dentro da universidade pública, pelas mãos da Polícia Militar. [...]

O reitor soltou um documento no qual ele afirma que a creche está sendo fechada. Ele dá, como motivo para o fechamento da creche, a falta de funcionários; que houve uma redução de quadros e não tem funcionário suficiente para fazer a creche funcionar. [...] Fechou o Pronto Socorro do Hospital Universitário, fechou 40% dos leitos de UTI, dizendo que o motivo é falta de funcionário. É o mesmo motivo para estar terceirizando o bandejão, para não ter aula de disciplina obrigatória na Escola de Aplicação. Metade desta universidade já está sendo fechada, e vocês estão reconhecendo que é por falta de funcionários. E saíram, até agora, 2.600. Na semana que vem saem mais mil, e vocês estão votando uma medida em que está escrito que tem que cortar, que tem que ter pelo menos 40% de professores. É só fazer a conta. Depois desses 3.600 que já foram mandados embora, isso significa mandar embora no mínimo mais 5 mil trabalhadores. É só ver o que está acontecendo com a creche, com o hospital, com as unidades de ensino. O que vocês estão votando não tem nada a ver com ‘defesa da universidade’, ao contrário, é aprofundar o processo que está em curso de destruição da universidade, de fechamento de cada um desses serviços; em primeiro lugar dos poucos serviços que são prestados ao povo, à população que sustenta a universidade, como é o HU, como são as creches; aos poucos estudantes pobres que entram aqui dentro. [...]

Nenhum de vocês falou nada sobre o fato de que o governador, sistematicamente e há quase dez anos, descumpre a lei e não repassa os 9,57% do ICMS, e que só a diferença desse desfalque nos últimos dois anos foi mais de meio bilhão de reais”.

 

PEDRO DALLARI (diretor do IRI):

Imagens da repressão“O documento é até tímido, me causa estranheza essa reação. Não discutimos de maneira mais aberta a cobrança de mensalidades, me parece uma contradição. Com relação à Polícia, não vejo alternativa. Tentei entrar por um dos portões e os manifestantes tinham colocado cola no cadeado”

“Eu entendo que o documento é até muito tímido, me causa estranheza essa reação, porque na verdade, ele não suscita discussões mais aprofundadas com relação aos parâmetros de sustentabilidade, em relação à mudança do modelo de financiamento da universidade. Evidentemente não faz isso porque há dificuldade, política inclusive, para suscitar esse debate.

Nós não discutimos a presença mais efetiva de recursos privados na universidade. A universidade fornece quadros que dirigem as grandes empresas desse país, empresas multinacionais e o retorno que nós temos é muito pequeno. A universidade resiste a uma política mais efetiva de atração de recursos privados.

Não discutimos de maneira mais aberta a cobrança de mensalidade dos alunos que vêm de famílias mais ricas. Do ponto de vista ideológico, me parece uma contradição. Há muitas universidades públicas pelo Brasil afora, principalmente universidades e faculdades municipais que cobram mensalidades dos seus alunos, portanto não é um tabu. Não quer dizer que devêssemos adotar, mas deveríamos discutir isto, em um momento em que discutimos sustentabilidade.

Com relação à presença das forças de segurança pública, da Polícia,  eu não vejo alternativa. Eu, com alguns colegas professores, tentei entrar por um dos portões e os manifestantes tinham colocado cola no cadeado. Evidente que houve uma decisão clara de impedir a realização dessa reunião. Quando se impede o funcionamento normal das instituições — e isso vale para o Congresso Nacional, para uma Câmara Municipal e para o Conselho da USP — é evidente que se deve chamar as forças de segurança pública. Ora, quem deveria ser chamado nesse caso se não as forças de segurança pública? Portanto, do ponto de vista do Estado Democrático de Direito, me parece que o que ocorreu foi uma decorrência dos eventos que nós vimos aqui e que são inquestionáveis, por mais que agora haja uma tentativa de se mudar os fatos, dizendo que foi a Reitoria que impediu a realização da reunião do Conselho Universitário”.

 

GABRIELA SCHMIDT (RD-FFLCH):

“Foi a primeira vez que a Reitoria da USP colocou a Polícia para conseguir aprovar uma pauta política. Isso é grave. Não é com a educação básica que nós disputamos o ICMS. É com os trens superfaturados e outros tipos de interesses privados”

“Mais uma vez, estamos no Conselho Universitário, que pode aprovar [uma proposta] relativa ao futuro da USP, sem ter tido qualquer diálogo com a comunidade universitária, enquanto milhares de nós nos manifestamos contra esta proposta. Tivemos como resposta uma repressão brutal da polícia. Foi a primeira vez que a Reitoria da Universidade de São Paulo colocou a Polícia para conseguir aprovar uma pauta política. Isso é grave. O que aconteceu é realmente lamentável e triste. E é nojento a gente ter de continuar este Conselho Universitário. Para nós, estudantes, a única medida razoável e justa seria o cancelamento deste Conselho, como uma reparação àqueles que estão ainda no Hospital Univer­si­tário e aos que foram detidos. Para nós, os heróis são eles, e não os que estão aqui dentro.

Sobre a pauta, é muito grave que a gente debata como se fosse uma simples medida para conter gastos. Ela significa uma inversão do caráter da universidade e está sendo votada no segundo dia de aula, sem qualquer conversa com os estudantes, com aqueles que vão continuar aqui [na USP]. Por que passageiros não são os estudantes e sim o reitor, que vai terminar seu mandato em outubro. Nós temos de fazer um debate sério sobre a crise orçamentária da USP, mas sabendo que a gente tem de reivindicar mais verbas para a educação pública. Não nos enganamos com o argumento de que se a gente tem mais verba para a USP, estamos retirando dinheiro da educação básica. Não é com a educação básica que nós disputamos o ICMS. É com os trens superfaturados e com outros tipos de interesses privados, para onde esse dinheiro também vai. [...]

Hoje, começa um movimento em defesa da educação pública, em defesa da USP pública. Nós vamos fazer manifestações muito maiores, porque queremos defender esta universidade. Temos um debate para fazer e não achamos que a única solução possível é esta que está sendo apresentada e colocada goela abaixo. Fica dado o recado: vamos nos mobilizar, vamos defender a universidade contra o reitor e colocar nosso grito na rua, que é Fora Zago!

Informativo n° 432