O professor Roberto Leher, da Faculdade de Educação e representante dos professores titulares do Centro de Filosofia e Ciências Humanas no Conselho Universitário, tomou posse em 3/7 como reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A nova vice-reitora é Denise Lopez Nascimento, docente da Faculdade de Odontologia.
Durante a posse, na qual prometeu uma gestão compartilhada, com grande participação da comunidade, o novo reitor anunciou que pretende retirar o título de doutor honoris causa concedido pela UFRJ, na década de 1970, ao ditador Emilio Garrastazu Médici.
Leher também criticou o governo federal por conceder mais verbas às instituições privadas do que às universidades públicas. "Grande parte dos recursos do MEC para custeio da educação financia fundos de instituições privadas, mais preocupadas com fins lucrativos. Não são instituições educativas: são instituições financeiras. O Fies teve orçamento de R$ 13,5 bilhões em 2014, enquanto as universidades tiveram R$ 9 bilhões em oito anos", disse Leher.
 

Votação universal

A eleição da UFRJ foi realizada em dois turnos. No segundo turno, Leher e Denise, que constituiram a chapa "UFRJ autônoma, crítica e democrática", foram eleitos com 13.233 votos: 1.119 de professores, 2.694 de funcionários técnico-administrativos e 9.420 de alunos. A professora Denise Pires de Carvalho e seu vice Walter Suemitsu, da chapa "Somos todos UFRJ", receberam 6.534 votos: 1.844 de professores, 1.898 de funcionários e 2.792 de alunos.
A votação foi universal, mas o sistema prevê ponderação paritária. A vantagem final de Leher sobre Denise Pires foi estreita, apesar da maciça votação recebida por ele de funcionários e estudantes, uma vez que a candidata foi mais votada entre os docentes, cujo peso relativo é maior.
Após a eleição, realizada em 8/5, a UFRJ elaborou e encaminhou para o ministro Renato Janine, da Educação, uma lista tríplice de nomes para reitor e outra para vice, encabeçadas respectivamente por Leher e Denise Nascimento. Janine acatou o resultado da eleição.
 

"Polifonia"

Referindo-se ao forte apoio que recebeu de docentes, funcionários técnico-administrativos e estudantes, Leher declarou ao Informativo Adusp que a sua vitória foi resultado de "uma grande polifonia de vozes que há tempos vêm clamando por mudanças na UFRJ". A raiz dos problemas enfrentados pela maior universidade federal do país "está relacionada ao lugar subalterno da universidade no rol das prioridades do Estado, visto que, para os setores dominantes, a educação é um negócio". Ele pretende atuar junto aos movimentos que defendem 10% do PIB para a educação pública e lutam contra o processo de mercantilização do setor.
Leher, de 54 anos, graduou-se em 1984 em Ciências Biológicas pela UFRJ, tem mestrado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutorado em Ciências Biológicas pela USP. Presidiu a Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj) de 1997 a 1999 e o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) de 2000 a 2002.
O novo reitor acredita que houve na eleição da UFRJ uma clara polarização entre duas visões de universidade, "que se materializaram em torno de temas como função social da universidade, autonomia, democracia (autogoverno), divisão do trabalho, relação entre o público e o privado e a natureza da crise das universidades".
 

Proporcional

No sistema eleitoral da UFRJ, de ponderação paritária, são contados separadamente os votos dos docentes, servidores técnico-administrativos e estudantes, cujo peso final na soma total de votos é de 1/3 para cada grupo. Em cada categoria, o voto é contado de forma proporcional ao número total de votantes.
As eleições podem ou não acontecer em dois turnos. Após anunciados os resultados, a Comissão Coordenadora do Processo Sucessório (CCPS) elabora um relatório a ser apresentado em reunião do Colégio Eleitoral, que formaliza a escolha dos nomes que comporão as listas tríplices de candidatos a reitor e vice-reitor, posteriormente encaminhadas ao MEC.
Na USP, as eleições para reitor(a) e vice são indiretas, via colégio eleitoral. A comunidade universitária é desconsiderada no processo de escolha, havendo uma consulta de caráter meramente informativo. Ao final do processo indireto, que envolve menos de 2 mil pessoas, a lista tríplice é enviada ao governador, que escolhe um dos nomes, nomeando o reitor ou reitora da USP.