Teve lugar em 20/3, no auditório da Geografia (FFLCH), um ato de repúdio à violência promovida pela Reitoria da USP em 7/3 contra uma manifestação pacífica, dissolvida de modo truculento por um pelotão de choque da Força Tática da PM e pelos soldados do chamado “policiamento comunitário” da Cidade Universitária.

Na abertura, foi projetado um vídeo de quatro minutos sobre os acontecimentos de 7/3. Em seguida, o professor César Minto, presidente da Adusp, leu mensagem da Adusp: “Este é um momento grave e de muita indignação para todos nós, quando somos instados a realizar este ato de desagravo, devido à postura sistemática da Reitoria, absolutamente inadequada à administração de uma instituição pública e, sobretudo, de caráter educacional como é a Universidade de São Paulo (USP)”.

Após mencionar os processos de privatização em curso na universidade e o autoritarismo da estrutura de poder, o presidente da Adusp apontou a conduta profundamente antidemocrática da gestão M.A. Zago-V. Agopyan: “Cada vez mais, a Reitoria sente-se no direito de tratar qualquer reivindicação da comunidade universitária por meio do recurso à repressão, chegando ao absurdo de tentar minar o Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas), instância político-administrativa que negocia com o Fórum das Seis (articulação que representa docentes, funcionários e estudantes da USP, Unesp, Unicamp e Centro Paula Souza) as legítimas reivindicações nas campanhas de data-base. Diálogo e negociação... nem pensar!”.

Concedida a palavra aos convidados, Pedro Serrano, representante da vereadora Sâmia Bonfim (PSOL), saudou a Adusp e classificou de “atrocidade, que não pode ser aceita com naturalidade”, o que ocorreu em 7/3: “O reitor bancou que um Co acontecesse a fórceps com base no cassetete e na bala de borracha”.

Em seguida foi apresentada mensagem de solidariedade do deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) aos manifestantes de 7/3, gravada em vídeo. Para ele, a atitude do reitor é inadmissível. “O reitor Zago foi eleito com promessas de diálogo com toda a comunidade acadêmica, e acabou se transformando num exemplo de truculência e de falta de diálogo. Ele tem fechado creches, ataca as entidades representativas, fecha hospitais e só pensa em ajuste fiscal. O que ocorreu foi uma brutal repressão, inadmissível num local que é um centro do saber, do conhecimento”.

 A professora Anatalina Lourenço, representante da diretoria da Apeoesp, manifestou seu “repúdio a esse golpe desferido de forma covarde pela PM”. Destacou que a universidade pública é “bastião do conhecimento” e “local de formação dos professores que vão para a rede pública”, e assinalou que cabe uma nova palavra de ordem: “Para além de fora Zago, fora Alckmin!”.

O professor Pedro Paulo Chieffi, membro da Comissão Editorial da Revista Adusp, falou na sequência. Ele denunciou os processos judiciais movidos pelo ex-secretário estadual da Saúde, Guido Cerri, contra o editor dessa publicação, duas repórteres e a própria Adusp, em razão de reportagem sobre conflito de interesses publicada na edição 54 (2013).

Representante da Fasubra, Neusa Santana Alves destacou que a violência policial é instigada pela mídia e pediu a unidade dos movimentos sociais contra as medidas antidemocráticas: “Com bombas ou sem bombas, temos que enfrentar”. A professora Maria Lúcia dos Santos (Malu), representante do Andes Regional SP, expressou sua indignação com o comportamento da Reitoria e sua solidariedade com os movimentos. A professora Roseli Rocha, do Setor das Instituições de Ensino Estaduais e Municipais do Andes-SN, considera que a ação da PM fere a autonomia universitária e citou ocorrências semelhantes em outros Estados, como o Rio de Janeiro. “Fora Zago, Alckmin e Temer!”, concluiu.

O professor Carlos Belo, representante da Adunifesp, denunciou a existência de um “projeto muito agressivo” nos níveis estadual e federal. Há que “dedicar muita energia a trabalharmos juntos”, ressaltou. “Estamos asfixiados pela PEC dos Gastos [Emenda Constitucional 94/2017]. A mídia oculta, mas o governo é impopular”.

Campus militarizado

Américo Kerr
Ato realizado em 20/3 registrou muitos protestos contra Zago, Alckmin e Temer. 

Maria José Menezes (Zezé), do Núcleo de Consciência Negra (NCN), lembrou que o campus da USP é militarizado. “A USP há muito tempo é patrulhada pela PM. Ela não entrou no campus; ela [já] tem um espaço reservado”. “Estudantes que não têm o perfil médio dos alunos da USP sistematicamente passam por revistas vexatórias”. Zezé denunciou que, recentemente, dois jovens, uma moça e um rapaz, foram conduzidos coercitivamente pela Guarda Universitária para fora do campus. As grades construídas em torno da Reitoria e da Prainha da ECA, disse, refletem o “avanço do autoritarismo desta instituição”. Ela pediu uma Estatuinte que democratize a estrutura de poder da USP.

O deputado Carlos Giannazi (PSOL-SP) afirmou que a gestão M.A. Zago-V. Agopyan “significa destruição, desconstrução, desmonte da USP”. Relatou que no dia 7/3, junto com Magno de Carvalho, diretor do Sintusp, tentou negociar com o comando local da força da PM, sem êxito. O comandante lhe disse: “Olha, não tem negociação porque estamos aqui a pedido do reitor”. A conclusão, acrescentou Giannazi, é que “Zago é mais realista que o rei, está um passo à frente de todos os governos neoliberais”. Informou que solicitou ao Tribunal de Contas do Estado uma investigação da situação financeira da USP.

Américo Kerr
Na mesa: professores João Chaves, César Minto e Rosângela Sarteschi.

“Vahan [Agopyan] está pior do que Zago, disse que nós agredimos a Polícia!”, revelou a professora Zilda Iokoi, representante do grupo Diversitas. No entender dela, as trinta e duas pessoas que votaram contra a proposta de “Parâmetros de Sustentabilidade” deveriam ter saído da reunião do Co, derrubando o quórum. “O projeto da Reitoria é transformar a USP num bunker. Temos que impedir que a próxima eleição seja nos moldes em que as eleições se deram até agora. Temos que fazer um movimento internacional [de denúncia]”.

Depois de apresentar seu “veemente protesto contra essa brutalidade perpetrada contra a USP”, o representante do Fórum das Seis e presidente da Adunesp, professor João Chaves, observou que o Brasil é alvo de forças políticas que pretendem a destruição do serviço público e a entrega das riquezas brasileiras. “Zago segue o script federal e assumiu a tarefa de destruir a USP. Trata-se de um apêndice da Ditadura Militar”.

Bruno Sperb Rocha, representante dos funcionários no Co, detalhou algumas das agressões cometidas por policiais militares contra os manifestantes, em especial contra Nani Figueiredo, professora da Creche, que aparece num vídeo sendo violentamente derrubada por uma policial do policiamento comunitário. O vídeo, advertiu ele, não mostra as agressões que a educadora sofreu dos mesmos soldados em momento imediatamente posterior. Ele comentou que a reunião do Co teve início enquanto a repressão ainda acontecia e que, por isso, não teve legitimidade.

Em nome do DCE Livre, Guilherme Fregonesi destacou os danos provocados pela gestão M.A. Zago-V. Agopyan: “O centro é o projeto de Zago de destruir o que há de público na universidade, junto com a McKinsey”. No entendimento do estudante, é preciso desencadear uma grande campanha em defesa da educação pública e da universidade pública.

“Estávamos na iminência de sermos colocados para fora da USP”, declarou Magno de Carvalho, diretor do Sintusp, referindo-se ao ataque da Reitoria à entidade e à sua sede. Ele saudou a Adusp e agradeceu aos professores pelo apoio recebido pelo Sintusp contra as pressões do reitor. Revelou que a tática da PM de atacar os manifestantes foi antecipada pelo chefe da segurança de Zago, Alexandre, ao prevenir os membros do Co que se encontravam na lateral do prédio: “Vamos fazer uma limpeza na porta da Reitoria”. Denunciou as prisões abusivas realizadas pela PM no HU e a agressão sofrida por um médico, empurrado por um dos policiais.

 

Cartas de apoio

A mesa do ato leu as diversas manifestações de apoio recebidas, intercalando-as com as intervenções de oradores. A primeira a ser lida foi do mandato do deputado estadual Raul Marcelo (PSOL-SP).

“Nós do mandato do deputado estadual Raul Marcelo nos solidarizamos integralmente com a comunidade acadêmica da USP, que no dia 7 de março sofreu mais um ato de violência policial e institucional. O ato a se realizar hoje, dia 20 de março de 2017, demonstra o esforço coletivo da comunidade acadêmica — formada por docentes, discentes, servidores e comunidade que convive no ambiente uspiano — em defender esse patrimônio do povo paulista e brasileiro. A USP incomoda porque o projeto em execução na sociedade brasileira não tolera o contraditório, contra o qual só se contrapõe a força bruta e a ignorância, haja visto o que vivenciamos em nosso Estado nas últimas duas décadas com os tucanos à frente. Nosso mandato se opõe a esse projeto, cuja variante Temer é uma expressão do mesmo, e se coloca à inteira disposição da comunidade acadêmica e em solidariedade ao ato que representa um respiro de esperança e luta”.

O professor Alfredo Bosi (FFLCH e IEA), que não pode comparecer por razões de saúde, enviou a seguinte nota: “Agradeço o convite para ato de desagravo. Não estou em condições de saúde para participar desse evento. Desejo, de todo modo, expressar minha solidariedade para com estudantes e docentes que foram atingidos pela repressão policial, esperando que situações como essa não se repitam em nosso campus. Desejo igualmente que se crie um espaço de diálogo franco e respeitoso entre as autoridades universitárias e o conjunto de docentes, alunos e funcionários de nossa universidade. Sem diálogo, a tendência é a do confronto puro e duro, sem que avancem propostas razoáveis para sairmos de uma crise institucional, e não só financeira, sem precedentes”.

Na sua mensagem, a professora Maria Helena S. Patto (IP) registra:

“A USP pela qual sempre lutamos está agônica. Diante disso, o que fazer? Temos o dever de lutar de várias formas — protestos, abaixo-assinados, manifestações das congregações das Faculdades, Institutos, Escolas que a compõem, mas também publicações de textos reunidos que denunciem o autoritarismo que quer abolir o diálogo entre as instâncias que a administram e todos os que compõem a USP, sejam eles estudantes, funcionários ou docentes. Temos que lutar contra os que querem reduzi-la à formação de técnicos para o desenvolvimento econômico [o que] contemplará apenas os interesses dos que dominam o país”.

Prossegue a professora: “Segundo a professora Marilena Chauí, ‘O fundamental não é indagar: que pesquisas científicas servem ao Brasil? Mas a quem, no Brasil, servem as pesquisas científicas? Assim como foram publicados textos que registraram os danos praticados contra a USP durante a Ditadura de 1964-1985 [O Livro Negro da USP (1979) e A crise da USP (1980), com fotos das ações policiais contra os manifestantes], nós também não podemos deixar de registrá-los, para que estudantes, funcionários e docentes do presente e do futuro tomem conhecimento do que se passa hoje. Reforçando as formas atuais de resistência que estão sendo impedidas, vale a transcrição de uma passagem de um texto do professor Franklin Leopoldo e Silva que resume com clareza a ideia de Universidade defendida por tantos outros críticos da situação atual: “ A relação entre universidade e sociedade deve ser rigorosamente dentro dos parâmetros da autonomia e da escolha dos meios e dos fins. Ignorar essa característica é perder de vista a condição e o sentido da própria atividade universitária. Atualmente, essa questão aparece numa de suas formulações mais candentes quando aborda o problema das relações entre universidades e empresas. As práticas produtivas das organizações empresariais caracterizam-se de maneira geral pela relação imediata com pressupostas necessidades sociais expressas e interpretadas na escala do mercado. Nesse sentido, a tecnologia opera estritamente a partir da racionalidade técnico-experimental. Ora, é parte integrante do trabalho universitário uma reflexão abrangente que considere as relações entre tecnologia e sociedade do ponto de vista da crítica valorativa das práticas sociais. A condição para essa mediação crítico-reflexiva é o relativo distanciamento de tais práticas ou pelo menos a ausência de compromisso imediato com os resultados tecnológicos” (1996).

O professor José Renato de Araújo, representante dos professores doutores no Co, apontou como “inacreditável” a atitude do reitor em 7/3, uma vez que ficou claro que a intenção da Reitoria era a aprovação a qualquer custo da sua proposta. A seguir, a mensagem que enviou à Adusp e foi lida no ato:

“Como foi amplamente divulgado, inclusive por esta representação em seu blog, no último dia 7 de março transcorreram cenas do mais puro autoritarismo no campus da Cidade Universitária. Como conselheiro do Co presenciei cenas lamentáveis naquela tarde, todas elas incompatíveis com a vida universitária. Mas sem dúvida alguma, naquela tarde, o mais inacreditável foi a posição dos altos dirigentes da USP, em especial de nosso reitor — professor Marco Antonio Zago, os quais entenderam ser possível a realização de uma sessão ordinária do Co naquela tarde.

Na realidade, com o transcorrer dos fatos, depois da insensibilidade da Reitoria frente às solicitações para a suspensão da sessão por diversos conselheiros, chegamos à conclusão que aquelas cenas lamentáveis faziam parte do cenário necessário para a aprovação dos Parâmetros de Sustentabilidade da USP, na visão de nosso mais alto dirigente.

No final da sessão ficou-nos claro que a intenção da Reitoria era a aprovação a qualquer custo daquela proposta. Fato que mais nos estarrece até agora é que isto incluía toda aquelas cenas de violência policial, que poderiam ter até mesmo causado consequências ainda mais graves, pois as vidas de muitas pessoas estiveram ameaçadas naquela tarde em frente à Reitoria de nossa universidade.

Sem dúvida, não há ação administrativa de qualquer natureza que valha a pena colocar em risco a vida de pessoas, nem mesmo atingir em cheio a integridade física de qualquer indivíduo. E nunca é demais lembrar, estamos tratando da Administração de uma instituição de ensino e pesquisa!

Como conselheiro do Co sinto-me envergonhado com o transcorrer daquela sessão, e, como já registrei em nosso blog, o professor Marco Antonio Zago conseguiu produzir uma das mais lamentáveis páginas da história da octogenária Universidade de São Paulo. Fato por si só digno de reprovação pública!”