foto: Daniel Garcia

No dia 7/3, quando mantidos algemados pela PM numa sala da Reitoria, a educadora Nani Figueiredo e outros manifestantes avistaram-se com Maria Paula Dallari Bucci, a quem relataram as agressões sofridas e pediram advogado. Ela disse que não podia “interferir” e foi para a reunião do Co

Depois de espancados e presos por policiais militares durante a manifestação de 7/3, dois funcionários e dois alunos da USP foram conduzidos a uma sala do andar térreo da Reitoria e lá permaneceram algemados a maior parte do tempo. Dentro da sala, um deles levou tapas na cabeça, desferidos pelos policiais. Eles foram impedidos de chamar advogados. Enquanto estavam algemados na Reitoria, esses manifestantes receberam breve visita da superintendente jurídica da universidade, Maria Paula Dallari Bucci, que lhes disse que não poderia “interferir na ação policial”.

Marlene Figueiredo, a Nani, educadora da Creche Oeste, estava entre esses detidos. Seu crime: filmar a violência policial. Um vídeo divulgado pelo Diretório Central dos Estudantes registrou o momento em que Nani é agarrada pelo pescoço por uma soldado do “policiamento comunitário” da PM e atirada ao chão com violência. Mas o vídeo capta apenas parte das agressões sofridas por ela, que os policiais xingaram de “vagabunda” e “vadia”. Ainda estava no chão, imobilizada, quando um policial lhe deu um pontapé no flanco direito.

A respeito de Nani, a professora Mariana Gianotti (EP-USP) prestou o seguinte depoimento: “Ontem, véspera do dia das mulheres, recebi a notícia de que uma funcionária da creche da USP que é professora de meu filho foi arrastada para dentro da Reitoria, jogada no chão [...]. Essa professora é uma das pessoas mais especiais que já tive a oportunidade de conviver. Ela tem a delicadeza, sensibilidade e inteligência para atuar neste universo particular que é o da educação infantil, educando crianças pequenas. Muito além disso, ela consegue dialogar com pais das mais diversas formações, origens e valores, sem carregar em sua atitude preconceitos, sempre buscando uma compreensão sobre a diversidade que existe para que possa, dessa forma, construir uma relação de confiança e assim ajudar seus alunos com uma enorme competência”.

Os policiais apagaram um dos vídeos feitos por Nani no seu celular, conforme registrado por ela em boletim de ocorrência na 93a DP. Procurada pelo Informativo Adusp para comentar as declarações de Nani, a superintendente jurídica da USP não respondeu às questões que lhe foram enviadas.

A seguir, os principais trechos de depoimento da educadora ao Informativo Adusp.

 

Filmando de longe

Fui para a Reitoria, me encontrar com umas colegas da creche que também estavam paralisadas. Quando eu cheguei já tinha vários policiais por ali, mas estava tudo tranquilo. Os manifestantes estavam no portão, teve um momento, um pouco antes, em que eles começaram a falar palavras de ordem contra o reitor, contra a PM. Porque a grade fechada, tudo mais... Aí saí para ir no Sindicato. E quando eu estava do outro lado da ECA ouvi um estrondo. Uma colega me ligou, muito assustada: “Nani de Deus, a Polícia começou a jogar bombas aqui”. Aí eu voltei para pegar essa amiga, a Luzia. Só que já estava muita fumaça, a Polícia jogando bomba mesmo, e os manifestantes começaram a se dispersar. E eu tenho bronquite, fiquei longe, próxima à torre do Relógio. Coloquei meu celular e fiquei gravando e falando ao mesmo tempo, para mandar no grupo das creches. E fiquei nesse movimento de filmar de longe, bem longe do que estava acontecendo.

“Chutaram meu aluno!”

 

Daniel Garcia
Nani mostra como foi agarrada.
Foi quando eu vi o Luís, funcionário do IB, conselheiro de base do Sindicato, meu colega. Eu vi o Luís a uma distância de um policial, gesticulando como se estivesse falando alguma coisa, não deu para ouvir. Vi quando o policial se aproximou dele, deu uns passos rápidos e já correu, já deu um cassetete nele. Não sei se deu uma rasteira, sei que o Luís caiu. Quando ele caiu, uns cinco policiais encostaram, e os policiais começaram a bater muito nele de cassetete. Fiquei muito assustada e meu instinto foi correr para filmar de perto. E eu corri, eu fiz isso. Aí eu filmei. Eles chutando, o Luís no chão e eles começaram a chutar. O Luís ficou quieto e eles pegaram pelos braços e pelas pernas dele e começaram a levar para dentro da grade. E aí me aproximei mais, para saber se ia acontecer mais alguma coisa lá, estava bastante chocada. Porque eu nunca tinha visto nada assim de tão perto. E fiquei muito perto da grade. Ainda filmei o professor José Sérgio: “Olha, chutaram o meu aluno!”.

“Aperta bem a algema dessa vadia”

Aí passou uma policial, quando ela voltou me pegou pelo pescoço e falou: “Você está gravando? Então você vem também. Vai ser testemunha”. Me pegou pelo pescoço, fiquei toda arranhada, porque ela pegava por aqui... Nisso já se aproximaram mais policiais, depois é que eu fui ver que tinha homem e tinha mulher. E aí ela me agarrou por aqui e eu falava: “Não me agride, não me agride”. Ela continuou me empurrando, me pegando pelo pescoço, até aquele ponto que vocês vêem: eu tento proteger meu celular, e aí eu não senti, eu só lembro que estava em estado de choque quando caí, eu fiquei olhando para ela. Porque eu não vivi nunca uma violência desse tamanho. Me lembro que não senti dor na hora, eu estava meio confusa. Ela falou assim: “Você está pensando que está falando com quem? Hein, sua vagabunda?” E aí uma outra policial falou: “Olha o celular dela”. Me tiraram o celular nessa hora. E aí me viraram forte, e eu me lembro de um homem falando: “Aperta bem a algema dessa vadia”. Vi que foi um homem que falou isso, um dos policiais que estavam lá. Tanto é que fiquei com isso aqui, muito doído [mostra os pulsos]. Já me levantaram, me levaram para dentro da Reitoria. Quando eles estavam me levando, uma pessoa falou assim: “Você não pode bater na pessoa desse jeito”, falou para a policial. “Não pode agredir desse jeito. Imobiliza e pronto”. Quando ele falou isso eu me senti meio com acolhimento, e aí eu comecei a falar dentro da Reitoria.

Reprodução/Vídeo DCE Livre
Atirada ao chão e cercada.

Algemados na Reitoria

Fui algemada, obviamente, colocaram a gente encostada na parede, o Luís já estava lá. Eu fiz xixi na roupa. Por conta do horror. Falei assim: “Olha, eles me bateram, porque eu estava filmando. Me pegaram, me agrediram...” E aí entrou uma policial, falei assim: “Olha, ela me agrediu”. Ela veio para cima: “Você gravou?” E eu: “Gravei, gravei sim”. E aí ela veio mesmo, para cima. E aí uma outra pessoa que estava na Reitoria falou assim: “Ei, calma lá! Você vai bater nela aqui dentro também?” Aí um dos policiais falou se eu queria ir no banheiro, porque eu tinha feito xixi. Eu falei que não confiava nele, que não queria ir, que eram todos bandidos e que a Polícia tinha me agredido. Ele falou assim: “Mas você sabe que não são todos iguais”. Ele me liberou, tirou a algema, eu fui ao banheiro, chorei muito. Uma pessoa foi comigo, eu falei: “Moça, me leve no banheiro, não quero ir com eles”. Era alguém da terceirizada que estava na Reitoria. Voltei, eles me algemaram de novo.

Tapas na Reitoria

Tem aquele saguão da Reitoria, tem um corredorzinho, tem os banheiros, a gente ficou numa salinha, que é um anexo. Quando eu cheguei só tinha o Luís. Na sequência chegou um menino, o nome dele é Caio, que estava fazendo transmissão via Facebook. Lembro que quando ele chegou estava com o celular dele. Tinham devolvido nosso celular. Só que veio um moço mais velho, que devia ser um superior deles [dos PMs]. Quando ele foi trazido, esse moço fez assim [faz um gesto de afago] na cabeça do policial que trouxe ele: “Muito bem!”... Era um policial mais novinho. E aí o menino tentava desligar o celular, eles gritando: “Desliga o celular!”. Mas ele não conseguia, estava nervoso. Eles pegaram o celular dele, tomaram, deram uns tapas na cabeça dele. Lá dentro [da Reitoria], nessa salinha onde a gente ficou. Deram tapas na cabeça dele, sabe “pedala”? Nisso eles recolheram de novo, porque tinham me devolvido, e pegaram todos os celulares de novo. Eu pedi para ligar para o advogado, não deixaram. Chegou a Mariana [Brum], bem machucada, estava com muitos vermelhos na perna. A gente pediu para falar com advogado, eles falaram que não. Aí a Maria Paula Dallari [Bucci] deu uma encostadinha lá assim para ver como a gente estava.

Maria Paula Dallari fica dois minutos, não interfere e sai

“A gente está péssimo”. Ela viu que eu estava chorando. Chegou o moço que me parece que é o marido dela. [Eugênio] Bucci porque eu me lembro desse sobrenome. Ele encostou lá, conversou com os policiais, perguntou se a gente estava bem, e aí falou assim: “Mas por que eles não podem...?” Quando a Maria Paula chegou, ela disse que não poderia interferir na ação policial. Que estava indo lá para ver se estava tudo bem. E saiu. Aí chegou esse moço, que depois fiquei sabendo que é esposo dela. Ele perguntou por que não devolviam nossos celulares. O policial que estava lá, Vedovato, falou: “Porque agora não”. E aí ele falou para a gente: “Vocês vão ficar tranquilos? A gente tira a algema”. Eu falei: “A gente estava tranquilo. Vocês é que não estão”. Para quem fosse lá, a gente falou: “A gente foi agredido”. O menino estava inconformado: “Roubaram meu celular”. Alguém conversou com ela [Maria Paula], aí ela falou que estava ali mas não poderia interferir na ação policial. Ela ficou uns dois minutos. Tinha Conselho, falou que tinha de sair. Que teria uma reunião. O marido dela veio, ele conseguiu ser mais atencioso. Aí foi quando o policial veio falar que iria tirar as algemas, para a gente sentar em cima das mãos. Ele tirou as algemas. A gente ficou ali um tempo, talvez uma meia hora, cinquenta minutos.

“Serpentes” na viatura

Depois a gente ficou sabendo que ia para o HU [Hospital Universitário]. Entrar na viatura é outro horror. Colocam você naquele negócio lá de trás, no camburão. A gente chorava muito, eu e a Mariana, eu fui junto com ela. A gente não conseguia falar, só conseguia se olhar e chorar. E eles faziam aquelas “serpentes” com o carro. Parece que toda hora ia virar, a gente batia o tempo todo, batia em cima, não conseguia ficar sentada. Teve uma hora que falamos: vamos deitar no assoalho, ela colocou as pernas, eu deitei, estava com muita dor no braço. E a gente chorava, eles passavam nas lombadas. A Mariana falou: “Nani, eles estão rindo”, como se fizessem de propósito.

Trauma na cervical

No HU a todo momento tinha um policial atrás da gente, até quando ia no banheiro. Eu tirei um raio-X do braço, não deu nada. Só que eu comecei a sentir muita dor no braço. No dia seguinte voltei no médico. Na verdade, era uma lesão na cervical. Por isso eu sentia, porque ela irradiava. Só depois apareceu a dor nas costas. Fiquei de licença quatro dias. Voltei a trabalhar, fiz uma ressonância magnética nesta semana. Foi difícil voltar, foi difícil falar para as crianças. As crianças perguntavam, eu não sabia como dizer. Comecei a chorar, saí da sala. A psicóloga me ajudou. Quando aquele vídeo saiu, fiquei com muita vergonha, era como se eu tivesse fazendo alguma coisa errada. 

 

 

“Uma das pessoas mais especiais, uma mulher singular”

Ontem, véspera do dia das mulheres, recebi a notícia que uma funcionária da creche da USP, que é professora de meu filho, foi arrastada para dentro da Reitoria, jogada no chão, recebeu cacetadas e chutes na cabeça, além de ter seu braço torcido pelos policiais que a abordaram porque ela filmava a atuação da tropa de choque. Ela foi levada ao HU e algemada, e quando recebida na delegacia, após os devidos esclarecimentos, pode prestar depoimento como vítima dessa barbárie pois não tinha cometido nenhum ato ilegal que justificasse sua apreensão.

Essa professora é uma das pessoas mais especiais que já tive a oportunidade de conviver. Ela tem a delicadeza, sensibilidade e inteligência para atuar neste universo particular que é o da educação infantil, educando crianças pequenas. Muito além disso, ela consegue dialogar com pais das mais diversas formações, origens e valores, sem carregar em sua atitude preconceitos, sempre buscando uma compreensão sobre a diversidade que existe para que possa, dessa forma, construir uma relação de confiança e assim ajudar seus alunos com uma enorme competência.

Ela é uma mulher singular, pois assim como muitas outras, ela também tem filhos, também enfrenta a pressão de gerenciar as múltiplas responsabilidades, mas nada disso a impede de tratar cada palavra de cada criança com todo o respeito, atenção e cuidado, e ainda tem forças para lutar por aquilo que acredita.

Sua presença nessa manifestação tem uma história, a creche em que ela trabalhou por tantos anos foi fechada no período de férias e pais, crianças e funcionários não tiveram nem tempo de tirar seus pertences e se despedir do lugar. Fomos todos tratados como números e o pior é que esses números representam menos de 0,04% do orçamento da USP, ignorando 30 anos de trabalho para a formação de conhecimento e metodologias na educação infantil. Fruto de uma luta das mulheres da USP, a Creche Oeste da USP reunia diversos setores da universidade como a Pedagogia, Odontologia, Fonoaudiologia e Psicologia, que tinham naquele espaço uma oportunidade singular de fazer pesquisa de qualidade e gerar conhecimento para esse nosso país tão carente no atendimento à educação infantil.

As creches não são apenas um direito dessas crianças, são também um direito das mulheres dessa universidade que, como o próprio dia de hoje simboliza, lutam em seu cotidiano para poderem exercer uma profissão sem abdicar da maternidade.

Espero que essas palavras provoquem uma reflexão mais profunda e que de alguma forma motivem as pessoas a lutarem, como puderem, para que encontremos um caminho diferente para sairmos dessa crise. Um caminho que passe por aproveitar uma das coisas mais preciosas que essa Universidade tem, que são as pessoas, com suas ideias, inteligência e experiência. Não estamos apenas em uma crise financeira, trata-se de uma crise de representatividade, a forma como a Universidade está estruturada hoje não permite que a opinião da maioria da comunidade seja ouvida e considerada.

Mariana Giannotti, Mulher, Mãe, Esposa e Professora da Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo