Mesmo após a repercussão negativa da violência cometida contra estudantes, funcionários técnico-administrativos e professores no dia 7/3, a escalada repressiva dentro da USP continua a se acentuar, como demonstram novos casos de agressões a estudantes e de abordagens policiais arbitrárias. A militarização da Cidade Universitária se intensifica e a Polícia Militar demonstra agir com inteira liberdade de ação contra quem quer que seja.

Em depoimento que escreveu para o Informativo Adusp, o professor Elie Ghanem, da Faculdade de Educação (FE), relata como a PM o abordou e interrompeu uma de suas aulas, ministrada ao ar livre na Praça do Relógio no dia 28/3. Sua turma foi interceptada por duas viaturas da PM e uma da Guarda Universitária porque câmeras de vigilância supostamente gravaram dois de seus alunos forçando o portão da Torre do Relógio.

O docente também questiona se a polícia está utilizando drones para a vigilância da universidade. A assessoria de imprensa da Reitoria informa que a Superintendência de Proteção e Prevenção não está ciente do caso de abordagem e “tampouco possui drones”. (Leia o depoimento de Ghanem ao final deste texto.)

Braço quebrado

No dia 28/4, Caio Fucidji, estudante de cursinho, teve seu braço direito quebrado por policiais militares perto da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). No mesmo dia, data da greve geral contra as reformas pretendidas pelo governo Temer, o estudante Gabriel Martins, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), foi agredido e detido por policiais militares durante repressão aos alunos na Escola de Comunicações e Artes.

Caio estava no vão da História e Geografia, longe do protesto, quando foi agredido pelos soldados da PM. “Eu e mais duas amigas de um coletivo do qual faço parte estávamos fazendo uma faixa para o ato da tarde. Chegaram alguns manifestantes e nos avisaram que a polícia estava vindo. Nós guardamos as coisas com calma, dobramos a faixa e fomos embora. Quando estávamos atravessando a rua, a faixa abriu. Chegou uma fila de ‘Rocams’ na maior velocidade, fizeram uma roda em volta da gente e mandaram a gente soltar a faixa”, descreve Caio, referindo-se aos policiais da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam).

“Eles gritavam ‘solta a faixa!’ e começaram a me bater com cassetete. Nem vi quem foi, porque veio de trás. Me bateram nas costas e nos dois braços. Na hora, nem percebi a dor. A polícia arrancou a faixa da nossa mão e mandou a gente ir embora”. Após ser levado ao Hospital Universitário (HU), Caio foi informado de que sofrera uma fratura na ulna, perto do pulso. Sua recuperação deve demorar cerca de um mês e meio. “Tive que pedir licença de 25 dias no trabalho e provavelmente vou ter que pegar mais tempo. Trabalho de garçom e [também] faço cursinho, hoje tive uma prova de redação que não consegui fazer. Estou tendo dificuldade com tudo, trabalho com a mão e ainda preciso escrever muito”, lamentou o estudante.

Processos disciplinares

Além da militarização dos campi da USP, cresce o número de processos disciplinares com motivação política. No dia 3/5, nove estudantes foram informados de que são alvo de um Processo Administrativo Disciplinar instaurado pela Reitoria em represália à ocupação da Prefeitura do Campus de São Carlos.

A ocupação começou no dia 31/3 e exigia abertura de diálogo entre estudantes e dirigentes do campus, melhores condições de alojamento (moradia estudantil), reconhecimento da autogestão do espaço e contratação de funcionários de limpeza. O prédio foi desocupado no dia 12/4 mediante um acordo de que não haveria sanções aos participantes do movimento.

“É um sentimento de bastante indignação e raiva, porque quando a gente fez a negociação o processo já tinha sido aberto um dia antes. No dia 11/4 o Zago já abriu esse processo”, diz o estudante de engenharia Mateus Fumes, que é um dos processados. “Na reunião tudo parecia correr muito bem, eles [os dirigentes de São Carlos] batiam muito na tecla de que não adotariam sanções, mas que não poderiam falar pelo Zago ou pelo resto da universidade. Eles amarraram muito bem isso para que o processo seguisse. Porém as informações do processo com certeza foram fornecidas por São Carlos. Então a gente está bastante indignado porque é agir de má-fé”, declara.

Os estudantes estão sendo processados com base nos artigos 6, 21 e 22 do Código de Ética da USP e nos 247 e 250 do Regimento Geral da USP, elaborado em 1972, durante a Ditadura Militar. Ele prevê punições para quem “praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”, “perturbar os trabalhos escolares bem como o funcionamento da administração da USP” e “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário”.

Polícia para quê?

A seguir, o depoimento do professor Elie Ghanem:

Foi na tarde de 28 de março de 2017. Eu estava com uma turma de primeiro semestre de pedagogia com quem leciono sociologia da educação. Era uma das primeiras aulas e o tema era precisamente esse: o que é uma aula? Propus a pergunta e andarmos da Faculdade de Educação à Praça do Relógio conversando a respeito. Serviria também para apresentar algumas áreas da Cidade Universitária a estudantes ingressantes e chamar a atenção para a frase escrita na base do relógio da praça, atribuída a Miguel Reale: “No universo da cultura o centro está em toda parte”. Seria uma forma de sugerir que não nos ceguemos pela excessiva especialização. Tudo isso feito, chamei a turma que estava dispersa em torno da torre para apontar o prédio da Reitoria e informar que, poucos meses antes, não havia grades em torno. Fui interrompido pela chegada de duas viaturas da Polícia Militar e uma da Guarda Universitária.

Um soldado, a cerca de dez metros, perguntou se poderia falar comigo fazendo gesto para que eu me aproximasse. Julguei que deveria ser o contrário e respondi que ele poderia vir a mim. Ele veio e me interpelou: “O senhor é o responsável?”. Perguntei pelo quê. Ele lançou um olhar ao redor e eu respondi que eram estudantes, eu era seu professor e ele poderia falar com todas as pessoas ali. Informou que câmeras de segurança detectaram dois rapazes forçando o portão de entrada da torre do relógio. Eu disse não ter conhecimento disso e um estudante se adiantou explicando que já havia estado lá, que era sua segunda graduação e estava com o colega mostrando o portão que leva à escada da torre.

O soldado falou para não forçarem o portão “para evitar problemas”, voltou para a viatura, tomou notas e os três veículos partiram. Segui explicando à turma que o prédio em frente é a sede da Reitoria, local onde se fazem reuniões do Conselho Universitário, que havia cerca de vinte dias a Polícia Militar atacou brutalmente manifestantes pacíficos, inclusive crianças, que protestavam contra apressada proposta que seria aprovada no Conselho, impondo gravíssimas restrições e consequências para a universidade. Assim procediam as autoridades máximas da USP, usando a polícia para se proteger de integrantes da USP: estudantes, docentes e funcionários técnico-administrativos. Caminhamos de volta à Feusp sendo seguidos até o Crusp por drones que sobrevoavam a praça. Seriam esses aparatos as câmeras de segurança que o policial mencionou?