O primeiro debate entre os candidatos a reitor e vice-reitor da USP foi realizado no dia 5/10 no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), no campus de São Carlos. A eleição da lista tríplice está marcada para 30/10. As quatro chapas compareceram e a discussão foi mediada pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

Ildo Luís Sauer, ex-diretor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE), foi o primeiro candidato a se apresentar e fez críticas à gestão reitoral de M. A. Zago e à chapa de continuidade do atual reitor, encabeçada pelo vice-reitor Vahan Agopyan. “Os métodos utilizados para resgatar a USP de sua crise financeira não foram adequados, nem suficientes. Precisávamos manter um diálogo mais aprofundado, sincero e transparente com servidores, professores e alunos”, afirmou Sauer.

“As lamentáveis cenas de violência que acometeram a USP não são dignas do que é uma universidade responsável pela construção de futuro”, disse, referindo-se às ações da Polícia Militar, a pedido da Reitoria, no dia 7 de março. “Nós tivemos, então, uma negação daquilo que é o princípio fundamental e os valores fundadores da universidade”, avaliou Sauer. “A sinalização de que a culpa pela crise é dos servidores é inadequada”. “A reestruturação, através de PIDVs, sem prévio diagnóstico, dificultou muito a qualidade do que as nossas unidades puderam fazer”.

Sauer, cujo candidato a vice-reitor é Tercio Ambrizzi, professor do lnstituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), defendeu a retirada das grades construídas ao redor do prédio da Reitoria (“símbolo supremo da negação de diálogo”) e o aumento do protagonismo da USP no debate público. Destacou a situação do Hospital Universitário (HU): “Ele realmente é a maior parte do Orçamento da USP. Mas a forma como se tentou negociar a sua transferência para o Estado de São Paulo, que finalmente fracassou, revelou a profunda ausência de liderança e de capacidade de articulação da administração da USP”.

“Mal-estar enorme”

A professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) licenciada para disputar a eleição, endossou os apontamentos de Sauer e apresentou seu diagnóstico: “A USP hoje vive um sentimento de mal-estar enorme, uma sensação de que não temos saída, que o nosso futuro está comprometido, que não temos alternativa”. Para Maria Arminda e seu vice, o professor Paulo Borba Casella, da Faculdade de Direito (FD), a responsabilidade por esse mal-estar recai sobre os ajustes fiscais do reitor Zago.

“Parece que estamos presos a um destino inelutável, que é a incapacidade de encontrar alternativas para a chamada crise de financiamento da universidade”, disse a professora. “Confundiu-se saúde financeira, ajuste financeiro, equilíbrio financeiro com financeirização. Identificou-se autonomia universitária com normas que nos sufocaram”, explicou, citando como consequência disto a falta de servidores e o aumento no número de professores temporários.

Maria Arminda também afirmou que a universidade perdeu posições “não só em rankings, que são voláteis, mas diante de outras universidades públicas de São Paulo e até, em algumas áreas, diante de universidades privadas”. Segundo a professora, a proposta de seu programa é manter o equilíbrio financeiro da USP, mas negociando com “soberania e altivez”. “A autonomia não pode estar submetida a mecanismos financeirizados, frutos das corporações e do mundo global”, declarou a professora, em possível alusão ao acordo firmado em 2016 entre a Reitoria e a McKinsey&Company.

“Amadorismo ou populismo”

Em contraposição, a terceira chapa a se pronunciar, encabeçada pelo professor Ricardo Ribeiro Terra (FFLCH), defendeu o reitor. Segundo Terra, “Zago conseguiu salvar a universidade dos erros enormes da gestão anterior, que levou à falência da USP”, cabendo ao futuro reitor e sua equipe dar continuidade e ampliação ao “quadro de transformações realizado pela gestão que se encerra”. Em crítica às outras chapas, o professor defendeu a “sustentabilidade financeira” da USP e declarou que “qualquer amadorismo ou populismo levará ao desastre”.

Terra, que coordenou o extinto Grupo de Trabalho Atividade Docente (GT-AD), descreveu a USP como uma “federação frouxa de unidades” e propôs transformá-la em uma universidade de fato. Um dos requisitos para isso seria a estrutura de avaliação: “A CPA está sendo montada e fundamental que seja continuada na próxima gestão”. Quanto à estrutura de poder da USP, ele considera a noção de democracia universitária um equívoco: “Talvez, a longuíssimo prazo, o ideal seria ter um comitê de busca para a escolha do reitor”.

Professor da Escola Politécnica (EP) e vice-reitor afastado, Vahan Agopyan foi o último candidato a reitor a se apresentar e também defendeu a atual gestão reitoral, embora sem a mesma ênfase de Terra. Sem rebater diretamente as considerações de Sauer e de Maria Arminda, Vahan disse que a “universidade venceu uma etapa muito importante da sua consolidação como instituição que consegue superar crises financeiras”. Suas propostas são de continuidade, com foco em manter e ampliar a excelência da USP.

O candidato a vice-reitor da chapa de Agopyan, o pró-reitor de Graduação licenciado Antônio Carlos Hernandes, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), fez questão de reforçar que a universidade vive um “momento de esperança”. Hernandes afirmou que sua chapa tem um compromisso “com o trabalho, inclusive o que já foi realizado”, citando como exemplo a atual política de cotas da USP, aprovada em 4/7 pelo Conselho Universitário (Co). Naquela votação, no entanto, Vahan se absteve.