foto: Daniel Garcia

Realizado em 19/10, no auditório 5 da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), às vésperas da consulta oficial (23/10) e a onze dias da eleição (30/10), o terceiro e último debate entre os reitoráveis organizado pela Comissão Eleitoral representou uma mudança de patamar na discussão entre as quatro chapas, bem como na relação entre os movimentos sociais e as candidaturas. A polarização cresceu ao longo das quase duas horas e meia de debate, culminando com um vibrante protesto em defesa do HU.

fotos: Daniel Garcia

O candidato oficial, Vahan Agopyan (Chapa 1), mostrou nervosismo, elevou o tom da voz em diversas ocasiões e acusou desconforto com as críticas e vaias recebidas. O candidato oposicionista Ildo Sauer (Chapa 3) rebateu duramente insinuações feitas por e-mail pelo candidato situacionista Ricardo Terra (Chapa 4), a quem chamou de “porta-voz alugado” e “ventríloquo”.

Em mensagem eletrônica enviada três dias antes, Terra afirmara que a atuação de Sauer como diretor de Gás e Energia da Petrobras (2003 a 2007) “demanda maiores esclarecimentos”. A resposta foi implacável. “Tenho um grande orgulho da minha gestão na maior empresa do Brasil”, declarou Sauer no debate da FEA, ao tecer suas considerações finais. “Insinuar portanto o contrário, como faz o candidato alugado [Terra], mostra ignorância sobre o assunto”.

Ao designar assim o concorrente, Sauer remete ao fato de que a Chapa 4 é tida como instrumento criado pela Reitoria apenas para criar dificuldades aos candidatos de Oposição e atacá-los. Na discussão do tema “Creches”, ao ser questionado a respeito pela coordenadora do debate, jornalista Renata Cafardo, Terra preferiu delegar a resposta a seu vice, Albérico Ferreira, o qual por sua vez admitiu que precisava inteirar-se: “Quero entender qual é o problema. Não sou a favor de fechar”.

Deixar a zona de conforto

O comparecimento massivo de alunos da Faculdade de Medicina (FM), de ativistas da Ocupação Creche Aberta e de funcionários técnico-administrativos que coloriu o plenário e fez a diferença em relação aos debates anteriores, com muitas manifestações (tanto espontâneas como organizadas), bem como a necessidade das chapas de se diferenciarem na reta final do processo eleitoral, obrigaram os reitoráveis situacionistas a sair da zona de conforto.

Ao saudar a coordenadora do debate na sua fala inaugural, a candidata Maria Arminda (Chapa 2) deu o tom do que estava por vir, ao lamentar que se tratasse de uma “mesa dominantemente masculina”. Apesar do aparente nervosismo ao lidar com alguns temas, a professora invariavelmente recebeu aplausos. Ao terminar sua explanação inicial com uma citação de Antonio Candido (“O pensamento conservador é pessimista e arauto da catástrofe”), foi longamente aplaudida.

Depois da apresentação inicial das chapas, os candidatos discutiram, em rodadas específicas, quatro temas: HU, crise de financiamento, permanência estudantil e Creches. A discussão do primeiro e do último temas, em especial, deixou expostos os flancos das candidaturas situacionistas, afetando bastante o vice-reitor licenciado Vahan, candidato do reitor M.A. Zago. Certas afirmações suas foram recebidas pela plateia com perplexidade, gargalhadas e vaias.

“É óbvio que o HU é imprescindível para o ensino da USP. É isso que as pessoas não entendem”, declarou o candidato oficial, quando instado pela mesa a abrir a rodada sobre esse tema. “O que não está correto é o HU manter recursos para a região Oeste. O Estado e o município têm que arcar com as suas responsabilidades”, disse, levantando a voz, referindo-se ao financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Neste momento, ouviu vaias. Que se repetiram depois de suas afirmações de que “jamais os funcionários serão demitidos”, que “o HU é nosso” e de lamentar que “a pós-verdade continue prevalecendo”.

Em outro momento, após reconhecer que creche “é permanência, sim, acolhimento, não há dúvida nenhuma”, e alegar que as Creches da USP atendem cerca de 400 crianças, o que representa “apenas 10%, 12% das necessidades da nossa universidade”, Vahan declarou: “Ninguém vai fechar uma coisa que está funcionando”. A reação e as cobranças do plenário ao reitorável foram imediatas: “E a Creche Oeste?!?”. Ao responder que “A Creche Oeste foi otimização”, recebeu novas vaias.

“Mudanças de rota”

Ao contrário, as manifestações dos candidatos oposicionistas quanto aos mesmos tópicos foram mais convincentes e bem recebidas. “O HU é uma desmonstração cabal da incapacidade da liderança [atual] da USP. Vejo agora que há mudanças de rota”, principiou Sauer, lembrando que a gestão M.A. Zago-Vahan Agopyan tentou transferir o hospital para a Secretaria da Saúde e o governador Geraldo Alckmin recusou. (Em intervenção posterior, Sauer cumprimentou Vahan por “evoluir”, porque as considerações que este fez sobre o HU não constam do programa da Chapa 1.)

O candidato da Chapa 3 manifestou a opinião de que é possível “restaurar nos níveis adequados as duas soluções”, isto é, reestruturar o HU de modo a garantir tanto a formação adequada de profissionais das diferentes áreas da Saúde como o atendimento à população por meio do SUS, “ensino e pesquisa de alta qualidade e extensão”, o que exigiria buscar apoio na comunidade e negociar com as três esferas de governo. “Não vejo nenhuma contradição em cumprir as duas tarefas”. Ele elogiou a “equipe abnegada” que vem tocando o hospital apesar do desmonte e das crescentes dificuldades.

“A particularidade do HU é que ele se constituiu como um hospital-escola” e representa “um patrimônio inesgotável”, asseverou Maria Arminda. “Transferir o hospital [para outras esferas] ou fechar seções não é solução para nada”. Ela enfatizou que a USP formou-se “como uma universidade generosa e que buscou a inclusão”, que é uma instituição pública e, portanto, “tem o dever de ser parceira da sociedade”.

Quanto às Creches, Sauer manifestou recusa às soluções tecnocráticas. “As Creches têm dimensão maior do que parece à primeira vista”, disse, destacando seu papel no acolhimento e apoio aos estudantes. “Pesquisas realizadas nas Creches foram a base da adoção de políticas públicas nacionais”, assinalou, recebendo aplausos.

O vice de Maria Arminda, Paulo Casella, comentou que as Creches representam apenas 0,5% do orçamento de atividades integradas da USP, e que elas atendem a um “direito humano fundamental”.

Crise de financiamento

Maria Arminda apresentou dados que mostram como a expansão das três universidades estaduais, ocorrida a partir da década de 1990, deixou de ser acompanhada por um aumento correspondente dos repasses do Tesouro estadual.

Já na sua primeira intervenção, havia destacado a expansão do número de vagas registrada na USP desde 1995, de 80% na Graduação e de 120% na Pós-Graduação, havendo, inversamente, redução proporcional do corpo docente. Advertiu, então, que o ajuste fiscal não pode “atingir o coração da universidade”, isto é, as atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Na rodada específica, ela criticou, indiretamente, as opções da gestão atual da Reitoria. “O equilíbrio financeiro é um meio, não é fim. Não podemos viver o domínio da ideia de que só temos um único destino”. Também enfatizou que, não obstante a existência de fontes adicionais de recursos, “o financiamento fundamental tem que ser público”.

Vahan, por sua vez, disse que não houve crise, mas “um grande desequilíbrio financeiro”, que atribuiu a três fatores perversos: a expansão, os “gastos excessivos na gestão anterior” e a reversão do ICMS, ocorrida a partir de meados de 2014. “Claro que vamos enviar ofícios solicitando alteração da Quota-Parte [do ICMS], como faz o Cruesp”, declarou. Além de concordar com “buscar outras fontes de financiamento”, ele considera que deve haver contrapartidas específicas por contribuições da universidade à sociedade, dando como exemplo a “solução da crise hídrica, um projeto USP” em que “não houve retribuição”, a seu ver.

Sauer ironizou a atitude do candidato oficial, propondo, em troca, um diálogo institucional constante com os poderes executivo e legislativo: “Não basta mandar ofícios ao governo e à Assembleia Legislativa, como foi falado aqui. Não podemos colocar em risco a nossa autonomia. Precisamos inscrever na Constituição [Estadual] a Quota-Parte. Isso também exige liderança e diálogo, coisa que não temos visto até agora”.