“Fico muito preocupado porque nós não temos na USP recursos de fato para investimento. Uma universidade que gasta 85% com mão-de-obra e sobra 15% está mal. A universidade do meu sonho é: mão-de-obra no máximo 65%, 25% de custeio e 10% de investimento”. O autor desta frase é o provável futuro reitor da USP, professor Vahan Agopyan, o mais votado na eleição para composição da lista tríplice para reitor, em 30/10. Vahan é vice-reitor licenciado e foi o candidato do reitor M.A. Zago à sua sucessão.

Trata-se de uma declaração que ele deu aos repórteres da Revista Adusp, em fins de 2005, no âmbito de uma reportagem sobre a atividade de fundações privadas ditas “de apoio” à USP (“FDTE mantém em sigilo total sua movimentação financeira”, Revista Adusp 36, janeiro de 2006, p. 74-81). À época, Vahan era o diretor da Escola Politécnica (EP) e recusou-se a fornecer aos repórteres cópia do convênio firmado entre a FDTE e a EP.

Como já assinalado pelo Informativo Adusp 442, o vice-reitor, ex-pró-reitor de Pós-Graduação (na gestão de J.G. Rodas) e ex-diretor da EP tem laços tanto com as várias fundações privadas fortemente implantadas na sua unidade ou que com ela se relacio­nam (FDTE, Vanzolini, FUSP), como com interesses empresariais externos à USP, mas também presentes na universidade. Quando dirigiu a EP (2002-2006), Vahan estimulou a expansão dos cursos pagos do Programa de Educação Continuada em Engenharia (PECE), jactando-se do fato de que os certificados oferecidos contam com “selo USP”.

O perfil tecnocrático de Vahan parece ter se encaixado bem na gestão M.A. Zago. Como dito, ele participou da reunião entre o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o reitor, diretores da McKinsey e empresários “amigos da USP”, realizada no Palácio dos Bandeirantes em 5/9/2016. Naquela ocasião encontrou-se com antigos parceiros, como Rubens Ometto (Grupo Cosan) e Pedro Wongtschowski (Grupo Ultra). Ambos fazem parte do seleto grupo de fundadores do Fundo Amigos da Poli, lançado em 2012 com o objetivo de captar recursos da iniciativa privada para a EP e cujo Conselho Deliberativo era integrado por Vahan.

Outro dos fundadores do Fundo Amigos da Poli é Roberto Setúbal (Unibanco). Ometto, Wongtschowski e Setúbal, coincidentemente, estão entre os financia­do­res do Projeto “USP do Futuro”, a cargo da McKinsey&Company.

Nervosismo

Na mesma medida em que transita com facilidade pelo mundo dos negócios, Vahan parece avesso aos movimentos sociais. No principal debate da campanha de reitor, realiza­do em 19/10 no auditório FEA 5, ele reagiu mal à polarização e à presença de grupos organizados de estudantes e funcionários: mostrou nervosismo, elevou o tom da voz em diversas ocasiões e acusou desconforto com as críticas e vaias recebidas.

Compareceram ao debate, em grande número, alunos da Faculdade de Medicina (FM), ativistas da Ocupação Creche Aberta e funcionários técnico-administrativos. Depois da apresentação inicial, os reitoráveis discutiram, em rodadas específicas, quatro temas: HU, crise de financiamento, permanência estudantil e Creches. Certas afirmações de Vahan foram recebidas pela plateia com perplexidade.

“É óbvio que o HU é imprescindível para o ensino da USP. É isso que as pessoas não entendem”, declarou o candidato oficial, quando instado pela mesa a abrir a rodada sobre esse tema. A explicação, incoerente por vir de uma gestão que nunca escondeu que pretendia descartar o hospital, provocou risadas irônicas. “O que não está correto é o HU manter recursos para a região Oeste. O Estado e o município têm que arcar com as suas responsabilidades”, prosseguiu, referindo-se ao financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Neste momento, ouviu vaias. Que se repetiram depois de suas afirmações de que “jamais os funcionários serão demitidos”, que “o HU é nosso” e de lamentar que “a pós-verdade continue prevalecendo”. Por fim, teve de ouvir o coro “Fora, Vahan!”.

Em outro momento, após reconhecer que creche “é permanência, sim, acolhimento, não há dúvida nenhuma”, e alegar que as Creches da USP atendem cerca de 400 crianças, o que representa “apenas 10%, 12% das necessidades da nossa universidade”, Vahan declarou: “Ninguém vai fechar uma coisa que está funcionando”. A reação e as cobranças do plenário ao reitorável foram imediatas: “E a Creche Oeste?!?”. Ao responder que “A Creche Oeste foi otimização”, recebeu novas vaias.

Ao final do debate, os reitoráveis continuaram sentados nos seus lugares à mesa do auditório quando a presidenta do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), da FM, Malu Corullon, subiu ao palco para se pronunciar. “O HU está sendo absolutamente desmontado”, disse ao microfone a estudante, que fez questão de rebater declarações feitas pouco antes por Vahan. “O ensino não está sendo mantido. Não foi só o atendimento à população, até o ensino foi prejudicado”, denunciou, esclarecendo que há um déficit de 10 médicos no Pronto Atendimento da Pediatria e que agora, com a demissão de mais uma médica assistente, a escala de plantões “não fecha”, afetando os estágios dos alunos da FM.

Malu relatou que a decisão de paralisar aulas e comparecer ao debate foi tomada em 18/10 por uma assembleia geral do CAOC da qual participaram “quase 450 alunos”, a qual decidiu exigir da Reitoria a contratação de oito assistentes para a Pediatria, a realizar-se até 30/10. Em meio a tudo isso, Vahan consultava seu celular.

Informativo nº 443