Foto: Daniel Garcia

Ainda que sob pressão, o continuísmo venceu. A Chapa 1, liderada pelo vice-reitor licenciado Vahan Agopyan (EP), foi a mais votada pelo colégio eleitoral no processo de eleição da lista tríplice para reitor(a) da USP, em 30/10, recebendo 1.092 votos. Contudo, as Chapas 2 e 3, de Oposição, lideradas por Maria Arminda Arruda (FFLCH) e Ildo Luis Sauer (IEE), obtiveram respectivamente 840 votos e 594 votos. A Chapa 4, do situacionista Ricardo Terra (FFLCH), obteve 163 votos. Participaram da eleição da lista tríplice 1.949 eleitores, cada um deles podendo votar até três vezes. Houve 3.035 votos em branco e 123 votos nulos.

A lista tríplice foi encaminhada ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), a quem caberá escolher e nomear o próximo reitor ou reitora. Dada a ausência de qualquer questionamento ao governador por parte da Reitoria no tocante à crise de financiamento da universidade, bem como, por outro lado, o apoio de Alckmin ao desmonte da USP, acredita-se que ele deverá homologar a escolha feita pelo colégio eleitoral, isto é: a Chapa 1, de Vahan. Estará garantida, assim, a continuidade do perverso processo de destruição da USP.

O desfecho do processo eleitoral traz à tona suas graves distorções. A eleição indireta da lista tríplice envolveu tão somente 1,8% da comunidade. Das cerca de 108 mil pessoas que integram atualmente a USP, entre funcionários, estudantes e docentes, 106 mil foram excluídas da votação decisiva. A composição do colégio eleitoral, ou “Assembleia Universitária”, com participação de 85% dos docentes, não respeita sequer a Lei de Diretrizes e Bases (que determina 70%). A Consulta realizada em 23/10, que envolveu mais de 9 mil pessoas e evidenciou a preferência majoritária pela Oposição, teve caráter meramente indicativo.

Incidentes

A disputa política entre os reitoráveis foi marcada, em primeiro lugar, pelo ritmo e pelo enquadramento impostos pela Reitoria. Foi uma campanha muito curta, a começar pelo exíguo prazo de uma semana concedido para a inscrição de chapas candidatas, e contou com pequeno número de debates oficiais. Em segundo lugar, foi marcada por alguns incidentes notáveis, que fizeram desta uma campanha sui generis.

As chapas 2 e 3 denunciaram, por exemplo, a manipulação dos resultados da Consulta à comunidade, tanto pela Comissão Eleitoral, incumbida de conduzir o processo, como pela própria Reitoria. Na avaliação da Chapa 2, de Maria Arminda, o resultado inequívoco da Consulta foi que as chapas oposicionistas “receberam o maior número de votos, ficando em primeiro e segundo lugares, à frente das chapas da situação”, esperando-se, portanto, “que a divulgação oficial do resultado da Consulta fornecesse à comunidade o cálculo total da votação em primeira mão, reforçando o caráter democrático do pleito entre as três categorias”.

Assim, registrou em nota oficial, “fomos todos surpreendidos com o teor do texto encaminhado no dia 24/10 pela Comissão Eleitoral que, em letras maiúsculas, consagrou a chapa da situação encabeçada pelos professores Vahan Agopyan e Antonio Carlos Hernandes como sendo os ‘preferidos dos docentes’, enquanto uma das duas chapas de oposição ganhava a preferência dos servidores e discentes. Este cenário não retrata com justiça o resultado da Consulta pública, e seu verdadeiro sentido, que foi o da reprovação à atual gestão e rejeição da sua continuidade pela maioria dos votantes”.

Por outro lado, destacou, “surge ainda a dúvida quanto aos reais motivos que fizeram com que o comitê editorial do Jornal da USP substituísse de forma abrupta seu texto inicialmente publicado na noite de 23/10, quando da divulgação do resultado da Consulta ― onde se lia ‘A Chapa 2, formada pelos professores Maria Arminda do Nascimento Arruda e Paulo Casella, foi a mais votada’ ― pela nova chamada enalte­cendo o resultado obtido pela chapa da situação com a votação do corpo docente”. “Cabe salientar aqui que a editoria na qual foi publicada a matéria é de responsabilidade da Assessoria de Imprensa da USP, subordi­nada ao Gabinete do Reitor”.

“Censura”

A Chapa 3, de Ildo Sauer, igualmente expressou seu desacordo “com a divulgação tendenciosa, feita pela Comissão Eleitoral, dos resultados da Consulta à comunidade sobre a disputa para reitor da USP”, bem como seu protesto “contra a censura feita ao Jornal da USP, que foi obrigado a modificar a matéria de análise do resultado”.

Digna de reparo, também, foi a decisão unilateral da Comissão Eleitoral de alterar as regras da Consulta, permitindo o voto em apenas uma chapa. Na primeira Consulta, realizada previamente às eleições de 2013, os eleitores puderam votar em até três chapas. A mudança, que não mereceu explicações por parte da Comissão Eleitoral ou da Reitoria, certamente evitou uma vitória mais expressiva dos candidatos oposicionistas.

Outro aspecto a ser destacado, por sua novidade, foi a intervenção explícita de dois ex-reitores em mensagem eletrônica encaminhada em 27/10 aos docentes, funcionários técnico-administrativos e alunos da USP: “Os ex-reitores Adolpho José Melfi e João Grandino Rodas, ao ensejo das eleições para a Reitoria da nossa Universidade, a se realizar no dia 30 do corrente, após terem examinado os planos de gestão das quatro chapas inscritas, o desempenho dos candidatos nos cargos anteriormente ocupados, bem como o resultado da Consulta à Comunidade, consideram as chapas abaixo (pela ordem da respectiva inscrição), como as mais aptas para renovar a USP e conduzi-la a destino seguro: Chapa 2 - Maria Arminda do Nascimento Arruda e Paulo Borba Casella [e] Chapa 3 - Ildo Luís Sauer e Tércio Ambrizzi”.

Insatisfação

O processo eleitoral revelou “uma universidade que está substancialmente insatisfeita com o status quo”, declarou Sauer ao Informativo Adusp, quando instado a comentar os resultados de 30/10. “A soma dos votos daqueles que acham que ela deveria mudar urgentemente superou em muito os votos daqueles que querem manter o status quo, manter a situação atual”. Ainda segundo o reitorável, “esse processo poderia ter sido uma oportunidade única de reflexão sobre a situação da universidade, se permitisse mais tempo, com debate e com o acesso da comunidade”.

Há uma tendência de inconformidade com a situação atual”, enfatizou Sauer. “Apesar de o processo eleitoral ter permitido alguma reflexão, ela não foi ampla nem profunda o suficiente porque o acesso das congregações e da comunidade — servidores, professores e estudantes — foi muito restrito, e obviamente quem está no poder e controla a máquina tem muito mais capacidade de se comunicar porque faz isso há quatro anos, para não dizer oito”.

Maria Arminda, por sua vez, emitiu nota na página da Chapa 2 no Facebook, por meio da qual conclama a comunidade universitária à “união” em defesa da USP: “Em primeiro lugar, eu quero agradecer a votação expressiva da Assembleia Universitária, que confirma o resultado manifestado na consulta pública a toda comunidade uspiana. Independentemente do resultado obtido por cada chapa, é o momento de união de todos em prol da nossa Universidade, condição para superar os nossos problemas e enfrentar os desafios do futuro. Todos devemos estar unidos agora. A USP precisa dos seus professores, estudantes e funcionários nesse momento tão importante da nossa trajetória”.

“Em que pese o descontentamento generalizado com a gestão M.A. Zago, expresso nos debates, na Consulta e mesmo nas eleições, a Reitoria conseguiu colocar em primeiro lugar o seu candidato Vahan. A margem da vitória, contudo, foi pequena considerando os padrões habituais e existe um desconforto evidente, que terá de ser enfrentado pela nova gestão reitoral”, avalia o professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp.

“A vitória de Vahan, para além do peso da Reitoria e dos interesses mais ligados aos seus projetos, particularmente os setores ligados às fundações privadas, pode ser explicada pela vitória do discurso falacioso de que a política de desmonte da USP é a única opção para a crise de financiamento”, acrescenta.

“Porém, como vai ficar cada vez mais claro, a aplicação dos Parâmetros de Sustentabilidade, considerando o atual quadro de recursos, exigirá ainda um longo processo de desmanche da universidade, de arrocho salarial e de rebaixamento das condições de trabalho, seja dos técnicos-administrativos, seja dos professores. Neste sentido, a insatisfação com a Reitoria e a rejeição a esta política de destruição tendem a crescer cada vez mais. A Adusp continuará se opondo ao projeto iniciado por M.A. Zago e cujo continuador é Vahan”.

Informativo nº  443