foto: Paulo Lima

Diretor comparece, nega constrangimentos com o MST, mas esquiva-se das críticas à sindicância aberta contra o diretor regional da Adusp.

Cerca de 300 pessoas lotaram o Anfiteatro da Engenharia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP), em Piracicaba, para assistir à mesa redonda “Universidade como patrimônio público a serviço da sociedade: reforma agrária, agricultura familiar, agroecologia e liberdade de expressão”, realizada em 28/11 em resposta à sindicância aberta pela direção da escola contra o professor Marcos Sorrentino.

A sindicância teve como estopim a falsa denúncia de “invasão” do campus pelo Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), que teria ocorrido durante a realização da IV Jornada Universitária de Apoio à Reforma Agrária (JURA), em abril deste ano. Alega-se que o gramado diante do prédio histórico central da ESALQ não poderia ter sido utilizado.   

Trabalhadores sem terra, estudantes, funcionários, docentes da ESALQ e de outras instituições de ensino, ativistas da reforma agrária e pesquisadores da agroecologia, bem como representantes de diversos grupos, sindicatos e movimentos sociais, compareceram para prestar solidariedade a Sorrentino,  defender a necessidade de reforma agrária no país e exigir maior envolvimento da ESALQ nessa pauta nacional. A Adusp se fez representar por seu presidente, professor Rodrigo Ricupero, sua primeira secretária, professora Ana Luiza da Costa, e pela advogada Lara Lorena.

Fotos: Paulo Lima
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O diretor da escola, professor Luiz Gustavo Nussio, integrou a mesa redonda. Nos seus dois pronunciamentos, ele procurou apresentar a repercussão negativa do caso como um problema de “comunicação” e evitou entrar em detalhes sobre a sindicância. “Este episódio [a mesa redonda] é muito bem visto e se soma ao conjunto de contribuições da nossa casa [a ESALQ]. A gente se comunica mal com vários clientes [sic], entre eles a nossa sociedade. Temos contribuições antigas da ESALQ nas áreas de escopo desse evento: agricultura familiar, agroecologia e, definitivamente, reforma agrária”.

Ainda segundo Nussio, essa diversidade de áreas de interesse é compatível com a proposta acadêmica da ESALQ: “Nosso principal produto são as pessoas que formamos, num ambiente plural, expostas a várias narrativas, para que possam mudar o mundo”. A unidade tem 230 docentes, quase 750 funcionários e cerca de 3.500 alunos de graduação e pós-graduação.

“Não há nenhum constrangimento neste evento”, insistiu o diretor. “Reitero que fazemos isso há muito tempo. A ESALQ é bem reputada, entre outras coisas, também por isso. A comunicação é um problema. Não houve por parte desta direção a compreensão de que estivéssemos sendo atingidos negativamente pelo MST. O que temos é um conjunto de regramentos, que precisam ser observados”, disse em alusão à sindicância.

Também compuseram a mesa Luiz Carlos Guedes Pinto, ex-ministro da Agricultura e ex-pró-reitor da Unicamp; Gilmar Mauro, membro da coordenação nacional do MST; Luciana Jacob, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA); Mariana Lemos, representante da União Nacional dos Estudantes (UNE); Alcimir Antonio do Carmo, assessor da Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp); e o professor Rodrigo Ricupero. O evento foi conduzido por frei Tito, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e foi pontuado por canções, declamação de poesias e apresentações coletivas que mesclaram estudantes e trabalhadores rurais.

Universidade e Agroecologia

“A universidade é uma instituição social, não é separada do restante da sociedade. Não é só composta por visões diferentes de mundo, mas por visões conflitantes”, advertiu Luciana Jacob. A seu ver, o paradigma do agronegócio é o que prevalece na agricultura brasileira e nas escolas de agronomia do país, e “os currículos são atravessados por relações de poder”. Citou, como exemplo, que as disciplinas ligadas à agroecologia representam apenas 2% dos currículos universitários de agronomia, ressalvando porém que a ESALQ é a escola que mais aborda essa temática.

Para Luciana, as universidades “vêm se aproximando do mundo empresarial”, relegando a segundo plano grupos sociais subalternos, os quais tornam-se vítimas do que chamou de “silenciamento epistemológico”, isto é: deixam de existir como questões de interesse científico. “Camponeses, indígenas, quilombolas foram colocados de lado. Ou são mortos fisicamente, ou sofrem epistemicídio”. O modelo agrícola da monocultura (cana, soja) resultaria, assim, no plano do ensino, na “monocultura do saber”, uma vez que os conhecimentos que lhe são estranhos são considerados “tradicionais”, “alternativos”, “residuais”.

O modelo agrícola atual, sustentou, caracteriza-se pelo emprego de agrotóxicos, disseminação de transgênicos e perda de solos, e “está subtraindo o futuro da humanidade rapidamente”. Assim, diz ela, a agroecologia tem de ser pensada “enquanto um projeto contra-hegemônico de agricultura”, que envolve “alargar a nossa racionalidade, incluir todos os grupos sociais do campo”.

Latifúndio e Universidade

O professor Ricupero iniciou com um rápido comentário sobre o “processo de destruição da universidade pública no Brasil”, citando como maior exemplo a trágica situação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Observou que, no caso da USP, o desmonte se dá por meio da privatização da pesquisa e da deterioração do ensino. “É um processo em curso, que se choca com os movimentos sociais”, esclareceu, ao passo que “bancos e fundações [privadas] têm tapete vermelho”.

Passando ao conflito existente na ESALQ, Ricupero lembrou que a escravidão e o latifúndio marcam a história do Brasil. Explicou que, no período colonial, o interior do país foi conquistado por populações pobres, e que posteriormente os latifúndios se formaram por meio da ação de poderosos do litoral, que, conluiados com os governadores da Coroa, “mandavam capangas” para tomar as terras já desbravadas. “Desse modo, a população que conquistou o interior virou foreira” (isto é: obrigada a prestar serviços ou pagar pela terra).

“O latifúndio manteve e mantém controle pesado sobre uma larga fatia da população brasileira”, prosseguiu o presidente da Adusp. “É muito simbólico o MST estar aqui na ESALQ. Se o MST estivesse esperando o convite ele nunca teria sido feito”, disse, recebendo fortes aplausos. “Ou vamos em frente ou seremos sempre derrotados e nunca vamos conseguir derrotar esses entraves”.

“Alegria muito grande”

Luiz Carlos Guedes, que é ex-aluno da ESALQ (onde ingressou cinquenta e sete anos atrás) e fundador da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), exerceu o cargo de ministro da Agricultura entre 2006 e 2007, no primeiro governo Lula, sucedendo o empresário Roberto Rodrigues. “Sinto uma alegria muito grande por estar aqui”, disse ele, esclarecendo que só teve contato com a chamada agricultura empresarial no Ministério da Agricultura (do qual também foi secretário-executivo). “É neste ambiente que me sinto partícipe da sociedade brasileira”, enfatizou em referência à forte presença de trabalhadores sem terra no auditório.

O ex-ministro relatou haver conhecido João Pedro Stédile em 1976, portanto antes da criação do MST, que se daria em 1984. A ABRA surgiu em 1977. “Nomeei João Pedro delegado da ABRA no Rio Grande do Sul”, contou. Disse que, quando pró-reitor da Unicamp, em 1998, organizou, a pedido de Stédile, um  Encontro Nacional do MST naquela universidade, do qual participaram 1.300 militantes de todo o Brasil. “Alojamos num ginásio, o pessoal ficou cinco dias na Unicamp”.

Guedes classificou o momento atual do país como de retrocesso e destacou que a sociedade brasileira é “tremendamente desigual”, mas também manifestou otimismo em razão dos pequenos avanços conquistados: “Um encontro como esse seria inconcebível cinquenta anos atrás”. “A economia brasileira nasce do latifúndio e do trabalho escravo”, afirmou, manifestando concordância com o professor Ricupero. “A sociedade brasileira é das mais excludentes do mundo. Nosso desafio é transformar a sociedade em encontros como este”, arrematou, bastante aplaudido.

Reforma agrária, causa da sociedade

Gilmar Mauro argumentou que “a luta pela terra não é a luta dos sem terra, nem pode ser”, porque “é uma causa da parcela mais significativa da soeiedade”. A partir dessas considerações, o dirigente do MST apresentou uma série de questionamentos. “Precisamos definir que uso queremos dar ao solo, à água e aos recursos naturais. A destruição ambiental de biomas, como a do Cerrado, talvez não tenha volta. Que tipo de alimento queremos? Os das gôndolas dos supermercados? Queremos o paradigma da grande produção agrícola?”

Ele abordou a questão da tecnologia e a necessidade da troca de conhecimentos entre a universidade e os trabalhadores rurais. “Não pensem que queremos uma volta ao passado, com junta de bois. Queremos uma tecnologia que reduza a penosidade do trabalho agrícola e libere o trabalhador para estudar e desenvolver a sua subjetividade”. Continuou: “Precisamos aproximar o campus do campo. Nós somos movimento de massas, de gente, e como gente temos muitos problemas”.

Sem citar o candidato presidencial da extrema-direita, que falou em armar os fazendeiros, Gilmar refutou tais provocações: “Nós estamos ‘armando’ os sem terra, mas com livros e conhecimentos. Não vamos aceitar golpismos, nem fascismos. Não queremos guerra, mas não vamos correr de qualquer discurso que façam contra nós”. Disse ainda que o Brasil precisa superar a ignorância política, ampliar os horizontes da democracia, do conhecimento e da liberdade.
“Precisamos plantar a solidariedade aqui e agora”, concluiu, sob aplausos.

“Agronegócio forte” e luta de classes na USP

O jornalista Alcemir do Carmo defendeu a liberdade de expressão e criticou a inexistência de reforma agrária no país. Na opinião do assessor da Feraesp, a ESALQ discrimina negativamente a OCA, grupo acadêmico do professor Marcos Sorrentino: “O agronegócio está muito forte aqui. Teve um tratamento diferente do JURA”.

Carmo mencionou ocasião em que a Feraesp levou trabalhadores rurais de outros países para conhecer a ESALQ “e parte da comunidade torceu o nariz”, o que ele atribuiu à “cultura burguesa” e ao preconceito. No entanto, acrescentou, a agricultura brasileira não vive só de tecnologias: “A maior parte dos alimentos do país é produzida pelos pequenos proprietários”.

Mariana Lemos, da UNE, destacou a necessidade de defesa da democracia, da educação, da universidade pública e de um outro projeto de país. “A gente vive um golpe, que desfez a nossa democracia. O pacto de 1988 [Constituinte] foi rompido. Há um aumento do conservadorismo e do fascismo em vários espaços, na universidade também”, registrou.

“Que conhecimento é este, a quem serve? Às classes dominantes ou ao povo?”, indagou sobre o papel social da instituição. Ela citou a sindicância relacionada ao JURA e a luta por cotas na USP como exemplos da luta de classes dentro da universidade. “A universidade não é patrimônio de ninguém, pertence ao povo”, frisou.

“Prêmio Paulo Kageyama”

A rodada de intervenções do plenário foi iniciada pelo próprio professor Sorrentino, que anunciou a criação do “Prêmio Paulo Kageyama de Agricultura, Reforma Agrária e Agroecologia”, em homenagem ao falecido docente da ESALQ, organizador da primeira edição da JURA.

“Nossa gratidão a todos os manifestos de apoio contra essa sindicância equivocada”, declarou Sorrentino. “Isso nos deixou enormemente felizes. Nossa luta é por um Brasil melhor, por pão, terra, trabalho, emprego para todos os brasileiros. Gente é pra brilhar”.

Porta-vozes de diversos grupos e entidades revezaram-se no microfone. Uma das intervenções mais marcantes foi a de Eunice Pimenta, militante do MST. Ela se dirigiu diretamente ao diretor da ESALQ, de modo educado porém desconcertante, arrancando risos e aplausos do plenário: “Eu me surpreendi, de todo coração, com a sua fala. [Mas] você não falou nada da sindicância. Não dá para acabar com essa sindicância? Não é possível admitir um trem desses!”

Também o professor Antonio Almeida, da ESALQ, se manifestou contra a perseguição ao colega: “O professor Marcos Sorrentino tem uma importância muito grande aqui. É ridículo para essa casa que essa sindicância exista. O que aconteceu no Gramadão? Nada. Fofoca, coisa difamatória. Eu participei, não fui chamado. A ESALQ precisa mudar”.

Nas considerações finais dos integrantes da mesa, o professor Ricupero reforçou a cobrança à direção da unidade: “Quero reforçar a preocupação com a sindicância. Estamos acompanhando a situação preocupados. Estamos aqui com o Marcos, que é diretor regional da Adusp, em apoio a ele”.

Último a falar, o professor Nussio pareceu imune às críticas e pressões em favor do arquivamento da sindicância: “Devo reconhecer que de fato é um evento que traz adição ao conteúdo que temos na nossa casa. A ESALQ ganhou muito hoje com este evento. Fica claro para todos que não há nenhuma sanção de conteúdo. Mas nós temos nossos protocolos, regras que precisam ser seguidas”.