Ao alegar que entregou “universidade pacificada”, ex-reitor omite que a Reitoria foi cercada por grades e que usou a PM para agredir manifestantes

Em mensagem à comunidade universitária publicada em 22/1, Marco Antonio Zago apresentou um balanço da sua gestão reitoral, que se encerraria no dia 24/1. Na carta de duas páginas, ele comemora o fato de que “recuperamos a posição de universidade pública paulista com o menor dispêndio com pessoal”. Uma tabela inserida no texto, intitulada “Variação do Quadro de Pessoal” da USP, apresenta dados dramáticos que, no entanto, o hoje ex-reitor considera favoráveis: desligamento de 217 docentes e de 3.786 funcionários técnico-administrativos, entre 2013 e 2017.

“O hoje ex-reitor alega que ‘encerramos o ano com um comprometimento médio com gastos de pessoal no segundo semestre de 2017 de 92% (no mês de dezembro esse valor foi de 83%)’, porém tal afirmação esconde alguns detalhes que merecem ser pontuados”, adverte o professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp. “Segundo o Informativo Codage de dezembro, o comprometimento acumulado era de 96,41%, dado que a Reitoria sempre utilizou, e não a novidade do ‘comprometimento médio do segundo semestre’, que tradicionalmente é mais baixo dado o aumento do ICMS. O próprio resultado de dezembro, comemorado por ele, é muito mais fruto do aumento da arrecadação do que de qualquer economia interna”.

O professor Ricupero contesta, ainda, a carta de M.A. Zago no tocante a estarmos próximos das metas dos “Parâmetros de Sustentabilidade”, e observa, ao mesmo tempo, que tal opção por uma política de “ajuste fiscal” implica um alto custo para a universidade. “Considerando-se os números corrigidos, a queda no comprometimento teria sido de cerca de 106% para 96,41%, portanto quase 10%. Contudo, pelos ‘Parâmetros’ o ideal seria 80%, ou seja: ainda faltam 16%. Ao fim e ao cabo precisaríamos de mais uma ou duas gestões de austeridade para chegar a tal número. Mas qual seria o preço disso para a USP? Quantos órgãos mais teriam de ser fechados? Quantos professores temporários serão contratados? Quantos professores efetivos deixarão de ser repostos?”

Ainda na carta, M.A. Zago insiste no discurso de que, ao inaugurar sua gestão no início de 2014, encontrou uma universidade em crise causada por seu predecessor, J.G. Rodas. Apesar de haver atuado na gestão do reitor J.G. Rodas, exercendo o destacado cargo de pró-reitor de Pesquisa, M.A. Zago alega que as informações sobre a situação financeira da USP “não estavam disponíveis para o Conselho Universitário [Co] e para a maioria das pessoas que faziam parte da administração”.

Acordo com a McKinsey contradiz discurso de “transparência”

O hoje ex-reitor declara estar convicto de que seu “maior progresso” foi no campo da “transparência de gestão”, deslembrando diversos episódios denunciados pelas entidades de representação e especialmente pela Adusp. “Submetemos sistematicamente informações, dados e decisões à análise colegiada no Co, sem me furtar a assumir a responsabilidade que cabe exclusivamente ao gestor. Vem daí a efetividade das mudanças estruturais, pois as pessoas estão informadas e assumiram responsabilidades”, afirma, solerte, M.A. Zago, omitindo qualquer referência a um dos maiores escândalos da gestão: o acordo clandestino entre a Reitoria, a consultoria internacional McKinsey&Company e a “organização social” Comunitas.

O “Acordo de Cooperação” firmado entre a USP e a McKinsey, com anuência da Comunitas, visando à criação de modelos de captação de recursos e “aprimoramento” da gestão financeira e administrativa, envolveu a quantia de R$ 5 milhões. As tratativas entre as três partes iniciaram-se em 2015, à inteira revelia do Co, e o acordo somente veio a público em setembro de 2016, depois que a direção da Adusp tomou conhecimento do caso por meio de uma denúncia anônima e exigiu explicações da Reitoria.

Só dois dias após a publicação da denúncia na página digital da Adusp é que os extratos dos documentos foram publicados pelo Diário Oficial. Já o Co tomou conhecimento do acordo apenas em outubro, por meio de uma mal costurada e incompleta comunicação verbal do reitor. M.A. Zago deixou para informar ao Co apenas em dezembro os nomes dos seis magnatas envolvidos no projeto e aos quais coube “doar” à Comunitas os R$ 5 milhões.

A falácia do alegado progresso na “transparência de gestão” torna-se ainda mais evidente pelo fato de que até este momento a Reitoria não divulgou a totalidade dos documentos do caso McKinsey, nem sequer os resultados oficiais do trabalho desenvolvido pela consultoria, mesmo após vitória da Adusp contra a gestão M.A. Zago, em ação judicial amparada pela Lei de Acesso à Informação, em julho de 2017.

Também não houve transparência no tocante à relação da USP com as fundações privadas ditas “de apoio”. Denúncias envolvendo a Fundação USP (FUSP) e a Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), em projetos remunerados de docentes da Escola Politécnica, foram abafadas. Os cursos pagos oferecidos pela universidade tornaram-se uma indústria de quase R$ 90 milhões por ano. No campus de Ribeirão Preto, a Fundace continua utilizando ao seu bel prazer a logomarca da USP, ao passo que a Faepa seleciona e contrata docentes da Faculdade de Medicina (FMRP)!

Resistência aos desmandos da gestão foi omitida

Por fim, o hoje ex-reitor jacta-se de que “entregamos [sic] uma universidade pacificada, livre de invasões sistemáticas, ‘trancaços’ e greves programadas”. Além de deixar clara sua oposição, por princípio, aos movimentos sociais e sindicais que lutam por uma universidade pública de qualidade, M.A. Zago falta com a verdade ao desqualificá-los com acusações toscas (como “greves programadas”), bem como ao omitir os muitos episódios de resistência aos desmandos de sua gestão.

A intransigência de M.A. Zago e de seu então vice Vahan Agopyan provocou, em 2014, a mais longa greve de funcionários e docentes da história da USP, com mais de noventa dias de paralisação, como resposta ao reajuste salarial zero proposto pelo Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) por pressão do reitor da USP. Além disso, a Reitoria teve de enfrentar as diversas ações do movimento negro por cotas étnicas, afinal vitoriosas, quando o Co aprovou esse mecanismo, no último ano da gestão; ocupações como a da Creche Oeste, em reação à criminosa desativação dessa unidade pela Reitoria; e greve de estudantes da Medicina e Enfermagem em defesa do Hospital Universitário (HU), para citar apenas alguns exemplos.

A carta do hoje ex-reitor silencia quanto à situação desastrosa do HU, produzida por sua gestão e que ocasiona enorme sofrimento para a população da região do Butantã, além de danos crescentes para o ensino dos cursos da área de saúde da universidade, razões da greve estudantil realizada em 2017 e de vários outros protestos desde 2014. Da mesma forma, deixa de mencionar a estranha condição do Hospital de Reabilitação de Anomalias Cranio-Faciais de Bauru (HRAC, ou “Centrinho”), transformado, já em agosto de 2014, na exótica figura institucional de “entidade associada” à USP.

A tal “universidade pacificada” de M.A. Zago mostra-se ainda mais absurda tendo em vista as grades construídas apressadamente (e sob escolta de armas pesadas da Polícia Militar) ao redor do prédio da Reitoria e da “Prainha” da Escola de Comunicações e Artes; a militarização do policiamento no campus central, por meio do “Sistema Koban” da PM; e os decorrentes e sucessivos episódios de desnecessária violência policial, em especial a bárbarie presenciada no dia 7/3/2017, quando centenas de estudantes, funcionários e professores foram atacados e perseguidos por um pelotão de choque da Força Tática da PM e pelos agentes do “Koban” para possibilitar a votação, no Co, da proposta de ajuste fiscal denominada “Parâmetros de Sustentabilidade Financeira”. Estas e outras questões são objeto de amplo balanço crítico disponível na Revista Adusp 61.