Patrícia Ellen, da McKinsey, é professora do Centro de Liderança Pública, mantido por grandes grupos e seus executivos e que procura “desenvolver” gestores públicos

Cabe à consultoria McKinsey&Company desenvolver para a USP, em cooperação com a universidade (e com a Comunitas), um “modelo de captação de recursos e de aprimoramento da gestão administrativa e financeira”, o qual incluiria, segundo a denúncia recebida pela Adusp, propostas de mudanças na legislação que permitam a cobrança de mensalidades, proibida pelo artigo 206, inciso IV da Constituição Federal.

Nos documentos relacionados ao projeto “USP do Futuro” firmados pela USP com a consultoria e a Comunitas, a administradora Patrícia Ellen da Silva, representante da McKinsey, ora aparece como membro da “Coordenação Técnica e Administrativa da presente doação” e integrante da “Coordenação do Projeto” (no Termo de Doação, cláusula sexta), ora como membro da “Coordenação Técnica e Administrativa do presente Acordo” (no Acordo de Cooperação, cláusula sétima). Os outros coordenadores nomeados nesses documentos são o professor Américo Ceiki Sakamoto (FMRP-USP) e Patrícia Pereira Loyola (Comunitas).

Patrícia Ellen da Silva é sócia e diretora da subsidiária brasileira da McKinsey&Company. Porém, vincula-se ainda a outra entidade privada: é professora do Centro de Liderança Pública (CLP), uma organização “sem fins lucrativos e apartidária” e que “desenvolve líderes públicos empenhados em promover mudanças transformadoras por meio da eficácia da gestão e da melhoria da qualidade das políticas públicas”.

Entre os cursos oferecidos pelo CLP destaca-se o “Master em Liderança e Gestão Pública” (MLG), “um curso de pós-graduação lato sensu concebido para gestores públicos que desejam fazer a diferença na gestão do governo”, a um preço (ou “investimento total”) “de R$ 48.000, [valor] que pode ser dividido em até 15 parcelas iguais”.

O CLP tem entre seus mantenedores os bancos BTG Pactual e Credit Suisse e a Bolsa de Valores (Bovespa). O Conselho do CLP é constituído por José Roberto Marinho (vice-presidente do Grupo Globo), Pedro Parente (presidente da Petrobras e ex-ministro), Ana Maria Diniz (Grupo Península), Eduardo Mufarej (Tarpon e Grupo Somos Educação, “maior empresa de educação básica e pré-universitária do Brasil”) e Fábio Barbosa (ex-presidente do Grupo Santander, da Febraban e da Editora Abril). O presidente do CLP é o empresário Luiz Felipe d’Avila. Parente e d’Avila são professores do referido curso lato sensu MLG.

Em 2015, o CLP lançou o Índice de Oportunidades da Educação Brasileira (IOEB), segundo o qual “Sobral, Groaíras e Porteiras, no Ceará, são os 3 municípios brasileiros que oferecem as melhores oportunidades de educação para crianças e adolescentes de todo o Brasil”. O IOEB, prossegue o site do CLP, “tem apoio do Instituto Península, Fundação Lemann e Fundação Roberto Marinho”.

Estados Unidos

O CLP também promove, desde 2014, um evento anual denominado Diálogo Estratégico Brasil-Estados Unidos – CLP/Aspen Strategy Group, que aborda temas como segurança nacional, áreas de cooperação entre os dois países e livre comércio: “Nos dias 15, 16 e 17 de outubro de 2015, o CLP e o Aspen Institute, com apoio da Rede Globo, organizaram o 2º Diálogo Estratégico Brasil-Estados Unidos – CLP/Aspen Strategy Group. O evento é palco de discussões sobre temas centrais para o desenvolvimento dos países e a relação Brasil-Estados Unidos. Realizado na Rede Globo, o evento reuniu importantes figuras do meio empresarial brasileiro e figuras da indústria e diplomacia estadunidense”.

O currículo profissional de Patrícia Ellen na página digital do CLP informa que ela “está há mais de 10 anos” na McKinsey. A Junta Comercial (Jucesp) registra que a McKinsey Brasil foi constituída em 2003, mas com “início de atividade” em 1974. Seu capital atual: R$ 14,268 milhões, dos quais R$ 10,998 milhões (77%) correspondem à cota da matriz McKinsey&Company Inc., com sede em Nova Iorque. Patrícia tornou-se sócia da McKinsey Brasil em abril de 2011, conforme a Jucesp. Ao todo, a subsidiária brasileira possui 42 sócios (pessoas físicas), entre brasileiros e estrangeiros.

Da agenda de trabalho de Patrícia consta, em 30/5, audiência com Fernando de Magalhães Furlan, secretário executivo do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, na qual se fez acompanhar por dois outros empresários. Em 31/8, reuniu-se com João Negri, diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), órgão do governo federal. Em 5/9, acompanhada de outros representantes da McKinsey, reuniu-se com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e com o reitor para tratar do projeto “USP do Futuro”.

O futuro parece ser um tema constante da consultora: em 2014 integrou uma mesa, com o também consultor Greg Clark, no “2º Seminário Internacional USP Cidades: Reurbanização dos negócios na cidade do século XXI”, organizado pelo Núcleo USP Cidades, criado pela gestão do reitor J.G. Rodas, que convidou para coordená-lo o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD). O reitor M.A. Zago foi pró-reitor de Pesquisa da gestão J.G. Rodas.

Recentemente, Patrícia Ellen opinou sobre o futuro da Previdência Social. No artigo “O Elefante Previdenciário”, publicado no jornal Valor Econômico em 2/3/16 e que teve como coautor Nicola Calicchio (presidente da McKinsey América Latina), a consultora faz uma previsão catastrófica: “Mantidas as regras atuais, o custo com a Previdência, que hoje é de cerca de 11% do PIB, poderá chegar a 25% em 2050”, sem dizer em que se baseiam tais números.

Futuro sombrio

Ela e seu colega da McKinsey começam por condenar a generosidade da Constituição Federal de 1988: “Ao aprovar uma Previdência mais inclusiva e pródiga, os constituintes de 1988 acabaram por conceber um organismo que se transformou num elefante nas costas da economia do país. [...] No sistema brasileiro, a idade das pessoas que têm seus pedidos de aposentadoria aprovados é, no geral, muito baixa. Em média, um homem se aposenta com 54 anos e uma mulher com 52, o que representa sobrevidas de 24 e 29 anos, respectivamente. Muitas vezes, o tempo de concessão dos benefícios supera o de contribuição”. Depois, passam a propor as mesmas medidas dra­co­nianas que o governo Temer mostra-se disposto a impor.

“Elevar a idade mínima de aposentadoria, portanto, é a medida mais importante e fundamental para solucionar o problema. Mesmo que a nova regra do 85/95 seja aprovada, o brasileiro ainda poderá se aposentar entre 55 e 60 anos, contra mínimo de 66 anos nos EUA e entre 60 e 65 no Chile. Sem revisões adicionais, rapidamente o sistema voltará a ficar insustentável”.

Por fim, Patrícia Ellen e seu parceiro sugerem nada menos do que achatar a aposentadoria dos servidores públicos: “A solução dessas distorções passa, necessariamente, pela equalização das regras para servidores públicos e contribuintes do setor privado — especialmente no que tange os [sic] tetos de benefícios. Enquanto para assalariados o valor máximo das aposentadorias fica abaixo de R$ 5 mil, para servidores não há limite. Em 2009, o benefício médio para servidores federais aposentados chegava a R$ 16 mil” (leia Opinião da Diretoria sobre tais considerações).

Não surpreende, portanto, que o Fórum Econômico Mundial (Davos) a tenha incluído na “lista de 121 lideranças abaixo de 40 anos”, fato festejado pela revista Veja.

Até o fechamento desta edição, Patrícia Ellen não respondeu às perguntas encaminhadas pelo Informativo Adusp.

Informativo nº 427