A Associação dos Docentes da USP (Adusp) foi nominalmente citada pela Folha de S. Paulo no editorial “O futuro da USP”, publicado na edição de 1/11/16. No texto, a direção do diário paulista comenta a contratação indireta e sem licitação da consultoria McKinsey pela Reitoria da USP, supostamente financiada por “ex-alunos”, grandes empresários que permanecem incógnitos — e cujas finalidades estariam relacionadas a um projeto denominado “USP do Futuro”.

Aparentemente baseado na entrevista concedida pelo reitor M.A. Zago ao jornal Valor Econômico, publicada em 25/10/16, o editorial refere-se à Adusp de modo jocoso e depreciativo.

“É mais fácil um camelo passar pelo olho de uma agulha do que um bem-sucedido ex-aluno da USP alcançar a anuência de uma certa classe de professores para ajudar a instituição que o formou”, principia o editorial da Folha. “A glosa vem a propósito das suspeitas que a associação dos docentes (Adusp) tem lançado contra o projeto USP do Futuro, patrocinado pelo reitor Marco Antonio Zago. Trata-se de consultoria da empresa McKinsey sobre a gestão da universidade que foi paga por um grupo de antigos estudantes por meio da organização Comunitas”.

Prossegue: “Querendo tanta distância de empresários quanto o demônio da cruz, os críticos se alvoroçam diante do que julgam ser um espectro da privatização da USP — enfrentam fantasmas enquanto a instituição tem problemas bem reais”.

Assim, a par de aceitar de modo irrefletido o discurso do reitor sobre a situação financeira da USP, o texto da Folha procura desqualificar o entendimento da Adusp quanto às questões que envolvem o financiamento da universidade, como se a privatização da universidade não fosse realidade óbvia e como se o próprio reitor não a defendesse rotineiramente.

Mais ainda, o editorial trata de desdenhar as críticas da Adusp ao comportamento da Reitoria, parecendo ignorar que esta conduziu clandestinamente as tratativas com a McKinsey e a Comunitas (à revelia até mesmo Conselho Universitário) e até a presente data vem se recusando a divulgar o Plano de Trabalho da consultoria, documento essencial para entender-se as reais motivações do projeto em curso, entre as quais estaria, segundo denúncia anônima, proposta de eventual cobrança de mensalidades.

Mensalidades

Coincidentemente, mais adiante o editorial defende essa cobrança: “A discussão”, assinala, “não deveria partir de tabus, como o que se levanta contra a cobrança de mensalidades por quem possa pagar. Só 34,6% dos quase 11 mil alunos ingressantes na USP em 2016 fizeram o ensino médio em escolas públicas — os outros dois terços provavelmente não precisariam ter seus estudos financiados pela sociedade”. 

A Folha finge ignorar que a única forma efetiva de se garantir direitos sociais — como a educação em todos os níveis — é por meio da arrecadação de impostos progressivos (proporcionais à renda), ao invés da injusta estrutura tributária vigente, que permite às camadas sociais mais ricas não só deixar de recolher impostos sobre lucros e dividendos, como também deduzir do Imposto de Renda seus gastos com ensino privado. 

Por outro lado, a eventual cobrança de mensalidades dos supostos “dois terços [que] provavelmente não precisariam ter seus estudos financiados pela sociedade” representaria, para os extratos de classe média alta e até os mais ricos, a inegável vantagem de pagar relativamente pouco por educação no sistema público, ao invés de recolher devidamente o Imposto de Renda (progressivo), de modo a financiar na justa medida o sistema público de ensino gratuito e universal. Além de constituir uma espécie de cota às avessas: um mecanismo de reserva para os extratos sociais abastados, na contramão do processo de democratização do acesso às universidades públicas.

Em resumo: são todas afirmações inconsistentes, a respeito de tema tão relevante para a sociedade paulista e brasileira. Por este motivo, a Adusp solicitou à Folha, em 3/11/16, a publicação, na página 3 (Tendências/Debates), de artigo intitulado “O futuro da USP deve ser transparente”.

Porém, a entidade recebeu do coordenador de artigos e eventos do jornal, Marco Almeida, em 5/11/16, a seguinte resposta: “Avaliamos aqui que não seria o caso de artigo na página 3. A Adusp é citada apenas em um parágrafo do editorial. Sugiro que escrevam uma carta para publicação no Painel do Leitor.”

Depois de tentativas frustradas de um contato com o coordenador, a Adusp decidiu enviar correspondência à ombudsman da Folha, a jornalista Paula Cesarino Costa, o que ocorreu em 22/11/16. A ombudsman respondeu em 25/11, limitando-se a ratificar as escolhas do jornal: “Agradeço a mensagem e a confiança depositada. No entanto, a decisão de publicar ou não um artigo cabe à Redação, e a ombudsman não pode interferir neste processo. Entendo que gostariam de publicar o artigo, mas lembro que o Painel do Leitor é uma seção de muita leitura do jornal. No mais, fico à disposição”.

Diante dessa resposta que lhe parece totalmente insuficiente, a Adusp deu o caso por encerrado, não sem antes dirigir-se novamente à ombudsman, fazendo ver que esperava dela maior independência e postura crítica: “Agradecemos por responder tão rapidamente à nossa mensagem. Porém, indo ao mérito, gostaríamos de deixar registrado nosso desapontamento com a sua leitura do episódio. Parece-nos que, uma vez mais, a dimensão política e social da questão do financiamento das universidades públicas recebe tratamento dúbio: o jornal se reserva o direito de abordá-la em editorial, e mesmo de citar depreciativamente a Adusp; mas garante a resposta apenas no Painel do Leitor, com seus meros 500 caracteres com espaços por carta. De fato, esperávamos da ombudsman uma posição mais contundente em defesa do direito de resposta”.