Na última reunião do Conselho Universitário (Co) do ano, em 6/12, o reitor M.A. Zago apresentou um balanço otimista da sua gestão, que teria conduzido um processo de “modernização” da universidade, uma “pauta de reformas mais urgentes”, tais como reduzir “em cerca de 4 mil funcionários o corpo técnico e administrativo da USP” (via PIDV e aposentadorias não repostas) e aprovar uma “reforma do sistema de avaliação institucional e individual dos docentes, incluindo um processo racional de progressão da carreira” (via “Nova CPA”).

O reitor expôs as primeiras conclusões do projeto “USP do Futuro”, que envolve instrumentos contratuais triangulados entre a universidade, a “organização social” Comunitas e a consultoria McKinsey&Companhia. Projetando no telão 22 slides, aparentemente produzidos pela própria consultoria, com a finalidade de descrever a primeira fase do trabalho, intitulada por ela “Aspirar e avaliar”, o reitor teceu para o Co breves comentários sobre seu conteúdo. Uma semana antes, a Adusp ajuizou ação ordinária de obrigação de fazer, frente ao descumprimento, pela Reitoria, da Lei de Acesso à Informação, no tocante à contratação da consultoria.

O estudo da McKinsey antecipa diversas propostas, a serem definitivamente configuradas nas três fases complementares. Essas propostas aparecem como “recomendações preliminares” e destinadas a “estimular a discussão”. No que concerne à “excelência acadêmica”, ao surpreendente diagnóstico de que “falta avaliação personalizada dos docentes, dificultando o uso de mecanismos de incentivo”, corresponde a recomendação de “criar sistema de avaliação docente, estimulando a progressão horizontal (dentro de uma mesma categoria) e reconhecendo os diferentes perfis de professores”, o que de pronto remete à “Nova CPA”, aprovada em 8/11.

No tocante à “governança”, propõe-se centralização ainda maior da estrutura de poder, por meio da criação de um “Comitê Executivo” acima do próprio Co. Quanto à “melhoria operacional”, as propostas têm linguagem empresarial e sentido privatizante. Por exemplo: “Terceirizar atividades básicas ainda realizadas por funcionários próprios, garantindo captura de ganhos com restaurantes e com auxiliares de serviços básicos”.

Depreende-se do quarto slide apresentado que as bases principais do diagnóstico, objeto dessa primeira fase, foram entrevistas de, ao todo, 40 pessoas, entre grupos externo e interno à USP, o primeiro composto por autoridades (governador, secretários, ministros) e outro por  “lideranças do setor produtivo” (“patrocinadores”, “comunicadores”, “ex-alunos”), além de “referências acadêmicas nacionais e internacionais”. Nos slides há menção explícita à Universidade Nacional de Cingapura, ao MIT e a Harvard. Não há informações quanto aos critérios de seleção dos entrevistados.

Já executadas

Os pontos de partida são a afirmação de que “há gasto excessivo com pessoal, que consome 90% do orçamento” e o “elemento viabilizador” segundo o qual “80% dos gastos [devem ser] em atividades direta­men­te ligadas a ensino e pes­qui­sa”. Coincidentemente, várias das medidas já vêm sendo executadas pela Reitoria, ou foram tentadas: “implementar o plano de redução da jornada de trabalho (PRJT)”; “expandir o Plano de Demissão Voluntária (sic)”; “desenhar plano de desvinculação dos hospitais”.

Outras sugestões da McKinsey: “postergar a aposentadoria de docentes”; “estruturar modelo de captação e gestão de um fundo patrimonial” [endowment]; “levantar recursos com o setor privado para oferecimento de bolsas de pesquisa”; “negociar grandes contratos com terceirizadas” etc.

A segunda fase do trabalho da consultoria cuidará de estratégia e  planejamento, “com foco em gestão administrativa e financeira”, e na terceira seriam elaboradas propostas de captação de recursos. A quarta e última focaria na definição de “iniciativas-chave para alcance das aspirações definidas”. As fases parecem misturar-se, dada a repetição de alguns enunciados em fases diferentes.

Na reunião, M.A. Zago finalmente divulgou os nomes dos financiadores do projeto “USP do Futuro”. Embora sempre apresentados como um “grupo de ex-alunos”, a Reitoria admitiu que dos seis empresários designados apenas quatro teriam sido alunos da USP: Pedro Passos (Natura), Pedro Wongtschowski (Ultra), Roberto Setúbal (Itaú) e Rubens Ometto (Cosan). Os outros dois não são ex-alunos: Ana Maria Diniz (Península e Centro de Liderança Pública) e Beto Sicupira (Anheuser-Busch Inbev e 3GCapital), cujo nome aparece grafado erroneamente no slide da Reitoria, como “Sucupira”.

Teor superficial

Iniciado o debate no Co, o professor Marcos Magalhães, representante da Congregação do IME, após comentar que a McKinsey recebeu R$ 1,75 milhão pela fase inicial do projeto (de um total de R$ 5 milhões), ironizou o teor superficial da apresentação: “A FEA e a FEARP, se recebessem R$ 200 mil para fazer um seminário para ‘aspirar e avaliar’, produziriam algo similar ou eventualmente melhor”.

Cortar os gastos básicos, concentrando-se nas atividades-fim, implica “terceirizações, fechamento de creches e flexibilização do regime de contratação de professores”, protestou a representante discente Manuela Silva Silveira (Esalq).

“Uma coisa que me assustou é que 80% dos gastos têm que ser com ensino e pesquisa. Então vamos definir o que é ensino e pesquisa”, questionou a represen­tante discente Luana dos Santos Alves Silva (IP), em protesto contra a política da Reitoria de sucateamento do Hospital Universi­tá­rio (HU) e da Escola de Aplicação. “HU é ensino e pesquisa? Para o aluno é. É um campo de estágio. Escola de Aplicação é ensino e pesquisa?  Repito: para os alunos é.  São meros penduricalhos ou são parte essencial da universidade?”.

Na mesma data, o Co aprovou o orçamento da USP para 2017. Do total de R$ 5,05 bilhões, R$ 4,6 bilhões serão destinados à folha de pagamento. Também estão previstas despesas adicionais com a contratação de cerca de 150 docentes, no valor de R$ 12 milhões.

Informativo nº 430