Foto: Daniel Garcia

No dia 17/10, no Auditório da História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o coletivo Butantã na Luta apresentou os resultados de uma pesquisa de opinião realizada com os moradores do Butantã a propósito da relação existente entre a população e o Hospital Universitário da USP (HU). Formado por moradores da região, o coletivo Butantã na Luta tem caráter suprapartidário e está organizando uma ampla campanha em defesa do HU.

“Nós acabamos priorizando a Saúde, porque é um elemento vital. Principalmente quando o reitor da USP, ao lado do governador Alckmin, ameaça de destruição o maior patrimônio de saúde que a capital de São Paulo tem, por conta do histórico de formação de médicos que foi implantada há mais de 30 anos aqui no campus”, disse o professor sênior João Zanetic, do Instituto de Física (IF), ao abrir o evento.

Tão logo assumiu o cargo, o reitor M.A. Zago procurou desvincular o HU da universidade e transferir sua gestão para o governo estadual. Na sua obsessão por austeridade financeira, o reitor definiu o HU como um obstáculo, chegando a declarar, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que o hospital é um “parasita” da USP. Ainda em 2014, mais de 200 funcionários do hospital, entre os quais 18 médicos, aderiram ao primeiro Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) implantado pela Reitoria, e até hoje não houve reposição desse pessoal. Posteriormente, mais funcionários deixaram o HU. A Reitoria cortou o pagamento dos plantões médicos, o que reduziu atendimentos e fechou setores do hospital. A Maternidade e o Pronto-Socorro estão entre as áreas mais afetadas.

“A Reitoria alega que o hospital tinha um custo operacional muito alto. Este custo operacional muito alto é absolutamente compatível com o fato de ser um hospital-escola que trabalha em três turnos e, portanto, trabalha de uma forma diferente de um hospital-escola normal, e ainda mais diferenciado a favor da sociedade do que um hospital comercial”, destacou Ciro Correa, professor do Instituto de Geociências (IGc), que presidiu a Adusp em 2014 e 2015, período em que a Reitoria iniciou o desmonte do HU.

Os dados que o corpo clínico do HU levantou a respeito das atividades de ensino em 2012 mostravam que o hospital atendia 1.223 alunos dos cursos de Medicina, Enfermagem, Ciências Farmacêuticas, Psicologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Nutrição, que tinham a oportunidade de aprender com equipes multidisciplinares.

Claudionor Brandão, diretor do Sintusp, lembrou que o reitor chegou a declarar, em uma audiência pública na Assembleia Legislativa, que não é obrigação da universidade “gastar dinheiro com fralda e antibiótico”. “Ora, se é um hospital-escola, fralda e antibiótico ali é material de ensino”, observou Brandão. “A verdade é que do ponto de vista da administração pública em todas as esferas, há uma orientação do início do anos 1990 de que saúde, educação e Previdência Social deveriam deixar de ser direitos e transformadas em mercadoria”.

Vital para a população

A pesquisa, dirigida pela socióloga Rachel Moreno, do Instituto Opinião, foi realizada por meio de 300 entrevistas com moradores e trabalhadores de bairros próximos ao Butantã, como Rio Pequeno e São Domingos, e também com uma amostra de 30 funcionários da USP filiados ao Sintusp, cujas respostas foram contabilizadas separadamente. Os resultados revelam como o hospital é vital para a população: 65% dos moradores da região não possuem convênio de saúde, 55% dos que usaram o HU o fizeram em situação de emergência e 35% dos entrevistados usaram o hospital há menos de um ano. Menos de 20% dos entrevistados nunca utilizaram os serviços do hospital.

O atendimento é bem avaliado pela maior parte dos entrevistados, sendo considerado bom por 40% e ótimo por 34% da população. Das respostas positivas em relação ao atendimento, 40% foram pela proximidade do HU, 32,3% pela qualidade da equipe e 14,3% por se tratar de um hospital-escola. Durante a apresentação, Rachel Moreno ressaltou a importância sentimental e histórica que o HU tem para várias pessoas, graças, por exemplo, à lembrança de partos nele ocorridos: 5,14% das avaliações positivas se devem à história e à imagem do HU.

Entretanto, 14% dos entrevistados consideraram a qualidade do atendimento como regular, 3% ruim e 4% péssimo. Segundo o relatório executivo da pesquisa, os resultados negativos decorrem diretamente da precarização recente do hospital: 38,77% das respostas negativas referem-se à demora e a dificuldades no atendimento.

Em relação ao conhecimento do processo de desmonte do hospital, 60% das pessoas consultadas sabem que os recursos financeiros do HU diminuíram e outros 30% não sabem responder. Dispõem-se a participar de abaixo-assinados 80% dos entrevistados e quase 40% participariam de uma passeata em defesa do hospital.

Os deputados estaduais Carlos Neder (PT) e Leci Brandão (PCdoB) e o vereador Toninho Vespoli (PSOL), assim como um representante do deputado federal Ivan Valente (PSOL), estiveram presentes para declarar seu apoio ao HU e à mobilização popular.

“Nós estamos enfrentando pontualmente, regionalmente, um debate nacional. Porque os projetos que estão em disputa no ano que vem dizem respeito à visão do Estado, à relação público-privada e papel da sociedade neste processo”, disse Neder. Vespoli igualmente apontou o contexto nacional: “A luta tem que ser pelo HU, pela questões do Butantã, mas focalizada nessa luta geral contra a destruição do Estado”. Já Leci saudou a iniciativa do Coletivo Butantã em Luta e a criação de outros coletivos populares.