foto: Daniel Garcia

Reunidos em assembleia no dia 13/11, os estudantes da Faculdade de Medicina (FMUSP) decretaram greve em defesa do Hospital Universitário (HU), a primeira greve estudantil do curso desde a Ditadura Militar (1964-1985). No dia seguinte, os estudantes da Escola de Enfermagem (EEUSP) aderiram à greve.

fotos: Daniel Garcia  
Ato de estudantes partiu do Masp em direção à Faculdade de Medicina, no dia 21/11

A mobilização estudantil soma-se aos esforços do Coletivo Butantã na Luta, associação de moradores da região, que vem organizan­do a comunidade por meio de reuniões, abaixo-assinado e uma pesquisa de opinião. No dia 24/11, às 10 horas, o Coletivo realizará um ato no Portão da 3 da USP, que seguirá em direção ao hospital para “abraçá-lo” às 12 horas. 

O HU vem enfrentando crescentes dificuldades desde 2014, com a posse do reitor M.A. Zago, inimigo declarado do hospital. A primeira edição do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) reduziu o quadro de funcionários em mais de 200 pessoas, dentre elas 18 médicos. Além de dificultar a escala de plantões do hospital e prejudicar o atendimento da população, a falta de contratações sobrecarregou a equipe restante, gerando mais pedidos de demissão.

“As demissões no HU comprometeram o funcionamento do hospital de tal modo que as pessoas que permaneceram ficaram sobrecarregadas, principalmente pela demanda de emergência. Isto fez com que muitas pessoas se demitissem do hospital, por conta do assédio institucional e pela exigência de cumprir a mesma demanda com menos profissionais”, explica o médico Gerson Salvador, diretor do Sindicato dos Médicos (Simesp). “Isto causou uma baixa na autoestima de quem trabalhava lá, não é fácil trabalhar em uma instituição em que você é considerado dispensável”.

Estágio ameaçado

Maria Luiza Corullon, presidente do Centro Acadêmico de Medicina (CAOC), explica que o estopim para a greve estudantil foi risco de fechamento do Pronto Atendimento (PA) de Pediatria. “A gente sabe que a situação do HU está delicada há muito tempo, desde 2014. Mas nessas últimas semanas tivemos a notícia que o PA de Pediatria corria o risco de fechar e que as escalas não estavam dando conta com os médicos que restaram após a demissão de uma última médica”, explica a presidente do CAOC. “A partir disso”, diz ela, diante da avaliação de que os alunos não teriam mais como exercer o estágio na Pediatria e de que a população seria privada deste PA, “entramos em greve nesta segunda-feira”.

Além de prejudicar o atendimento à população da Zona Oeste, a precarização do HU tem efeitos a longo prazo na formação profissional de estudantes dos cursos de Medicina, Enfermagem, Ciências Farmacêuticas, Psicologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Nutrição. Segundos dados de 2012, o HU possi­bilitava, anualmente, que mais de 1.200 alunos destes cursos pudessem aprender suas práticas profissionais com a ajuda de equipes interdisciplinares.

“O HU é importante pela equipe multifuncional, porque tem uma representatividade importante, com departamentos de cada área. Os cursos conseguem desenvolver suas pesquisas com autonomia, o que não se encontra em outros hospitais”, explica o estudante Glauber Almeida, membro do Centro Acadêmico de Enfermagem.

A Reitoria prometeu a contratação de médicos por intermédio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), porém os estudantes exigem a contratação de profissionais via USP. “Estas contratações que vão acontecer pela SMS garantem médicos só para assistência, então eles não têm vínculo com o ensino, o que é problemático”, afirma Maria Luiza. “Ou eles vão ensinar a gente ou vão ter que se desdobrar para fazer mais do que o trabalho determinado. Este contrato também seria feito por Organização Social [‘OS’, privada], e é complicado fazer isso com um hospital que até agora é 100% público”.

Disposição

No dia 14/11, os estudantes organizaram um ato que partiu do vão do MASP e caminhou em direção à FM, parando em frente à Secretaria de Saúde do Estado para exigir, em jogral, que o governo estadual se posicione frente à questão. A disposição de luta dos alunos de Medicina já havia ficado clara no dia 19/10, quando compareceram em grande número ao debate entre reitoráveis na FEA 5 e refutaram as alegações do então candidato Vahan Agopyan sobre o HU. Naquela ocasião, tendo Maria Luiza como porta-voz, anunciaram que entrariam em greve caso a Reitoria não providenciasse as contratações reivindicadas (vide http://bit.ly/2jzx71e).

No entender da presidente do CAOC, o apoio da população, por meio do Coletivo Butantã na Luta, tem sido fundamental para a mobilização. “É a primeira vez que conseguimos de fato olhar e ver que a população está muito organizada. A gente falhou nas últimas vezes de não conseguir esse contato e desta vez eles estão do nosso lado, vieram no ato, estão participando de reuniões com a gente. Se a gente for resolver alguma coisa, vai ser com eles, pois afinal de contas a população faz parte do HU, eles são centrais na nossa luta”, afirmou Maria Luiza.

Gerson Salvador avalia que a greve liderada pelo CAOC faz o necessário contraponto a essa desvalorização dos profissionais de saúde. “O que os estudantes mostraram com este movimento tão bonito em favor do hospital, assim como os moradores que estão circulando pelas comunidades com um abaixo-assinado que chega a 20 mil assinaturas, é que nós não somos dispensáveis”, destaca.

“Não somos dispensáveis para o processo de formação deles nem para a população. Isto mostra que não estamos errados, estamos do lado certo. Quem está errada é a Reitoria da USP e o governo do Estado de São Paulo”, continua o diretor do Simesp. “Então este mo­vimento dos estudantes nos dá um ânimo novo, para quem trabalha no hospital, e pode nos ajudar a superar a crise em que se encontra o HU. O Simesp apoia a greve dos estudantes de Medicina da USP”.

Informativo nº 444