foto: Daniel Garcia

No dia 24/11, cerca de duas mil pessoas — estudantes, professores, funcionários e moradores da região do Butantã — participaram de uma passeata em defesa do Hospital Universitário e lhe deram um abraço simbólico, em resposta ao deliberado desmonte promovido pela Reitoria com a anuência do governador Geraldo Alckmin (PSDB). O ato foi convocado pelo Coletivo Butantã na Luta e recebeu apoio da Adusp, Sintusp, Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Diretório Central dos Estudantes-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”, além de vários centros acadêmicos, parlamentares e movimentos sociais, como o Fórum de Popular de Saúde.

fotos: Daniel Garcia
Abraço HU
Abraço HU Abraço HU
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O HU vem enfrentando ataques desde 2014, com a posse do reitor M.A. Zago, que chegou a caracterizar o hospital como “parasita” da universidade e “penduricalho”. Durante a maior parte de sua gestão, a Reitoria tentou desvincular o HU da USP, proposta que foi barrada graças à mobilização das três categorias. Entretanto, a primeira edição do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) reduziu o quadro de funcionários do hospital em mais de 200 pessoas. Além de dificultar a escala de plantões e prejudicar o atendimento da população, o congelamento de contratações sobrecarregou a equipe restante, gerando mais pedidos de demissão.

“Neste último ano piorou mais ainda. Fechou o Pronto-Socorro durante a noite. Recentemente fechou o Pronto-Socorro [PA] da Pediatria e na próxima semana está se anunciando fechar o Pronto-Socorro da Clínica Médica. De 300 partos por mês, se reduziu para 130. Um hospital secundário, que atende [casos de] média complexidade, que opera como hospital-escola, o que lhe dá uma qualidade inigualável. O reitor se exime por completo, não recebe moradores, não recebe ninguém”, explicou Lester Amaral Jr., morador do Jardim Bonfiglioli e membro do Coletivo Butantã na Luta. O fechamento do PA da Pediatria foi o estopim da greve estudantil nos cursos de Medicina e Enfermagem.

A manifestação começou no Portão 3 da USP e percorreu a Avenida Corifeu de Azevedo Marques, cruzando a comunidade Jardim São Remo em direção ao HU. Animado pela bateria dos estudantes da Escola de Enfermagem, o ato foi crescendo de tamanho no percurso, demonstrando o apoio dos moradores da região mesmo sob o forte sol do meio-dia. Dentre os cartazes, destacavam-se mensagens como “O HU é do povo” e “Alckmin, não feche o hospital em que eu nasci!”.

Quando a passeata chegou ao hospital, populares que aguardavam atendimento somaram-se ao abraço simbólico. Das janelas do HU, funcionários e pacientes expressavam seu apoio desenrolando faixas contra o desmonte. Após o “abraço”, a manifestação circulou pela Cidade Universitária do Butantã em direção ao prédio da Reitoria, onde foi protocolada uma carta aberta ao reitor exigindo a contratação imediata de funcionários por intermédio da USP (contrapondo-se assim à proposta da Prefeitura de São Paulo e da Reitoria de contratação de médicos por “organizações sociais”).

Coletivo Butantã na Luta mobiliza moradores

A grande participação de moradores na passeata foi resultado das atividades promovidas pelo Coletivo Butantã na Luta nos últimos meses. “Nós fizemos há alguns meses uma carreata para percorrer os bairros de periferia do Butantã, que são os que mais utilizam o HU. Depois percorremos várias regiões com ilhas de conversas, não só para distribuir panfletos e explicar a situação em que o HU se encontra, mas também para divulgar o abaixo-assinado, que juntamos perto de 35 mil assinaturas. Achamos que a população está informada”, descreveu João Zanetic, professor aposentado da USP e membro do coletivo.

“Há tanto tempo a gente não via um ato que nos fazia nos sentir tão forte. Foi esta unidade expressa em um ato como este que, em 2014, diante do Conselho Universitário, fez o reitor retirar a proposta de desvinculação da pauta”, relembrou Bruno Sperb Rocha, representante do Sintusp. “Mas a Reitoria não desistiu, e de lá pra cá, vem sufocando e estrangulando o hospital. Primeiro foi fechado o Pronto-Socorro durante a noite, depois 25% dos leitos do hospital, depois fecharam 40% dos leitos da UTI completamente equipados, mas sem funcionários para atender. Fecharam vários exames, ambulatórios. Diminuíram em 40% os atendimentos de urgência ginecológica, enquanto esta Reitoria faz demagogia com os direitos das mulheres. Para que com esse sufocamento, a situação ficasse tão insustentável que uma hora o reitor possa apresentar como solução a mesma proposta que barramos em 2014, que é a desvinculação, começando pela contratação indireta de ‘organizações sociais’. Mas não vamos aceitar!”.

Gerson Salvador, diretor do Simesp e funcionário do HU, denunciou a postura da burocracia universitária: “Eu abraço os estudantes que, dentro desta estrutura autoritária e incompetente da Reitoria, se levantaram e denunciaram a diretoria da Faculdade de Medicina. Denuncio a direção deste hospital, porque Waldyr Antonio Jorge, o superintendente [do HU], o senhor é um obreiro do [reitor] Zago! Tudo o que precisou desmontar na universidade, na SAS [Superintendência de Assistência Social] e no HU, o senhor esteve à frente! Eu abraço meus colegas de hospital, porque vocês estão lutando para manter esta estrutura aberta! Vocês estão confrontando as denúncias estúpidas que fazem contra nós, tentando jogar a população contra estes profissionais que estão há quase 40 anos atendendo. Por fim, eu abraço vocês, a população do Butantã: foram vocês ou os pais de vocês os operários que construíram esta universidade. A USP deve respeito a quem a construiu!”.

A representante da Adusp, professora Kimi Tomizaki, destacou que a luta do HU faz parte de um momento crucial para todos, não só para a universidade. “Todos nós, em alguma medida, estamos trabalhando para enriquecer absurdamente um grupo infinitamente pequeno de pessoas que vive da exploração e da negação de todos os direitos para a maioria da população mundial. Não estamos lutando por um Hospital Universitário da USP, de privilégios para pessoas da USP e do entorno. A USP tem que dizer neste momento político qual o lugar desta universidade. E o lugar dela tem que ser o da democratização e do acesso aos direitos de toda a população”, disse a docente.

Vários parlamentares compareceram ao ato e expressaram sua indignação com a política implementada pela Reitoria com o aval do governador. Dentre eles estavam os vereadores Sâmia Bonfim (PSOL) e Antônio Donato (PT), os deputados estaduais Carlos Gianazzi (PSOL) e Carlos Neder (PT), e os deputados federais Orlando Silva (PCdoB), Carlos Zaratini (PT), Ivan Valente (PSOL) e Major Olímpio (SD), este último vaiado pelos manifestantes.