A terceira edição do livro O Controle Ideológico na USP (1964-1978) foi lançada em 11/12, em rápida cerimônia realizada no intervalo da 993a reunião do Conselho Universitário. Desta vez, o livro vem a público numa coedição com a Editora da USP (Edusp), tendo como mote o quinquagésimo aniversário da edição do Ato Institucional número 5 (AI-5), legislação repressiva de exceção imposta em 1968 pela Ditadura Militar e que levou à aposentadoria e cassação dos direitos políticos de dezenas de renomados professores da universidade. A nova edição do livro foi apresentada ao Co pelo presidente da Adusp, professor Rodrigo Ricupero, e pelo reitor Vahan Agopyan.

“Neste momento em que estamos praticamente na véspera de completar os 50 anos do AI-5, a Universidade de São Paulo procurou a Associação dos Docentes da USP sugerindo a reedição desta obra, originalmente de 78, e que tem atualmente o título de Controle Ideológico na USP”, explicou Ricupero, destacando que “a questão do controle ideológico, ontem e hoje”, reveste-se de novas perspectivas. “Dado o cenário atual, este livro ganhou uma importância ainda maior”.

O presidente da Adusp chamou a atenção do Co para uma singularidade daquele ato de força do regime militar no tocante à USP, uma vez que “infelizmente o autor principal do AI-5 foi nosso então reitor Gama e Silva”, cabendo portanto à universidade “fazer uma espécie de acerto de contas”, bem como posicionar-se de forma clara quanto àquele ataque à democracia. Após mencionar a atuação da Comissão da Verdade da USP (que finalizou seu relatório em 2018), o professor fez uma referência indireta ao movimento “Escola sem Partido” e a outras iniciativas correlatas.

“Um setor da sociedade volta a reclamar o controle ideológico nas universidades e nas escolas. Este Conselho Universitário se posicionou recentemente contra isso”, observou Ricupero, apontando a relevância dessa atitude. “E por fim queria, em nome da Adusp, declarar que do nosso ponto de vista esse tipo de ação conjunta com a Reitoria é sempre importante. A Adusp historicamente tem sido um contraponto dentro da universidade, sempre tem procurado, de forma independente, colocar posições diferentes no debate. Mas quando é possível, quando a gente tem acordo, podemos atuar juntos. E neste momento em que a democracia brasileira está colocada em questão, é sempre importante essa atuação comum”.

“Primeiras vítimas do AI-5 foram docentes desta casa”, diz reitor

Na sua fala, o reitor rememorou a repercussão do AI-5 na vida da USP. “O professor Ricupero lembrou bem que o autor foi o reitor afastado desta universidade. No entanto, as primeiras vítimas do AI-5 foram docentes desta casa, culminando com a cassação do reitor em exercício, professor Hélio Lourenço. Foi um momento de extrema crise e dificuldade”, relatou Vahan.

“Tivemos, no começo de 69, uma situação extremamente complexa, quando o vice-reitor em exercício é cassado e tem que sair do país. Ainda no regime de exceção, a Adusp, recém fundada — eu já era sócio, naquela época fui sócio da Adusp —, teve a ousadia e a coragem de fazer um levantamento do que tinha ocorrido naqueles 14 anos de exceção na nossa universidade. Eu diria ousadia e talvez coragem, muita coragem. Num momento tão complexo, um grupo de professores redigir um texto desses”.

Ainda segundo Vahan, a intenção da Reitoria ao buscar a reedição da obra coletiva lançada pela Adusp em 1978, e reeditada em 2004, é garantir que os fatos históricos do período sejam do conhecimento dos estudantes: “Minha grande preocupação é transmitir isso para os nossos alunos. Esses jovens saberem o que aconteceu, as coisas que aconteceram e que envolveram a nossa universidade. Como é difícil manter um ambiente de diálogo e de discussão de ideias, discussão intelectual, em condições não favoráveis”.

De acordo com o reitor, o trabalho desenvolvido pela Comissão da Verdade da USP evidenciou que “momentos de exceção permitem que pessoas inescrupulosas aproveitem da situação e tentem levar vantagem”. “Alguns alunos me perguntaram: ‘Professor Vahan, quando você estudava tinha um militar na sua porta?’. Falei: ‘Não, não tinha. O que tinha era meus colegas me denunciando’. Não tinha militar, não tinha tropas andando na USP. Quer dizer, entrei em 70. Sei que em 68 tivemos o fechamento do Crusp. Mas em 70 não tínhamos, não tivemos, não vi policiais dentro da USP. Mas qualquer passo que os alunos ou os professores davam eram todos conhecidos, e sabíamos que eram conhecidos”.