A unanimidade é burra, é um provérbio popular. Não é diferente em uma associação como a Adusp. Nas suas diversas instâncias — Diretoria, Conselho de Representantes, Assembléia — são tomadas decisões que nem sempre contam com a concordância de todos. O importante é que as competências de cada instância não ultrapassem os limites da estrutura democrática que deve reger a prática associativa.

Muitas das iniciativas da Adusp são políticas no sentido amplo do termo e, em alguns casos, as posições da entidade podem se opor ou se aproximar de teses defendidas por um ou mais partidos políticos, sem que isso descaracterize a autonomia e independência da entidade. No entanto, contradições existentes entre as posições pessoais e as posições adotadas por entidades representativas pode afastar ou aproximar as pessoas — e é preciso estar atento a isso. Relatos de docentes consultados pelo Informativo Adusp apontam aspectos dessa realidade.

O professor Moacyr Aizenstein, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), desfiliou-se da Adusp por discordar da participação da entidade em um ato que dizia respeito ao conflito entre Israel e o Líbano, em 2006. Seu retorno, em agosto de 2008, advém do reconhecimento da importância da entidade: “Desde que entrei na universidade, sou membro ativo, fui representante inclusive. Eu me sinto muito identificado com a Adusp. Não queria me afastar”.

Professor da USP há 36 anos, “todos passados no ICB”, Aizenstein avalia que “a função principal da Adusp é representar os docentes dentro da universidade”, mas, apesar de haver criticado as escolhas da associação em política externa, concorda que a entidade discuta as políticas públicas no Brasil, desde a universitária até a de saúde: “Nós somos partícipes, temos que ter uma posição”, conclui.

Antiga relação

Prestes a assinar sua aposentadoria, com mais de 40 anos de dedicação à USP, o professor titular Etelvino Bechara, do Instituto de Química, acaba de retornar à Adusp. Ele filiou-se à entidade pela primeira vez no mesmo ano em que ela foi criada.

bechara“Filiei-me à Adusp logo após sua fundação em 1976, dentro do movimento de resistência da sociedade civil contra a ditadura militar, em busca de uma entidade que representasse os docentes da USP em todas a instâncias e encaminhasse nossas reinvindicações à direção da universidade e ao governo estadual. Nos primeiros anos, a Adusp tinha um caráter tanto de agremiação acadêmica, atestada pela adesão maciça de seus docentes, inclusive dos mais renomados pesquisadores, e pela sua participação ativa nas discussões específicas dos Institutos, como de associação sindical nas campanhas salariais e reformas estatutárias. Tinha essa dupla face. Era uma associação acadêmica e também sindical.”

“Quando a Adusp filiou-se à Andes, então ela optou pelo sindicalismo e assumiu posições político-partidárias com as quais eu concordava, mas não achava adequadas a uma agremiação de educadores e cientistas. Senti muita falta do antigo estilo de atuação da Adusp no começo. Como não era militante de nenhum dos dois partidos que disputavam a direção da associação, afastei-me de suas assembléias e cancelei minha filiação”, explica o professor.

“Caiu a ficha”

“Um dos motivos pelos quais refiliei-me recentemente à Adusp”, diz o professor, “foi uma retomada de consciência de que a Adusp de fato, ao longo de toda a sua história, foi a única força da universidade que na verdade batalhou pelos nossos direitos de docentes: salários dignos, garantia dos direitos trabalhistas, creche e hospital de qualidade e gestão democrática, transparente e ágil dos Institutos e Reitoria”.

No aspecto sindical, enfatiza ele, sempre deu crédito à Adusp. “Nós não teríamos o salário que temos hoje se não fosse a Adusp, pois as Reitorias passadas nunca conseguiram se antecipar às crises, corrigindo nossos salários”.

O professor considera que a “gota d’água” para sua refiliação à Adusp, em 2008, foi o processo do “Gatilho Salarial”, organizado pela entidade. “Passam os anos desde a decisão judicial em nosso favor e a reação da Reitoria é em passo de tartaruga, apesar de tanto empenho e seriedade da Adusp para acelerar este processo. Na verdade, nem conto mais com que algum dia será cumprida a decisão da Justiça. Caiu a ficha e percebi o quanto havia sido radical em afastar-me da Adusp. Se alguém está zelando pelos meus direitos trabalhistas de docente da USP não é a Reitoria. Absolutamente. É a Adusp”.

 

Matéria publicada no Informativo n° 266