foto: Cinderela Caldeira / USP Imagens

Em entrevista a emissoras de rádio, Vahan admite que contas da USP “não estão no vermelho”, mas insiste no mantra de “austeridade fiscal”. E quando fala em inovação, apaga a força de trabalho

O reitor Vahan Agopyan concedeu duas entrevistas a emissoras de rádio, com intervalo de três meses entre uma e outra, que merecem ser comentadas. A primeira entrevista foi concedida à Rádio Eldorado, no dia 9/2/2018, e a segunda à Rádio USP, no dia 9/5.

Rádio Eldorado I: contas “não estão no vermelho”

Os tópicos da entrevista à Eldorado foram os seguintes: interação com a sociedade; contas da USP e folha de pagamento; situação do Hospital Universitário; cotas raciais; determinação judicial de apreensão de documentos relacionados ao acordo com a McKinsey&Company e propostas dessa consultoria (criação de um fundo para captar doações; Inova USP e projetos interdisciplinares); a parte do ICMS que cabe à USP; Museu do Ipiranga e permanência estudantil.

Atentemos para os primeiros minutos dessa entrevista (1’16” a 3’12”), nos quais se fala mais sobre as contas da USP. Para saber sobre os demais tópicos, é possível acessar a entrevista na íntegra. A repórter abre a conversa lembrando que na solenidade de posse o reitor “destacou a necessidade de a universidade interagir cada vez mais com a sociedade”. Em seguida, ela menciona “o período difícil por que a USP passou nos últimos tempos”.

Para introduzir a primeira pergunta, a repórter fala da folha de pagamento que já deixou de ser crítica (ou seja, deixou de representar 106% de comprometimento com salários), mas que ainda é uma preocupação. É interessante como a entrevistadora adianta-se nas conclusões, evidenciando conhecimento parcial, porém superficial, da questão financeira da USP. O foco da pergunta desvia-se rapidamente da questão financeira para a questão da interação com a sociedade. O reitor Vahan lembra que a interação com a sociedade é “um dever da universidade”, que “é mantida pela sociedade”.

Em relação a essas primeiras palavras do reitor, nada há de novo: descrevem um consenso ideal, o de que a missão do ensino e da pesquisa é a de promover o bem-estar de todos. Até este momento da entrevista, no sentido do debate de um tema problemático, nada se discutiu, como se o fato de a folha de pagamento ter-se reduzido graças às demissões “voluntárias” (PIDV) apaziguasse todos os ânimos. No entanto o reitor não perdeu a oportunidade de apresentar ressalvas: “A crise está superada, mas obviamente a dificuldade continua”. E acrescentou algo muito preocupante: “Nós vamos continuar tendo um controle muito rígido das nossas despesas, mas ao mesmo tempo continuar realizando projetos para tornar a USP cada vez melhor” (grifos nossos).

À pergunta do outro entrevistador, “Como é que o senhor define as contas hoje?” (1’53”), Vahan responde: “As contas hoje não estão no vermelho, mas continuamos tendo uma carga muito pesada do quanto gastamos com pessoal, não estamos acima de 100% mas também não estamos confortáveis, o mês de janeiro foi 94%. Perto do que estava é muito melhor. O mês de janeiro é muito carregado por conta das férias. Mas de qualquer forma as contas estão controladas” (grifos nossos).

É preciso extrair o que fica nas entrelinhas, ou no silêncio do reitor. Pois bem: frente ao que se relatou até aqui, a pergunta que devemos nos fazer, nós docentes, é: se a USP cresce, e se os salários de pessoal permanecem os mesmos, ou reduzem-se diante da inflação, quem paga esta conta?

Como visar inovação, laboratórios interdisciplinares, maior interação com a sociedade, se o pensamento é o de que pagar àqueles que promovem tudo isto é uma “carga pesada”? É importante também buscarmos um entendimento melhor do que o reitor quer dizer quando fala em submeter ao Conselho Universitário a decisão sobre “gastos grandes”.

Como veremos na entrevista concedida posteriormente à rádio USP, o reitor Vahan Agopian parece reconhecer alguns aspectos importantes da vida uspiana, como o trabalho de formação sólida promovida por seus docentes, que seu antecessor desconsiderava, ou mesmo atacava. Lembremos os ataques de M. A. Zago aos docentes (por ele chamados de “acomodados”) e aos sindicatos.

Rádio Eldorado II: caso McKinsey e as risadas do reitor

Ao mesmo tempo, o reitor da USP se ri (!) do questionamento da repórter (aos 7’20”) sobre a apreensão, por ordem judicial, de documentos na Reitoria da USP, decorrentes do suspeitoso acordo com a consultoria McKinsey&Company (que, no entanto, não foi nomeada na entrevista, nem pela repórter, nem por Vahan), “e também na verdade, do que essa consultoria estivesse fazendo lá dentro”. Vale transcrever a resposta:

Ah ah! Você me desculpe, estou dando risada, mas é, é... o que uma consultoria faz?... Faz estudos, e os gestores analisam se os estudos valem ou não. Acho que essa é a lógica da consultoria. Aí criaram [sic], nesta nova política de pós-verdade, de que ‘não’, estava sendo feito um estudo para a privatização, ou um estudo para implantação de ensino pago e coisas desse tipo. O ensino gratuito das universidades é uma decisão constitucional. Não cabe à Universidade de São Paulo decidir se vai cobrar ou não vai cobrar”. Mais adiante, diz: “Felizmente, a Justiça entendeu que não tinha nenhuma lógica”.

Como sabemos hoje, o reitor estava praticando sua própria pós-verdade: confira aqui. “E foi interessante, nós tínhamos uma visão externa do que o pessoal acha da universidade”. E o que acha?, pergunta a repórter. “Por exemplo”, prossegue Vahan, “acha que nós temos que procurar novas fontes. Recomendaram criar um endowment, que é uma ideia boa que nós estamos adotando, achamos importante”.

Ora (já estava na hora deste “ora”), sabemos todos que endowments não resolvem a questão de pagamentos de salário. Como o próprio Vahan admite na entrevista, o financiamento público é indispensável! E ver nisso uma maneira de interagir melhor com a sociedade só é estratégico para quem quer obscurecer, esconder e minimizar as condições de trabalho e de vida dos quase 6 mil docentes da USP.

Aliás, a própria contratação de uma consultoria privada para elaborar um projeto arrogantemente chamado “USP do Futuro”, numa universidade pública que se proclama como de excelência, e que efetivamente reúne milhares de especialistas de alto nível, é sinal alarmante de como a Reitoria subestima esse corpo docente. Ou deveríamos empregar o verbo “desprezar”?

Rádio USP: inovação sem inovadores?

A entrevista dada à Rádio USP, no programa “Momento USP Inovação”, teve como tema apenas a inovação, e os temas relacionados ao aspecto em questão não deixaram de emergir, ainda que de modo apenas implícito (confira aqui a gravação). O reitor estava acompanhado do coordenador da Agência USP de Inovação (Auspin), Antônio Marques, que também respondeu a perguntas das entrevistadoras.

(Não desconhecemos, mas deixaremos de lado aqui, o fato de que para os atuais gestores da universidade e da ciência a chamada “inovação” tem caráter basicamente mercantil. Vamos nos ater a alguns aspectos relacionados à exploração da nossa força de trabalho para fins de “inovação”.)

Gostaríamos justamente de chamar a atenção, inicialmente, para o trecho que vai de 6’20 a 7’40”, em que o reitor fala de como mudaram, em trinta anos, as equipes de pesquisa: desde a pesquisa básica até a aplicada. Uma característica importante nesta mudança foi a multidisciplinaridade. Ora, vale-se “desimplicitar” daí, ou melhor, desentranhar daí, a ideia de que só mesmo um cientista e/ou pesquisador excelente consegue formar e reunir quadros em que há diálogo intenso entre as disciplinas. Decorre naturalmente desta ideia que um profissional tão completo deve ser muito bem valorizado.

A visão do reitor é de que estes grupos multidisciplinares devem aumentar em número, e que o ideal seria haver centenas deles. De novo, a submersa questão de quem fará, desses grupos, grupos de excelência na pesquisa, vem à tona.

É preciso entender que as inovações (como o motor do carro flex, que a repórter mencionou) não são produtos sem produtores. Sobre esses produtores, o coordenador da Auspin disse que são excelentes pesquisadores e empreendedores natos. Ou seja, além de especialistas com nível de excelência, os docentes da USP têm de saber elaborar um projeto, coordenar este projeto e ser gestor dele. Sabemos que coordenar e gerenciar, além de outras tarefas que assumimos como docentes em RDIDP, são consequências do desenvolvimento do conhecimento em nossas áreas específicas. Neste sentido, à pergunta “Podemos dizer que inovação é um dos pilares que a universidade usa para apoiar suas atividades?” formulada pela entrevistadora, o reitor Vahan responde que a inovação é uma das ferramentas, e não pilar, para formar profissionais na era atual, e segue: “O pilar é o conhecimento profundo, a formação básica rigorosa, para ele ser um bom profissional”.

Isto foi já no fim da entrevista (20’45”), em que se deixou ecoando no silêncio, ou inscrito nas entrelinhas, que não importa o quão permeável às relações exteriores de qualquer natureza esteja a universidade, ela depende do conhecimento de seu professor pesquisador. Os silêncios potenciais, devemos romper em alto e bom som. Mais do que nunca precisamos nos perguntar e à Reitoria: mas quem realiza, propicia, proporciona esta formação básica rigorosa?

Será que um controle rigoroso — seja lá quem o exerça — para acontecer a inovação realizada por uma força superior, uma massa amorfa e descorporificada, é o melhor caminho para a universidade?

Tornar toda excelência algo abstrato, ideal e desvinculado de todos os indivíduos que trabalham para uma universidade “cada vez melhor” é o meio eficiente, isso sim, para apagar quem realiza as ações necessárias. Uma vez apagados do processo, desnecessário sermos desvalorizados, já que não há o que se valorizar ou desvalorizar.

Beatriz Raposo, professora da FFLCH, e Pedro Pomar, editor da Revista Adusp